O amor acabou. Devo me separar? (final)

JOSÉ CARLOS FINEIS – Priscilla terminou de responder ao questionário numa tarde de céu limpo e pássaros no jardim, cuja beleza ela admirava da varanda mas não conseguia sentir.

Quando começou o teste, ela achava que estava preparada para confrontar-se com seus sentimentos e emoções, mas não estava. Dia após dia, noite após noite, foi tomada por uma tristeza progressiva, que veio acompanhada de falta de apetite, dores de cabeça e um estado de espírito que se alternava, por vezes com intervalos de poucas horas, da apatia ao desespero, da prostração à vontade de sumir e nunca mais ser vista.

Pela metade do questionário, decidira que conversaria com Pedro e contaria a ele que não o amava mais. Não era próprio de seu caráter esperar que pessoas estranhas e programas de computador decidissem por ela. Além do mais, se já não sentia amor, nutria ainda por Pedro um respeito e uma consideração que a impediam de prosseguir com seu segredo por mais tempo. Confiava na racionalidade do marido. Fosse qual fosse o desfecho dessa história, era algo para decidirem a dois.

Sem que houvesse um motivo específico, Priscilla decidiu abrir o jogo somente quando o questionário estivesse concluído. Talvez esperasse que da miríade de perguntas, de seu conjunto ou de alguma questão em particular, alguma luz afinal se acendesse em sua mente. Perspicaz, percebera desde o princípio que o questionário nada mais era que um exercício de autoconhecimento. Só uma pessoa muito estúpida precisaria ler o resultado do teste para saber se deveria se separar ou não, depois de responder com honestidade a tudo aquilo. Como nenhuma luz se acendeu e, pelo contrário, as dúvidas aparentemente se dissiparam, não havia mais nada a fazer senão conversar com Pedro e expor a situação.

Na noite anterior, enquanto Pedro dormia, a mulher observou-o longamente com um misto de pena e uma dolorida sensação de solidariedade. De alguma maneira, ele a comovia. Teve um sobressalto ao pensar que aquela talvez fosse a última noite que dormia com o marido. Mas estava convencida de que ficar com Pedro sem contar a ele o que se passava em seu coração era uma forma, talvez a mais cruel, de traí-lo. Acreditava, desde os tempos de menina, que um homem ou uma mulher merecem dividir suas vidas com alguém que os ame de verdade, ou a união não vale a pena.

Passou delicadamente a mão pelo ombro de Pedro, estendendo o carinho ao longo do braço. Depois apagou a luz de cabeceira e ficou por um longo tempo a olhar para o vazio. O Kindle jazia ao pé do criado-mudo. Priscilla perdera a vontade de ler.

Pedro ouvira tudo sem pronunciar uma palavra, caminhando de um lado para o outro na cozinha, olhos baixos, mão no queixo. Quando Priscilla terminou de falar, ele pediu um tempo, ligou para a loja e mandou chamarem seu gerente.

– Jaime, toca a loja pra mim. Aquele cara do Corolla ficou de fechar hoje. Veja com o banco o que você consegue. O que você decidir com ele tá bom. Eu tou com uma enxaqueca filha da puta. Resolva tudo aí, por favor. Obrigado.

E depois, sentando-se à mesa diante de Priscilla e baixando a voz:

– Por que você fez isso, Pri?

– Eu já expliquei. Não me sinto feliz no casamento.

– Mas você tem certeza que é por causa do casamento? Que não é profissionalmente, por causa desses nossos filhos aloprados, ou alguma depressão que você pegou?

– Tenho.

– Você está apaixonada por outro cara?

– Não! Não mesmo. Você é o melhor homem que eu conheci. Mas falta envolvimento, interesse, sabe? Aquele arrebatamento que faz a gente perder o fôlego. Estremecer… Pulsar.

– Você se sente melhor sozinha do que comigo?

