Eu ponho o pé. Deus põe o chão.

RITA BRAGATTO – Eu vim para a Europa em maio do ano passado. Tive um convite para estudar em uma universidade exclusiva de terapias, na França. Eu sempre quis morar fora do Brasil. A oportunidade caiu como uma luva. É óbvio que na escola eu aprendi muita coisa nova. Técnicas alternativas. Mas o mais interessante é o que tenho aprendido fora da sala de aula. Nas entrelinhas. São as grandes lições da vida, como por exemplo: o desapego, o minimalismo e a consciência coletiva. Vou explicar.

Nunca fui uma pessoa muito consumista. Mas no Brasil, eu vivia sozinha, em uma casa própria, ampla e bastante confortável. Tinha um carro bom, que me permitia ir pra todo canto, a hora que eu bem entendesse. Meu consultório também era bacana. Ficava a quatro quarteirões de casa. Mas, mesmo assim, eu ia trabalhar de carro. Frequentava restaurantes. Viajava com freqüência. Tudo sem extravagância. Mas hoje, após dez meses de Europa, vejo o quanto é possível ter uma vida com mais consciência e sustentabilidade se a gente se abre para essa experiência, com todo o coração.

A primeira lição, que eu tive ainda no Brasil, foi o minimalismo. Isso não tem a ver apenas com o exercício de reduzir a minha vida a algumas malas antes de embarcar. Minimalismo é identificar o que não é necessário. É a prática de se livrar dos excessos e se concentrar no que é importante para nossa realização, para nossa felicidade. E isso vale pra tudo! De roupas a sentimentos.

Quando identificamos o que é supérfluo, tomamos decisões mais conscientes e nos libertamos dos medos. Das preocupações. Das angústias. Da culpa. Nos livramos também das armadilhas do consumo que construímos em nossas vidas. São elas que nos aprisionam aos empregos ou a determinados círculos sociais. Ou seja, quando tomei a decisão de vir eu sabia que estava, literalmente, abandonando minha zona de conforto. Mas, principalmente, abrindo a porta de uma prisão.

Aluguei minha casa para uma amiga com tudo dentro. Sai apenas com três malas. Alguns livros. Pequenos objetos afetivos. E embarquei com uma sensação enorme de leveza. Não só pelas questões materiais que eu tinha deixado para trás. Mas com a clareza de quem tinha identificado o que era essencial. Determinada a acumular só experiências. Nada além.

Chegando na França, aluguei um quarto na casa de uma moça. Em finais de semana, onde havia cursos extras na universidade, tinha mais gente. Nossa rotina implicava dividir a geladeira. O banheiro. Tínhamos hábitos e horários completamente diferentes. Foi bem difícil, confesso. Principalmente pra mim, que há anos vivia sozinha e sou adepta da solitude. Do silêncio. Mas só se desenvolve quem se envolve. Consigo e com os outros. Na convivência, a gente se vê no outro. A gente aprende a respeitar espaços. A compartilhar. A gente cresce. E hoje vejo que os aprendizados foram muito além das novas receitas de tortas de Mirtilo e Mirabel.

Essa casa ficava num pequeno e isolado vilarejo. Como meio de transporte eu só tinha minhas pernas e uma bicicleta, que comprei chegando aqui. Ah, tinha também o trem, mas o último horário era às 20h30. Portanto, se eu quisesse fazer algo um pouco além precisava contar não apenas com uma boa previsão do tempo, mas com a boa vontade das pessoas que tinham carro.

Abrir mão do meu direito “de ir e vir” foi um baita desafio. Mas sentar no banco do passageiro também me permitiu experiências memoráveis. Como o dia em que minha motorista cantou, em alto e bom som, “La vie en Rose”, da Edith Piaf. Ah, a noite de lua cheia, em que pedalei entre as vinhas e pequenos vilarejos franceses, também foi demais. Sem sombra de dúvida, entraram pra lista dos momentos inesquecíveis da minha vida.

Encerrada minha formação na França, eu vim fazer uns cursos na Bélgica, em um instituto privado de terapias. Tive uns contratempos com a hospedagem e com alguns outros planos pessoais. Mas como o universo é bastante generoso a situação se reverteu favoravelmente.

