O prelúdio do fim do mundo

VANESSA MARCONATO NEGRÃO (TEXTO) E PEDRO NEGRÃO (FOTO) – Como é a vida quando você percebe que tem mais passado que futuro? Ainda não sei, mas faço uma vaga ideia. Quando num domingo abafado, o tempo vem lhe cutucar as costas com suas unhas afiadas. Bafejando em sua nuca que você esqueceu de tomar os remédios pela manhã. O domingo é o prelúdio do fim do mundo, se é que haverá fim um dia.

Ultimamente tenho pensado muito nisso, especialmente quando vejo pelas redondezas, uma senhorinha de lenço no cabelo, puxando um carrinho pesado de recicláveis. Há pelo menos 10 anos a encontro diariamente pelo caminho entre a minha casa e o trabalho. Dei a ela um vaso de flores uma vez, conseguimos parar paralelo ao seu carrinho, enquanto o sinal estava fechado, meu ímpeto de lhe oferecer flores (que eu havia acabado de ganhar) foi a expressão da minha agonia de querer dizer-lhe que eu a via, que eu sabia da sua exaustiva função e lhe respeitava por isso. Embora consciente da inutilidade do meu gesto, me aliviou o coração por algumas horas.

E eu lhes pergunto: como fica “essa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada”? Continua puxando carrinhos de recicláveis de sol a sol, diariamente, há no mínimo 10 anos.

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