– Não sei. Acho que não. Raramente fico sozinha. Gosto da sua companhia. Mas sinto como se você tivesse se tornado um amigo, apenas. Um bom companheiro, mas sem amor.

Pedro passou as mãos pelos cabelos ralos, com ar de desalento, como que para ganhar tempo e processar as informações. Depois prosseguiu:

– Por que você contou pra mim, Pri? Você não percebe o que vai acontecer agora?

– O que, Pedro?

– Vamos ter de nos separar. Nem você nem eu somos hipócritas. Não ficaríamos juntos sabendo que não existe mais amor.

– Você acha?

– Sim. É o que temos a fazer.

– E se eu não tivesse feito o teste e contado a você sobre minha infelicidade?

– Ah, sei lá. Eu não sei tudo. Talvez pudéssemos tentar consertar as coisas. Eu não sabia que estava tão ruim. Pelo menos teríamos uma chance, desde que tivéssemos um por cento de dúvida. Não sei…

– Até agora há pouco, antes de conversarmos, você era um homem feliz no casamento?

– Eu mentiria se dissesse que era feliz. Mas gosto… Gostava da nossa rotina. Agora, diga pra mim: em toda aquela universidade, na academia, entre suas amigas e as amigas das suas amigas, você conhece alguém que seja realmente feliz? Alguém que não precise postar fotos sorridentes nas redes sociais para convencer aos outros e a si mesmo de que é feliz?

– Então devemos nos conformar com a infelicidade? É isso?

– Não. Eu não pediria isso pra você. Nem quero que fique comigo, se não me ama.

Priscilla estendeu os braços sobre a mesa e suas mãos apertaram as de Pedro, que estavam suadas.

– Pedro, olhe para mim. Olhe bem nos meus olhos. Diga, do fundo do seu coração. Diga pra mim, com toda a sinceridade, sabendo que dessa resposta pode depender muita coisa: você me ama?

– Por que eu devo dizer, Pri? Você já disse que não me ama. Que diferença isso pode fazer?

– Não questione, por favor. Diga o que sente. Eu abri meu coração. Faça isso por mim. Por nós. Abra seu coração também. Você me ama? Você ainda me ama, Pedro?

Então foi a vez de ele segurar as mãos da esposa com firmeza e olhá-la fixamente.

– Não. Esse amor arrebatador de que você fala, de perder o fôlego e soltar a barriga, eu não sinto não. Também não me mataria se ficasse sem você. Gosto da sua companhia, você é minha amiga, mas não, eu não a amo. Acho você atraente, gostaria de transar mais vezes com você, sei que sentirei falta de nossas conversas, mas não, eu não amo você.

(A revelação deveria ter algum impacto para Priscilla, mas não teve, porque ela já sabia a resposta. Havia duas possibilidades plausíveis: Pedro dizia a verdade e realmente não a amava ou, igualmente provável, mentia para encerrar de vez aquele impasse. Pelo que conhecia do marido, Priscilla sabia que ele, por amor-próprio, honestidade de princípios ou consideração a ela, seria capaz de mentir para liberá-la ou liberar-se de uma relação em que não era mais desejado. Se estava sendo sincero ou se mentia, ela jamais saberia, e teria de se conformar com essa dúvida.)

Pedro e Priscilla foram casados por 22 anos e cinco meses. Contando o tempo de namoro no colégio, estavam juntos havia quase 25 anos. Despediram-se cordialmente na porta do escritório de advocacia, após assinarem os papéis do divórcio. Abraçaram-se pela última vez, mas não se beijaram. Depois, meio sem graça, ela esticou a mão e ele correspondeu ao gesto. Com um sorriso meio bobo, evitando olhá-lo nos olhos, ela disse:

– Bem, obrigada por tudo. Você foi a pessoa mais importante da minha vida, mas…

– Já falamos sobre isso, Pri. Não precisa explicar nada. Eu que lhe agradeço por me aturar por tanto tempo e peço desculpas por não ser um homem cativante, pelos meus puns.

