No bar com Nat King Cole

MARCO MERGUIZZO – Cara a cara com um legítimo Daiquiri preparado nos bares de Havana dos anos 1940 e 50, o cantor de jazz norte-americano Nat King Cole (1919-1965) que, neste sábado, dia 23/3, caso estivesse vivo, iria completar o seu centésimo aniversário, sucumbia inexoravelmente diante deste clássico da coquetelaria mundial. Em especial, em dois endereços famosos da capital cubana que não só eram os preferidos dele mas do escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961) e de Fidel Castro (1926-2016): os icônicos La Bodeguita del Medio e El Floridita, que até hoje, por sinal, mantêm suas portas abertas.

Como se sabe, esse trio de célebres beberrões era fã declarado da alquimia etílica criada na mais famosa ilha caribenha. Tanto o genial intérprete de Monalisa e Unforgettable, com sua inconfundível voz grave – resultado, segundo uma autoironia do próprio Nat, dos incontáveis cigarros que tragava (curta os vídeos desses dois grandes sucessos no final deste post) -, quanto o Nobel de literatura (1954) e autor Por quem os Sinos Dobram (1940) e O Velho e o Mar (1952), além do eterno comandante da revolução cubana, reverenciavam os drinques feitos na Ilha à base de rum.

“My Mojito in La Bodeguita/ My Daiquiri in El Floridita”, dizia Hemingway, confessando sua devoção pelas beberagens à base do destilado de melaço de açúcar produzido na pátria dos irmãos Castro. Estrela do showbiz, Nat King Cole foi dos grandes nomes do jazz americano e mundial. Mas, ao contrário dos EUA, onde muitas vezes foi obrigado a entrar pela cozinha das casas de shows onde cantava, por ser negro, em Cuba era reverenciado e querido. Lá, se alguém quisesse paparicá-lo, bastava servir-lhe um (ou vários) copo(s) das duas conhecidas preparações locais.

Inventado na primeira década do século 20, o Daiquiri é comprovadamente, segundo a International Bartenders Association, a matriz principal de toda uma linha de coquetéis gelados batizada de “frozen”, na qual se inclui o Frozen Daiquiri – o mais festejado deles. Embora de alma e inspiração caribenhas, essa linha de drinques deve a sua popularização e internacionalização aos barmen e bartenders das grandes cidades norte-americanas, como São Francisco e Los Angeles, na costa oeste, e Nova York, do outro lado do mapa. Edição rejuvenescida do velho clássico da coquetelaria cubana, há três versões que explicam a origem e toda a magia do Daiquiri, que teria nascido no extinto bar Vênus, em Santiago de Cuba.

A primeira diz que a preparação teria surgido por volta de 1905 pelas mãos de Jennings S. Cox, um engenheiro norte-americano que trabalhava numa mina de ferro chamada – adivinhe? – Daiquiri. Diante de um surto de febre amarela, Cox, na falta de gim, teria inventado a bebida ao misturar rum, suco de limão e açúcar, a fim de diminuir tanto o sofrimento dos mineiros atingidos pela doença quanto a depressão causada pelo isolamento.  Noves fora o suposto “efeito psicoterapêutico”, a beberagem se tornaria a campeã de pedidos do Vênus, bar frequentado pelos funcionários da mina e parceiros de copo de Cox.

Já a segunda história assegura que, antes do engenheiro yankee, um grupo de bravos soldados cubanos, que combatia os colonizadores espanhóis no final do século 19, carregava cada qual na cintura um pequeno odre de couro contendo uma mistura de rum branco e suco de limão. Chamavam-na de “elixir da valentia”.  A essa bebida dos resistentes foi creditada uma série de vitórias épicas contra os imperialistas (e sóbrios) conquistadores hispânicos.

Depois dos espanhóis foi a vez dos norte-americanos invadirem a ilha, entrando pela praia de Daiquiri, localizada próxima à Santiago de Cuba. Estes, embora derrotados, teriam provado e aprovado a bebida, porém adicionado mais gelo para aliviar o calor escaldante do Caribe. Melhor: batizaram o drinque com o nome do paradisíaco lugar onde desembarcaram.

DRINQUE DE CINEMA
Fidel Castro entre Katherine Hepburn e Alec Guiness, casal protagonista do filme
Our Man in Havana (1959): entre uma gravação e outra, uma escapadela estratégica rumo
ao El Floridita para um ou vários Daiquiris (Fotos: Arquivo)

Seja qual for a versão, a popularização deste tradicional coquetel cubano se deve ao lendário barman do La Floridita, em Havana, Constantino Ribalaigua, também conhecido como “El Rey de los Cocktails”, e ao próprio Hemingway, a partir dos anos 40, que o celebrizou em seus livros e, a seguir, nas telonas. É o caso de Uma Aventura na Martinica (To Have And Have Not, 1944) e O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea, 1958).

É bem extensa a lista na qual esta bebida refrescante rouba a cena. Para ficar só em alguns exemplos: Eles e Elas, com atuação antológica de Marlon Brando (1955). Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960), com Shirley McLane. A Costela de Adão (1949), com os atores Spencer Tracy, Katherine Hepburn e Alec Guiness em Nosso Homem em Havana (Our Man in Havana, 1959).

E, ainda, mais contemporaneamente, Os Reis do Mambo (The Mambo Kings, 1992), protagonizado pela dupla de atores, o espanhol Antonio Banderas e o americano Armand Assante, nos papéis de dois irmãos pobretões que deixam Cuba e se aventuram na Big Apple em busca de fama e sucesso, e cuja jornada, claro, é regada a vários Daiquiris.

Em seus primórdios, este clássico cubano era servido em copo alto com bastante gelo picado, uma colher de açúcar, mais suco de um limão tahiti e duas partes de rum branco. Complementando a mistura, uma boa e vigorosa mexida com a bailarina (colher longa) para deixar o drinque bem gelado. Já a sua versão frozen exige que ele seja saboreado em taças baixas e largas, com hastes mais curtas ou em copos do tipo short drink.

E imprescindível: o gelo deve ser picado e moído e harmonizar-se na medida certa, sem aguar a bebida. Ideal para ser consumido em dias de temperatura senegalesca, o Frozen Daiquiri é perfeito para ser bebericado em happy-hours e à beira da piscina, como um agradável drinque pré-dinner. Por certo o aniversariante Nat King Cole também aprovaria a invenção e não hesitaria em brindar o seu aniversário de número 100, sorvendo vários deles.

Parabéns por esta data especial, Nat! Um brinde a você!

You are unforgettable.

(*) MARCO MERGUIZZO é jornalista 
profissional especializado
em gastronomia, vinhos,
viagens
e outras
coisas boas da vida.
Escreve neste coletivo
toda segunda-feira.
Me acompanhe também
no Instagram, acessando
@marcomerguizzo
#blogaquelesaborquemeemociona
FROZEN DAIQUIRI DE MORANGO

Rendimento: 2 drinques

Ingredientes
2 saquinhos de polpa de morangos congelados. 100 ml de rum branco de boa qualidade. Açúcar demerara a gosto. ½ xícara (chá) de gelo. Gotinhas de suco de limão.

Modo de fazer
Bata tudo no liquidificador e sirva.

PARA VER E OUVIR:

Unforgettable (Natalie Cole e Nat King Cole)
Monalisa (Nat King Cole)

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