A terra dos castos

GERALDO BONADIO – As lideranças brasileiras – civis, religiosas, administrativas – reagem de forma irada a qualquer iniciativa das autoridades da saúde pública ou da educação que, partindo da constatação que a população brasileira tem corpo, intentam, de alguma forma, fornecer aos adolescentes algum tipo de informação fundamentada sobre as funções sexuais.

Não há nada de novo na reação do presidente Bolsonaro, mandando eliminar das cadernetas de saúde, esclarecimentos sobre os preservativos. Coisa parecida ocorreu em São Paulo, há 35 anos, quando, no governo Montoro, a Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria da Educação produziu um livreto, destinado aos educadores da rede pública, que incluía, na representação didática do corpo humano, os órgãos sexuais. Em nossa cidade, até o delegado de Ensino se insurgiu contra a publicação e a iniciativa foi torpedeada. Nos anos seguintes, a explosão dos casos de gravidez na adolescência demonstraria que a iniciativa era correta e necessária.

A humanidade construiu, em séculos e milênios, múltiplos meios de fixar um interregno, mais ou menos longo, entre o momento em que os indivíduos se tornam férteis e aquele em que podem ter relações sexuais institucionalizadas: das casas dos solteiros, das civilizações primitivas do Pacífico às classes separadas de meninos e meninas nas escolas públicas.

Na sociedade patriarcal brasileira, a educação sexual das meninas ficava a cargo do marido, mais velho e experiente. O homem que mais tempo governou o Brasil, Getúlio Vargas, casou-se aos 25 anos com a prima, Darcy Sarmanho, então com 15 – na foto acima, pertencente ao arquivo da FGV. Nas famílias pobres, os casamentos ocorriam logo após o início da puberdade dos nubentes.

Evidentemente, a vida sexual dos meninos de boa família antecedia em muito o casamento. Isso, às vezes, gerava tragédias. No início do século, em São Paulo, o senador Peixoto Gomide matou a tiro sua filha, suicidando-se a seguir, ao constatar que o poeta Batista de Cepelos, de quem ela estava noiva, era filho de uma relação extraconjugal que tivera na mocidade.

No ocidente, as barreiras comportamentais começaram a ruir com a invenção da pílula anticoncepcional que, apartando sexo de reprodução, desencadeou um terremoto comportamental que, por sua vez, gerou problemas novos e bastante complexos, como a propagação do HIV e o retorno das doenças sexualmente transmissíveis.

Isso exige abordagens específicas – não necessariamente coincidentes – nos campos da religião e da saúde pública. Confundi-las, fazendo de conta que vivemos no país da castidade pura, é fechar os olhos para o fato de que essa é uma das esfinges do nosso tempo e que, se não a deciframos, seremos, como estamos sendo, devorados por ela.

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