– Imagine. Eu nunca me incomodei com isso.

– Então, boa sorte pra você. Espero que encontre a felicidade que procura.

– Você também. É um cara muito legal. Merece alguém que o faça feliz.

E assim as mãos se soltaram e, pela primeira vez em muitos anos, eles foram embora para casas diferentes.

A casa de varanda e jardim foi posta à venda. Em poucos dias um casal do Rio a comprou, por meio de um corretor. Mas esse casal se separou antes mesmo de se mudar para a cidade, e colocou a casa à venda em uma imobiliária. Quem a comprou desta vez foi uma incorporadora interessada em construir um prédio de quitinetes no local.

A primeira pessoa a entrar na casa em meses foi uma estagiária encarregada de fazer medições. A caixa de correio estava lotada e havia uma pilha de correspondência enfiada por baixo do portão da garagem. Entre extratos bancários, folhetos de propaganda e outras inutilidades, chamou sua atenção um envelope grande, que parecia conter muitas folhas.

Sem nenhum pudor, a jovem abriu o envelope endereçado a uma certa Priscilla de tal. Era um relatório detalhado sobre um questionário respondido pela destinatária. Milhares de perguntas e suas respostas, com análises tão minuciosas a ponto de discutirem aspectos semânticos. Sem paciência para ler tudo, a moça folheou o relatório de trás para frente e chegou às conclusões finais, que eram bastante sucintas, tendo em vista a extensão do documento.

“Apesar de sua evidente insatisfação, seu perfil não se enquadra no de uma pessoa que buscará novos relacionamentos, pois é uma mulher inteligente e sabe, no íntimo, que eles tendem a ser iguais ou piores do que seu relacionamento atual. Nossa equipe, após analisar atentamente suas respostas e cotejá-las com nosso banco de dados sobre casos semelhantes ao seu, concluiu que a senhora tem uma probabilidade de 70% a 85% de ficar sozinha, caso venha a se separar. E, caso venha a ter novo relacionamento, dependerá muito da sorte para encontrar alguém com bagagem de vida semelhante à sua, que corresponda a seu perfil romântico e que consiga cativá-la ao longo de vários anos, sem que o relacionamento se torne enfadonho novamente.

Então, em resposta à questão que a senhora formulou ao contratar nosso teste, recomendamos que não se separe, a menos que esteja convicta de que prefere viver sem ninguém. Embora acredite que o amor por seu marido acabou, suas respostas indicam que existe uma chance de estar enganada. Essa probabilidade foi avaliada por nossos especialistas de Psicologia e Tecnologia de Informação em torno de 12%, o que não é desprezível, diante da magnitude da decisão que está para ser tomada. Se o seu desejo é viver um romance, como demonstrou em suas respostas, sugerimos que tente se reaproximar de seu marido e fazê-lo compreender que precisam viver juntos menos a rotina e mais o lado alegre da vida. Nossos psicólogos, em análises ratificadas por dados colhidos ao redor de todo o mundo, acreditam que é mais fácil a senhora reencontrar o amor em seu casamento do que fora dele.

De toda forma, a decisão final é sua. Em 89% dos casos, as pessoas que iniciam nosso teste já sabem, intimamente, o que pretendem fazer, e apenas 18% dos que o concluem decidem manter seus relacionamentos, independentemente de nossos conselhos. Esperamos que, seja qual for sua decisão, tenhamos contribuído para subsidiá-la em seus próximos passos, e que seu investimento tenha sido útil para ajudá-la neste momento difícil. Segue um recibo referente ao pagamento efetuado.”

– Caraca! Quase três mil dólares? Esses ricos são mesmo uns trouxas – exclamou a estagiária, atirando o relatório numa pilha de entulho.