Em resumo: estou morando no próprio instituto e pago a minha hospedagem e os cursos com o que aqui é chamado de “Karma Yoga”. É a atividade que fazemos sem a presença do ego. Sem interesse. Visando o bem comum. Um super exercício de desprendimento. E, sem dúvida, uma grande oportunidade para o meu desenvolvimento pessoal e espiritual.

Eu poderia continuar enumerando outras experiências. Tem uma lista enorme de aprendizado. Mas hoje, quero encerrar esse texto com a principal lição que aprendi até aqui. A entrelinha da entrelinha. A essência de tudo: pra toda força de afirmação tem um força de negação. Todo objetivo tem obstáculo. É o equilíbrio do universo. Mas a gente pode ver esse obstáculo com uma grande barreira. Um inimigo. E estagnar. Ou pode vê-lo como uma oportunidade de desenvolver uma força suplementar e avançar. E isso depende só do nosso esforço. De mais ninguém.

Não vou mentir. Viver com algumas malas e uma bicicleta, acumulando apenas experiências, não é fácil, não. As incertezas são constantes. O cansaço bate. O choro vem. Sinto falta de falar em Português. Em alguns momentos mais difíceis, tenho saudade de um abraço conhecido. Mas ao fim de cada dia, quando passo a régua, eu ainda vejo que está valendo a pena.

Desde que cheguei, não teve um dia sequer que eu estivesse numa zona de conforto. Mas em nenhum momento pensei em desistir. Eu lembro o que me trouxe aqui e não tenho dúvidas de que fiz a escolha certa. O que me ajuda muito é acreditar que tem uma força maior cuidando de mim. Abrindo portas. Colocando muita gente boa em meu caminho. É o que eu sempre digo: quando a gente segue o coração, a gente põe o pé. Deus põe o chão.

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
Atendimento por Skype
Fan Page: www.facebook.com/rita.bragatto.escritora/
Instagram: avidachama
email: rita.bragatto@gmail.com

8 comentários em “Eu ponho o pé. Deus põe o chão.

Adicione o seu

  1. Uau! Que texto! Que experiência! Que lição de vida! Peço permissão para o usar o título deste post em meus workshops. Tem muita gente precisando dessa inspiração. Beijo grande e conta mais!!!

  2. ahhh…sua linda. Que bom que gostou. Vamos espalhar essa energia boa do desprendimento e da fé por aí! Obrigada pela leitura e pelo carinho! <3

  3. Gratidão por compartilhar experiências enriquecedoras. Tenho um sonho que, até conhecer e acompanhar sua jornada, julgava muito distante. Não mais. Vislumbro já a possibilidade de realizá-lo, com obstáculos mil a serem superados, mas possíveis de serem.
    Inspira-nos, querida, com seu exemplo. Que bênção!
    Grata por tudo!

  4. Maria Eulina, fico muito feliz em saber que meu texto te encorajou! Sou franca: não é fácil. Mas vale cada segundo, quando o que está em jogo é o nosso sonho.
    Caso tenha mais alguma coisa que eu possa te ajudar/esclarecer para que consiga realizá-lo estou a postos!
    Meu email: rita.bragatto@gmail.com
    Grande abraço. E coragem! <3

  5. Parabéns pelo texto,
    Nos conhecemos numa trip na Bolívia e pelo jeito continuou forte nas viagens!!
    Abraços e muito sucesso na sua jornada

  6. Poxa, que Guilherme será? O Totó? Fiquei curiosa….

  7. Maravilhoso! Tenho um orgulho imenso de conhecer um ser humano como você. Como eu disse no comentário do seu face, me sinto um grão de areia perto de tanta determinação. Felicidades! Sucesso sempre! Bjão! #suafã

  8. ahhhh, minha amiga eterna “insuportável do bem”. Eu também já te disse mas vou repetir o quanto sou sua fã. O quanto me inspiro em seu sorriso, sua alegria, seu amor pela família. Sou muito grata a Deus por você ter cruzado meu caminho! Você é um exemplo do bem! Beijos mil.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: