O amor acabou. Devo me separar? (conto) – Parte 1

JOSÉ CARLOS FINEIS – “Só comece a responder se estiver convicto(a) de que deixou irremediavelmente de amar sua esposa ou marido.”

A professora Priscilla, PhD em Economia, 45 anos, casada, dois filhos adultos, ficou alguns segundos com o olhar perdido na tela, como que a avaliar pela última vez se valia a pena gastar 2.799 dólares para ter um conselho individualizado, “elaborado por competentes psicólogos e os mais sofisticados algaritmos” (conforme prometia a homepage do site), sobre o que fazer com seu casamento.

O site de nome sugestivo — “O amor acabou. Devo me separar?” — era pouco conhecido no Brasil. Sem propaganda na TV ou internet, aparecera em discretos informes patrocinados, disfarçados de notícia, publicados em sites e revistas impressas dirigidas ao público adulto. Estratégia coerente, pois o custo do teste afastava mesmo qualquer possibilidade de se tornar modismo ou algo popular.

Priscilla ouvira falar sobre duas amigas da universidade que fizeram o teste. Uma se separou. Outra continuava casada, por enquanto. Naqueles segundos de hesitação, ela experimentou muitos receios, mas talvez o principal fosse o da mudança. Estava tão apegada a tudo — casa, cachorros, carro, academia; e ao marido também, de muitas maneiras –, que não seria totalmente errado afirmar que seu apego se estendia à própria infelicidade.

Sim, Priscilla era infeliz, como tantos de nós. E, como tantos de nós, não conseguia identificar a origem de sua infelicidade. O companheiro, Pedro, não era o pior dos homens. Expressava confusamente atenção e displicência, como tantos maridos. Mas, na cabeça de Priscilla, fermentava a ideia de que, se ela era bem-sucedida profissionalmente e dispunha de praticamente todos os confortos possíveis, sua tristeza deveria ser consequência de algo que lhe faltava. E isso, ela imaginava, era a paixão romântica, o amor.

Priscilla e Pedro haviam sido muito próximos e apaixonados nos primeiros dez ou doze anos de casamento. Depois veio a adolescência dos filhos — adolescência das bravas, com teor máximo de rebeldia — que abalou um pouco o casal. Talvez um culpasse o outro por não ter “educado direito os filhos”. Por essa época, alegando cansaço ou dor nas costas, eles deixaram de lado um de seus programas favoritos: ir a um restaurante italiano, ali perto de casa, e voltar a pé de mãos dadas. Aos poucos deixaram de se beijar na boca, e o sexo se tornou algo não prioritário, praticado sem grandes desempenhos — ela nem lembrava a última vez que haviam feito sexo oral.

Depois vieram mais problemas. E o principal deles talvez tenha sido que eles, sem perceber, mudaram com o tempo. Algumas mudanças eram sutis, outras dramáticas. Por exemplo: Pedro, que sempre falara pelos cotovelos — e ela adorava conversar com ele, pois ele a fazia rir –, foi-se tornando um homem fechado. Priscilla chegou a pensar que Pedro passava por algum problema sério de dinheiro ou de saúde, ou que a estava traindo. Seguiu-o por algum tempo, revisou bolsos e, com um aparelhinho que comprou na internet, grampeou o telefone. Concluiu que Pedro estava apenas muito estressado e, o que era mais provável, não sentia mais atração por ela.

A constatação não a abalou. Pelo contrário, sentiu-se aliviada. Acontece que Priscilla também perdera gradativamente o interesse por Pedro. Sexual, inclusive. Ele nunca fora muito atraente, mas agora estava pior. A outrora barriguinha dobrava-se sobre o cinto, escondendo a fivela; os cabelos ficaram grisalhos e escassos no alto da cabeça. Pedro não se cuidava. Homem simples, usava desodorante sem perfume e às vezes deixava as unhas dos pés ficarem enormes. Apesar disso, tratava-a com delicadeza e tinha lá, não se sabe como, uma certa dose de sex appeal.

Priscilla fechou o notebook e decidiu não iniciar o teste por enquanto. Sentia que começá-lo seria como que uma traição a Pedro. A ideia de deixar o marido não a agradava. Mas, por outro lado, ponderava que ambos poderiam ser felizes se, uma vez constatado que não havia mais amor, permitissem um ao outro ter uma nova chance. Não se sentia bem em ficar com Pedro apenas por comodismo ou compaixão. Nisso era muito honesta, é preciso reconhecer. Talvez, só talvez, lhe faltasse cem por cento de certeza de que o amor havia realmente acabado.

Pedro chegou pelas sete da noite, exausto como sempre. Reclamou de um cliente mal-educado, jantou sem camisa, de bermudas e chinelos havaianas, disse que estava muito cansado para tomar banho, depois mudou de ideia. Tomou uma ducha fria e andou molhado pelo quarto em busca de cuecas limpas. Priscilla não deu atenção. Seu plano para a cama era continuar a leitura de “Sapiens, uma breve história da humanidade”, de Yuval Harari. Na fila de leitura estavam “Homo Deus: uma breve história do amanhã” e “21 lições para o século 21”, do mesmo autor.

Priscilla deitou-se primeiro, com o Kindle na mão. Esperava ansiosa que Pedro se acomodasse, para apagar a luz e retomar a leitura. Pedro, só de cuecas, foi ao banheiro e urinou longamente com a porta aberta. Ao final do jorro, soltou um peido que ecoou por toda a suíte. Priscila sentiu o coração apertado. Odiava isso em Pedro. Coisas pequenas que põem tudo a perder. “Amanhã começarei a porra do teste”, decidiu, antes de se virar para o criado mudo e pedir a Pedro, com um rancor imperceptível na voz, que, por favor, desligasse a luz ao se deitar.

