Abaixo o “eu consigo”

LUIZ MARINS – Chamo o bombeiro-encanador. Tem até site na Internet. Chega em minha casa e mostro a ele o vazamento e pergunto: o sr. sabe consertar? Ele responde “acho que consigo”.  Contrato um pintor que se dizia especializado em pintura texturizada.  Pergunto se ele realmente sabe fazer pintura texturizada. Ele responde, “eu consigo”. Contratei uma cozinheira de “forno e fogão” segundo ela própria. Perguntei se ela sabia fazer torta de palmito. Ela respondeu: “vou ver se consigo”. Eu poderia enumerar dezenas de casos em que a resposta foi “eu consigo” e o trabalho final foi simplesmente um horror! Contratei um buffet e perguntei se ele sabia “servir à francesa” e ele disse que foi garçom mais de dez anos e tem o buffet há mais de doze, mas nunca tinha ido à França….

Ninguém mais sabe fazer as coisas. Todo mundo “consegue” o que em português bem falado quer dizer “não sei”, mas “vou usar toda a minha ‘criatividade brasileira’ e tentar enganar o melhor que puder”. Até quando? Onde vamos chegar?

Conversando com um “chef” de um grande hotel ele me disse que se encontrasse um bom cozinheiro que soubesse apenas fazer omeletes, apenas omeletes, repetiu ele, o contrataria. “Mas o que temos é um “bando de mais-ou-menos que não sabe nada completamente.”

Todo mundo com quem falo sente saudade dos artesãos, dos que realmente sabiam o que estavam fazendo e se especializavam cada vez mais no que já eram excelentes. Acho que houve uma confusão na cabeça das pessoas com a tal globalização. Todo mundo ficou achando que deveria saber “um pouco de tudo” e “pensar globalmente”, mas as pessoas se esqueceram de que é preciso ser “no mínimo bom” em alguma coisa e não mais-ou-menos em tudo. Assim, quando alguém me diz “eu consigo”, já saio correndo. Sei que não sabe e não é capaz de fazer um trabalho no mínimo decente, o que se espera de um bom profissional.

Meu conselho para quem está começando a vida profissional é que essa pessoa se especialize em alguma coisa – talvez única – que realmente goste de fazer. E aí vá muito fundo nessa única coisa. Especialize-se nela. Saiba tudo o que pude sobre essa atividade. Garanto que terá um enorme sucesso! O mundo sempre precisará de profissionais dos mais variados ramos. Passaremos décadas antes de não precisarmos mais de pintores, azulejistas, cozinheiros, motoristas, contadores, secretárias, etc. Até quando sentiremos esse pesar nostálgico pela falta de gente que sabe?

Abaixo o “eu consigo”!

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