Ingratidão: um problema exclusivo da pessoa ingrata

Como vai você?

LUCY DE MIGUEL — Felicidade é algo que contagia. Lembro-me perfeitamente de uma ocasião em que meus pais chegaram em casa contando como havia sido maravilhosa a visita que fizeram a seus compadres. Eu tinha uns 8 ou 9 anos. Os dois estavam radiantes de felicidade, pois encontraram aquela família tão feliz, que fizeram questão de contar para todos nós sobre suas conversas. E uma delas me tocou profundamente. A comadre da minha mãe disse a ela que o segredo da felicidade era agradecer por todas as coisas boas e ruins que acontecem na vida.

Tomei isso como regra de ouro e, desde então, antes de dormir, passei a agradecer a Deus por tudo o que acontece no meu dia. Ainda que eu não tenha uma religião para seguir, a conexão com o divino é fato e o hábito de agradecer é sagrado.

Confesso que muitas vezes agradeci pelas coisas ruins com certa relutância. Não é fácil. No início da minha carreira como jornalista, em Bauru, tive uma editora-chefe que era da pá virada. Ô, mulher difícil de agradar! E ainda por cima, adorava humilhar qualquer um da sua equipe na frente dos demais, dizia palavrões pesadíssimos, dava um show. Show de horror! Parecia até que tinha certa bipolaridade: dentro da empresa era uma pessoa odiada; fora dela mostrava o tamanho do seu coração e toda a sua generosidade. E nós dizíamos que ela era louca de pedra! Odiávamos toda aquela hostilidade e falta de respeito.

Várias vezes saí do trabalho chorando, querendo desistir de tudo, me sentindo a pior das mortais. Aí a noite chegava e eu fazia um esforço sobre-humano para agradecer pelas broncas da minha editora-chefe, pelos seus xingamentos, pela sua ira! No silêncio do meu quarto, ao conectar-me com o divino, eu era grata.

Por ela pedi demissão umas três vezes, todas em vão. Ganhei foi uma bela promoção e me tornei editora-assistente. Isso me custou uma aproximação ainda maior daquele “ser insuportável”. E eu era grata, ainda que com a paciência na lua, confesso. Foi por essas e por outras que resolvi fazer um doutorado fora do Brasil.

Agora, adivinhe quem foi a primeira pessoa a ser comunicada sobre esta decisão? É claro que foi a minha “adorável” chefe. O mais incrível é que tivemos uma conversa deliciosa, ela me apoiou e disse que eu tinha mesmo um caminho muito melhor pela frente. Foi um bate-papo libertador. Naquele momento nasceu uma amizade. Graças a ela e a outras pessoas tóxicas que surgiram pelo meu caminho, busquei meu desenvolvimento, me aperfeiçoei e cresci.

como vai você
Foto: Depositphotos

Ingratidão não é problema meu!

À medida que eu me tornava cada vez mais grata, coisas maravilhosas aconteciam. Era agradecer pelo que acontecia de ruim, que após alguns dias eu vivia algo muito, mas muito melhor. Nesse meio tempo, e pelos resultados que obtinha, ajudava meus familiares, meu namorado, alguns amigos. Ajuda financeira até. E eu fazia com gosto.

Passados alguns anos, tornei-me empresária, abri uma editora, contratei minha própria equipe e continuei entregando às pessoas o melhor de mim e agradecendo pelas conquistas e perdas. Até que a vida me mostrou o tamanho da ingratidão. Não a minha, mas de algumas pessoas com as quais eu convivia. Na empresa, por exemplo, via alguns colaboradores muito entusiasmados, engajados com os projetos, muito comprometidos com as entregas e os resultados. Muitas pessoas queriam trabalhar comigo, aprender comigo, crescer comigo. Essa força era um alimento para a minha alma.

No entanto, havia aqueles que apenas cumpriam tabela. Não havia comprometimento, nem a mínima motivação. Trabalhavam pelo salário e ponto. Só que o meu otimismo me fazia acreditar que aquelas pessoas iam melhorar e eu continuava apostando nelas. Até que elas mesmas decidiam abandonar o barco. E eu era grata! Grata pelo que fizeram, pelo que não fizeram, pelo que ajudaram ou atrapalharam.

O mesmo fui vivendo com alguns parentes e amigos. Por mais que eu me esforçasse, que os ajudasse, que até mesmo pagasse suas contas, tais pessoas se mostravam cada vez mais ingratas.

Durante muitos anos isso me entristeceu e me desanimou em seguir ajudando. A ingratidão que mais doía era das pessoas que eu mais amava, para aquelas que eu mais me doava.

como vai você

Foto: Depositphotos

Caiu a ficha

Bom, minha história não tem nada de inédito e é provável que o mesmo já tenha acontecido com você: a ingratidão do marido, dos filhos, de amigos queridos, de parentes, de funcionários…

Agora, te conto o meu ponto de virada: foi quando eu entendi que a ingratidão é ruim para a pessoa ingrata, não pra mim! A minha vida segue em evolução, surgem muitas oportunidades, estou sempre em crescimento, sou feliz, sou grata!

O ingrato é que tem um sério problema para ser resolvido: ele mesmo. E isso não é problema meu!

Nestes tempos em que fala-se cada vez mais sobre gratidão, vejo que é algo que não se ensina, não se obriga, não dá pra abrir a cabeça de alguém e meter a ideia lá dentro. Sabe por quê? Porque ser grata é um sentimento autêntico, que vem da alma, vem do coração.

É uma mudança de pensamento, de sentimento e de comportamento. Depende da própria pessoa… e só. Ninguém pode fazer nada.

Como mudar, então? Basta a pessoa QUERER. Tem que acordar pra vida, decidir que precisa dar um novo rumo para a sua jornada, um novo sentido. E começar a treinar, treinar, treinar, até se tornar uma pessoa grata.

O melhor de tudo nesse entendimento, é que tirei um peso das minhas costas e decidi ajudar ainda mais pessoas. E ajuda não precisa ser somente financeira. Você ajuda quando convida alguém para tomar um café e bater um papo gostoso, quando entrega conhecimento, carinho, atenção e até mesmo uma palavra amiga.

lucy de miguel

Ao entender que pessoas ingratas existem aos montes, decidi me doar ainda mais, me doar pelas gratas, porque eu acredito que são a maioria. Entendi que sou feliz por ser grata e sou grata por ser feliz. Essa é a minha fórmula do sucesso! É assim que funciona.

3 comentários em “Ingratidão: um problema exclusivo da pessoa ingrata

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  1. Lucy, mulher autêntica, guerreira de todos os dias. Luz no caminhar! Sou grato por ter conhecido o Programa Escolas do Bem. Uma pérola para a Educação. Desejo muito sucesso!

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    1. Obrigada, querido Adenor! Eu sou muito grata por termos trabalhado juntos nestes últimos anos. Você foi e sempre será uma grande inspiração para o nosso programa! E sempre será uma Escola do Bem! Estamos juntos!

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