Sagan 1

JOSÉ CARLOS FINEIS – Tudo já se falou sobre o programa HSLEP, sigla inglesa para Homo Sapiens Life on Exoplanets; sem dúvida, o projeto mais caro, complicado e polêmico de toda a história da conquista espacial – e que deflagrou, em uma comunidade científica furiosamente dividida, uma guerra de adjetivos como “bizarro”, “ridículo”, “megalomaníaco”, “pragmático”, “essencial” e “visionário”.

Ainda assim, creio que cabem algumas considerações – não diria científicas, pois não sou cientista –, no sentido de especular sobre o que esse programa representa para nós, os que ficamos na Terra (ou seja, todos os seres vivos), já que daqueles que se foram só saberemos algo mais consistente daqui a 200 anos ou mais. Até lá, teremos que nos contentar com mensagens de rádio cada vez mais desatualizadas – devido à distância, sempre crescente, entre a nave e a Terra – e esses odiosos romances caça-níqueis com histórias fantasiosas sobre a colonização do novo mundo.

Um século e meio, como se sabe, é o tempo que a nave Sagan 1 levará para chegar ao primeiro de uma lista de três exoplanetas com possibilidades de se tornarem um novo lar para a espécie humana. (Se me permitem um parêntese, achei de extremo mau gosto colocarem a bordo parte das cinzas do cientista do século 20, defensor apaixonado da colonização de outros mundos, cujo nome foi dado à missão. Foi um gesto, a meu ver, puramente teatral e publicitário, destinado a atenuar as resistências diante do custo e de aspectos controversos da empreitada.)

No momento em que escrevo, a nave interestelar com sua curiosa tripulação de embriões congelados, sangue, hormônios, nutrientes, robôs e mais de duas mil embalagens com sementes de plantas comestíveis e medicinais (além, é claro, das cinzas de Carl Sagan), se afasta da Terra a uma velocidade fantástica para os padrões locais – e, no entanto, ainda que represente quase a quinta parte da velocidade da luz, ridiculamente pequena diante da magnitude das distâncias entre as estrelas.

Tudo a bordo permanecerá imóvel e silencioso até que a nave chegue à orbita de 21ZNA-9, o primeiro exoplaneta supostamente habitável, a 30 anos-luz da Terra. Então, as duas centrais de inteligência artificial interligadas ativarão milhares de equipamentos, iniciando uma miríade de análises de temperatura, composição da atmosfera, agentes biológicos, possíveis predadores – enfim, uma série infindável de fatores relacionados às condições elementares para uma eventual colonização pelos humanos.

Se o primeiro planeta não passar no teste, a nave seguirá para o seguinte, e assim sucessivamente, até encontrar um ecossistema o mais próximo possível do ideal para nele semear os embriões de nossa espécie. E caso, nessas análises orbitais de todos os três exoplanetas, os sensores e computadores a bordo concluírem que não existe a mínima chance de desenvolvimento do Homo sapiens em nenhum deles, a nave destruirá a si mesma e à sua carga, pois seria o fim da linha para a missão, sem ter onde pousar nem como voltar ao planeta de origem.

Desde que o telescópio espacial Kepler, ainda no século 20, começou a mapear exoplanetas com massa e gravidade semelhantes às da Terra – rochosos e distantes o suficiente de seus sóis para terem água em estado líquido (a chamada “zona habitável”) –, muito se evoluiu em especulações sobre a viabilidade de a vida humana florescer e ganhar uma segunda chance em possíveis novas Terras. As teorias ganharam contornos concretos na medida em que se concluiu que o tempo de validade de nossa espécie sobre a Terra começou a se esgotar inexoravelmente, devido a uma conjunção de fatores climáticos, ambientais e demográficos.

Nem toda a evolução da inteligência artificial em quase quatro séculos de sondagens e estudos foram suficientes, no entanto, para assegurar, sem uma larga margem de erro, que ao menos um dos planetas na rota de Sagan 1 seja, realmente, capaz de acolher nossa espécie. Uma famosa projeção dos computadores da Nasa e agências espaciais russa, europeia, chinesa e indiana estimou em 45% a chance de Sagan 1 completar sua viagem até o primeiro dos exoplanetas, e de 30% a probabilidade de, já nesta primeira tentativa, cumprir-se o estágio 1 da missão conforme o programado. Caso Sagan 1 encontre condições ideais em 21ZNA-9, as probabilidades são de 60% de concretizar-se com êxito o primeiro de centenas de estágios programados: o pouso em terra firme com segurança.