Priscilla não chegou a ler o texto. Ela recebeu uma cópia por e-mail, mas, como a situação com Pedro já havia sido resolvida, simplesmente a deletou, sem um mínimo de curiosidade. Ela e o marido se encontraram uma vez no hospital, quanto André, o filho mais novo, quebrou a perna num acidente idiota. Por essa época, se reaproximaram um pouco e, num final de tarde de outono, decidiram jantar juntos, sem compromisso. Foram à cantina italiana de antigamente. O lugar estava como o haviam deixado anos atrás. Parecia ter sido congelado no tempo. Em dado momento, encorajada por duas taças de vinho, Priscilla esticou o braço sobre a mesa e segurou a mão de Pedro. “Posso lhe fazer uma pergunta?” Mas ele, num gesto instintivo, retirou a mão, e ela recuou.

– Pode perguntar. O que você quer saber? – ele disse, em tom gentil.

– Nada. Bobagem, já esqueci.

Ela queria saber se ele estava feliz. Talvez tenha faltado mais uma taça de vinho e um pouco de coragem a Priscilla. Se ela tivesse perguntado, ele teria respondido que não, não estava feliz, e ela teria uma oportunidade de dizer a ele que também não estava. A conversa evoluiria com cada um contando episódios engraçados ou tristes de sua rotina de solteiros. Depois eles se queixariam de insônia ou crises de ansiedade, e por fim, em algum momento, as máscaras cairiam, as mãos se enlaçariam num impulso, os corações bateriam com força e eles decidiriam se dar uma nova chance, já que agora, além de infelizes e sozinhos, sentiam falta um do outro.

Mas veja como é a vida. Nada disso aconteceu. Despediram-se na porta do restaurante, cada qual com receio de demonstrar fraqueza ou de sofrer uma rejeição. Pedro, sem vontade de voltar para o apartamento desarrumado e silencioso, saiu em busca de um bar para terminar a noite. Priscilla foi direto para casa, onde, depois de tomar um sal de fruta e enfiar-se sob as cobertas, anotou em seu diário:

“Por que sofremos, afinal? Acredito que sofremos porque, na maior parte do tempo, não sabemos reconhecer o amor, quando em sua presença. Passamos a vida esperando por uma orquestra sinfônica ou um espetáculo de fogos de artifício. E descobrimos, quase sempre tardiamente, que a felicidade nada mais é do que um conjunto de coisas às quais não costumamos dar muita importância: o aroma do café pela manhã, o murmúrio da chuva no telhado, a dança das flores com o vento, a voz suave de alguém que estava aqui e não está mais.”

Ilustração: reprodução de tela de Theodore Robinson, La Débâcle (1892).

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3 comentários em “O amor acabou. Devo me separar? (final)

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  1. Muito obrigado, amigo. O livro vai demorar… É melhor que o café com bolo não dependam dele. Vamos tentar reunir o coletivo em breve, num dia com previsão de tempo bom. Grande abraço!

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  2. MUTO REAL, FINEIS! FALTOU UM ORIENTADOR PARA ESSE CASAL. LEMBRO-ME DO PE. CHARMONNEAU, QUE NUMA SITUAÇÃO COMO ESSA RECOMENDAVA: ” PERMANEÇAM SEPARADOS, CADA UM EM SUA CASA E COMECEM UM NAMORO, SAINDO JUNTOS UM PASSEIO, CINEMA, E DEIXEM QUE O TEMPO MOSTRARÁ SE AINDA HÁ ALGO QUE PODE UNIR VOCÊ DOIS. PORÉM ,SE DEPOIS DE TUDO, VIREM QUE NÃO MAIS EXISTE NADA QUE OS UNA, SEPAREM-SE, POIS NÃO HÁ NADA PIOR DO QUE A SOLIDÃO A DOIS” E CONCLUINDO: A FELICIDADE ESTÁ SEMPRE ONDE A COLOCAMOS, MAS NUNCA A COLOCAMOS ONDE ESTAMOS.
    PARABÉNS, FINEIS! MABEL

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