Ia esquecendo de contar quem é Priscilla. Idade, formação, estado civil e número de filhos é muito pouco para se conhecer uma pessoa. O fato de estar infeliz também não diz nada. Ela e Pedro se conheceram no ensino médio de um colégio particular. Pedro tinha fama de ser um dos alunos mais promissores da escola. Bom em matemática, em química, em basquete e redação, e de certa forma atraente (porque na juventude até a feiúra tem um quê de interessante), era motivo de orgulho para diretores e professores.

Já Priscilla era aquele tipo de menina que não se sobressai. Nem muito brilhante, nem muito bonita, ficara em segundo lugar num concurso de redação organizado pelo colégio e fora eleita miss simpatia numa daquelas festas da uva ou do caqui típicas do interior. Mas, como o destino é insondável, o promissor Pedro largou a faculdade para abrir uma loja de carros usados. E Priscilla, a apagadinha da turma, cursou Administração, fez mestrado e ganhou uma bolsa para especialização em Purdue, West Lafayette, Indiana — a mesma universidade em que se formou Neil Armstrong, o primeiro terráqueo a pisar na Lua. Ao voltar, em pouco tempo se tornou pró-reitora acadêmica de uma respeitada universidade.

Era período de férias escolares, por isso Priscilla estava em casa, praticamente sozinha durante a semana. O marido saía cedo para o trabalho e ela quase não recebia visitas. Só por isso tinha tempo de sobra para dedicar-se ao duvidoso questionário on-line que, conforme lera em algum lugar, era composto por dezenas de perguntas, muitas delas bastante profundas, e que prometia “investigar o verdadeiro sentido da união afetiva entre homens e mulheres ou casais do mesmo sexo”, auxiliando-os nessa decisão tão complicada: continuar juntos ou seguir cada um por si?

Quando o carro de Pedro se distanciou, Priscilla pegou o notebook, uma xícara de café e foi sentar-se na varanda. Reiniciou o computador. O site ainda estava aberto, com a advertência em letras graúdas: “Só comece a responder…” Ela correu a tela e logo encontrou um botão de cadastro. Sem mais pensar, preencheu os dados e clicou em “enviar”. Mas não sem antes digitar o número do cartão de crédito e pagar os US$ 2.799 exigidos. Sentiu um pequeno desconforto, como quando se conta um segredo grave para alguém. Depois, sem nenhum prazer ou remorso, pensou em voz alta: “Está feito. A sorte está lançada.”

Pode-se imaginar que Priscilla estivesse curiosa ou excitada ao iniciar o teste, mas não. Em sua defesa, é preciso registrar que estava triste. Para iniciar o cadastro, fora preciso decidir se ainda amava Pedro. E concluíra amargamente que o amor havia acabado. Não por uma coisa em particular, mas por tudo. Pedro, no quesito amor, já não representava nada para ela e tinha certeza de que o sentimento era recíproco. Eram dois amigos, talvez até dois irmãos. Jantavam juntos, faziam sexo muito de vez em quando, cuidavam-se mutuamente. De um modo bastante peculiar, eram quase tudo um para o outro, menos duas pessoas que se amam.

Priscilla não tinha pressa de começar. Lembrou-se de um texto famoso de Paulo Mendes Campos intitulado “O amor acaba”. Quis ler o texto para sentir se se encaixava em alguma situação. Parou no trecho, lindo, que cita o desenlace das mãos no cinema, “como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado”. Sentiu uma vontade quase adolescente de segurar a mão de alguém. Lembrou-se das mãos de Pedro, que eram grandes, bonitas e ausentes. Pensou com amargura que suas mãos já tinham se divorciado havia muito tempo. Não sentiam desejo ou sequer curiosidade umas pelas outras. Mas não lhe passou despercebido que era nas mãos de Pedro que pensara. Seria a força do hábito? Ou aquelas mãos ainda representavam alguma coisa que ela não sabia definir?

O questionário era desses que você pode salvar para continuar em outro momento, de onde parou. E nem poderia ser diferente, porque não eram dezenas: eram centenas de perguntas que, por vezes, se desdobravam em questões complementares — duas ou mais. Ao fazer login e abrir o questionário, Priscilla se separou com outra advertência: “Para podermos ajudá-lo (a) em sua decisão, é fundamental que formule as respostas com a máxima clareza e honestidade. Se tiver dúvida sobre algum item, reflita sobre a resposta pelo tempo que for necessário. Mas não deixe de responder a todas as questões, nem responda com evasivas, ou sem ter absoluta certeza daquilo que estiver afirmando.”

Priscilla não imaginava, mas começou naquele dia um exercício de reflexão que duraria suas férias inteiras. Embora cética a princípio, levou a sério a advertência sobre a honestidade das respostas, e parou várias vezes para pensar em que responder. Questões simples à primeira vista faziam-na submergir em reflexões complicadas. Perguntas aparentemente banais faziam-na travar o tempo todo. Depois de traçar um perfil detalhado de suas atividades, hábitos e preferências, e antes de responder às 40 primeiras perguntas do teste propriamente dito, já chegara a uma conclusão desalentadora: conhecia quase nada de si mesma. E de de sua relação com Pedro, a pessoa com quem estava casada havia 22 anos, sabia menos ainda.

Para ler a segunda parte deste conto, clique aqui.

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