Uma vez no solo, os pequenos robôs dotados de esteiras e múltiplos tentáculos serão tirados da hibernação para construir estufas protegidas por redomas à prova de vírus e animais – pois supõe-se que, se um planeta apresenta condições favoráveis à vida, provavelmente já desenvolveu uma ou muitas formas de vida.

Os cerca de 300 embriões serão descongelados e implantados em bolsas de gestação, em tudo semelhantes ao útero de uma mulher. Desde o parto até que esses humanos se tornem autônomos, os robôs cuidarão de tudo. Trocarão fraldas, alimentarão, ensinarão a andar, a falar e a escrever. Promoverão festas de aniversário, darão recompensas aos bem-comportados e colocarão os valentões de castigo. Também – um dos pontos que causaram polêmica na etapa de programação do aprendizado – informarão às crianças, a partir dos três anos de idade, que existe um ser criador do Universo e que devem orar para ele.

Os governos envolvidos no programa HSLEP venderam para seus governados a ideia de que esses seres criados por máquinas serão uma continuidade da raça humana – e, mais que isso, uma espécie de extensão nacional dos países financiadores do programa, representados por um número de embriões proporcional ao capital por eles investido.

Fico pensando se um dia, daqui a dois séculos – evidentemente, caso ainda existam seres humanos na Terra –, nossos descendentes receberão a tão esperada mensagem de Sagan 1. Algo como “Olá, Terra. Chegamos. Estamos bem” – esse tipo de recado que se espera que os filhos mandem para os pais quando viajam para algum lugar distante.

Meu lado otimista se esforça por acreditar nessa possibilidade. Que, se conseguirmos contornar o colapso climático na Terra e eles, os incontáveis desafios do espaço, talvez recebamos (obviamente, com um atraso de 35 anos ou mais), boletins diários dos habitantes daquela outra Terra. Mensagens divertidas, alentadoras e surpreendentes, em que serão relatadas as aventuras dos primeiros garotos e garotas criados por robôs em outro sistema solar, e educados (pelo menos, é o que se espera) de acordo com os valores, os costumes, as leis e o bom senso da civilização à qual haverão de pertencer, mesmo estando tão longe do planeta onde foram concebidos.

Meu lado realista duvida, porém, que as premissas sugeridas pelas potências a respeito de HSLEP sejam factíveis, mesmo no melhor dos cenários. Será possível considerar como parte da espécie humana indivíduos criados por máquinas e que jamais pisaram em seu planeta de origem? Que nunca viram uma vaca ou uma roda-gigante, nem sentiram o cheiro da grama recém-cortada ou se aninharam no colo de suas mães?

O que garante que eles assimilarão a língua, a cultura, os valores da nossa fascinante, irresponsável, confusa e assustadora civilização? Como podemos saber se não serão dominados pelos robôs ou (hipótese plausível, quando chegar a adolescência) se não transformarão seus protetores em uma pilha de sucata ou fugirão deles para o refúgio mais próximo, renegando sua autoridade e tornando-se um bando de selvagens? Viverão harmoniosamente ou se odiarão mutuamente, a ponto de se destruírem por banalidades, como ocorre aqui na Terra?

Fico incomodado também porque não foi perguntado a essas pessoas (embriões são pessoas?) se queriam ser deixadas para sobreviver em um planeta estranho, sob os cuidados de máquinas semelhantes a aranhas, numa comunidade pequena e asfixiante como uma casca de noz. Nesse ponto, eles não guardam nenhuma semelhança com os pioneiros de Marte do século 21, que eram adultos e optaram livremente por embarcar em viagens sem volta, sabendo o que iriam encontrar. Esses infelizes Homo sapiens talvez precisem usar capacetes, luvas e grossos macacões por toda a vida, caso a vacina universal (testada, é bom lembrar, somente em ratos, cachorros e macacos) não funcione a contento, ou o planeta escolhido não tenha, como a Terra, uma boa proteção natural contra a radiação emitida por seu sol. Jamais poderão sentir o vento no rosto, o contato dos pés com a areia, o aroma de uma flor que não tenha sido colhida e esterilizada – coisas aparentemente banais para nós, mas que, assim como outros inumeráveis detalhes, compõem esse complexo feixe de pensamentos, memórias, anseios e sensações que chamamos de ser humano.

Preciso dizer, para finalizar, que não me sinto nem um pouco reconfortado, como membro desta decadente espécie, por saber que o Homo sapiens agora tem uma chance de renascer em outro ponto do Universo, enquanto nosso planeta, com seu calor insuportável e atmosfera insalubre, a cada dia se torna mais inóspito para os que nele padecem.

Às vezes penso que a missão Sagan 1, assim como as próximas já anunciadas – em abril teremos a Sagan 2, rumo ao mesmo quadrante da Via Láctea, e, até dezembro, a Hawking 1, rumo a um outro sistema planetário “promissor” – não passam de emplastros paliativos para o drama de consciência de uma civilização que não soube ou não quis cuidar do seu único lar possível no Universo. A meu ver, tais missões só reforçam a percepção de que desistimos de lutar para permanecer vivos neste planeta.

Será, por acaso, menos doloroso encarar o fato de que a espécie humana praticamente destruiu seu próprio habitat, se pudermos imaginar que, dentro de alguns séculos, a uma distância de 330 ou 350 trilhões de quilômetros da Terra, meninos e meninas parecidos com nossos filhos correrão sobre campos e riachos? De que forma isso abrandará o sofrimento daqueles de nossa espécie que tiverem o infortúnio de nascer nos próximos 100 ou 200 anos?

Nesses momentos em que o coração fica pesado, penso que talvez fosse melhor deixar nossas esperanças morrerem com nosso planeta, sem mais fantasias enganosas sobre uma suposta Terra 2 em outro sistema solar.

Gostaria de poder engrossar o coro dos contentes e me consolar com a ideia de que a espécie humana continuará sua saga em outro endereço da via Láctea, ou mesmo em outras galáxias, quando a vida humana na Terra finalmente sucumbir e outros animais, como macacos, leões, ursos e ratos tomarem o controle. Minhas tentativas de crer, entretanto, ruíram quando ouvi os argumentos de um homem barbudo e corpulento, outro dia, na rua. Ele tinha uma garrafa na mão, mas não parecia bêbado.

Era cedo – eu ia para o trabalho. Diante de um grupo de pessoas magras e andrajosas sentadas na calçada, ele discursava mais ou menos assim:

– A verdade, pessoal, é que essa história de colonização do espaço não passa de ficção científica, criada para ludibriar o povo. É só mais uma mentira desses governos cretinos. Faz muito tempo que só nos contam mentiras. Querem um exemplo? Quem aqui é capaz de dizer se esse presidente que está aí, esse boçal que chamam de Vossa Excelência, é humano ou robô?

– Pra mim, é robô – disse uma mulher. – Só pode ser, com aquele sorriso de plástico, aqueles olhos inexpressivos.

– É claro que é humano – retrucou outra, levantando-se. – Se fosse robô, falaria inglês sem sotaque e não faria tanta besteira. Além disso, robôs costumam ser mais gentis com os humanos do que os próprios humanos! Esse imbecil é um cavalo no trato com as pessoas.

– Estão vendo? – retomou o barbudo. – Não sabemos nem se o presidente é gente ou máquina. E sabem por quê? Porque nos enganam o tempo todo, empurram mentiras por todos os meios. Eles sabem que enquanto tivermos esperança, por mais absurda que seja, não sairemos por aí quebrando tudo, e poderão continuar em seus gabinetes com ar-condicionado enquanto a gente frita aqui fora. De mais a mais, se essa babaquice de colonizar outros mundos fosse mesmo verdade, se eles têm poder para mandar a espécie humana para as estrelas, por que não fazem… Meu Deus, por que não fazem alguma coisa – sei lá, qualquer coisa – por todos nós, por tudo isto?

E então, com os olhos arregalados, a tez firme como um tronco de árvore, à imagem de um mágico de circo ou um profeta, ergueu os braços com um gesto grandiloquente e abraçou – eu vi, realmente abraçou – os arranha-céus da metrópole, a Lua lá no alto, as pessoas que iam e vinham em filas espessas, as nuvens esverdeadas, as flores ainda existentes em jardins recônditos, cada ser vivente sobre a Terra. Oceanos furiosos, florestas ressequidas, rios lodosos e lagos de margens negras podiam ser vistos em seu olhar, assim como os picos mais altos do globo, onde o gelo acumulado em centenas de milhares de anos derretia rapidamente.

Como num transe, vislumbrei a assombrosa beleza da evolução humana, das primeiras lanças com ponta de pedra às pirâmides, das fogueiras primitivas ao aqueduto de Roma, da invenção da roda a Sagan 1. E então me desprendi de meu corpo e flutuei mais e mais alto, até que, com olhos cheios de lágrimas, pude ver, linda e azul como nos filmes, a Terra – a única Terra que conhecemos e que amamos, na qual estamos condenados a oscilar entre a melancolia e a esperança, a raiva e a indiferença, conforme nossa capacidade de crer nas histórias que contam, de nos resignar e de sonhar.

(Estrelas jovens brilham na Nebulosa da Tarântula. Foto do telescópio espacial Hubble/Nasa)

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