Viver na Europa é chique?

RITA BRAGATTO – Semana passada, saí pra caminhar logo cedo. No quarteirão seguinte, dei de cara com um homem. Tinha lá seus sessenta anos. Uma bela casa. Uma Mercedes na garagem. E uma WAP auxiliando-o na lavagem. A cena, obviamente, me provocou muitas reflexões. Para qualquer brasileiro isso seria um choque. Um homem com um padrão de vida como esse economizando na limpeza do carro? Pois é. Aqui é assim. Com exceção dos muito, muito ricos, todo mundo põe a mão na massa.

O europeu leva muito a sério o estilo de vida “faça você mesmo”. Tenho convivido com pessoas de diversos níveis intelectuais. A maioria esfria a barriga na pia. Esquenta no fogão. Abastece o próprio carro. Corta a grama do jardim. É pau pra toda obra. E o melhor: eles fazem tudo isso sem um único risco no ego. Em nenhum momento se sentem diminuídos por realizarem as tarefas consideradas menores. Ordinárias.

A mesma simplicidade se vê com relação às roupas. Aqui, também ninguém está preocupado com a marca do casaco ou do tênis que você está usando. Muitos, inclusive, compram nos bazares de “segunda mão”. Raríssimas são as mulheres que exibem unhas feitas. Maquiagem? Nem pensar! A adesão aos cabelos naturalmente brancos também é massiva. Acho tudo isso um luxo! Pra mim, a melhor roupa é a liberdade de ser quem a gente é.

Penso que essas atitudes, aparentemente simples, mas tão evoluídas e desapegadas, sejam reflexo do pós-guerra. Esse povo passou muita dificuldade. Muita fome. Muita privação. Todas essas perdas foram registradas no DNA de cada europeu. E transmitidas de geração para geração.

Mas eles saíram muito mais fortes e mais sábios dessa situação. Conquistaram a liberdade de viver com menos. Sem a pressão de bancar um status como temos no Brasil. E eu acredito que aí também resida um dos grandes motivos da ausência do abismo social que vemos tão claramente no nosso país. Ou seja, eles fizeram muito bem a lição de casa!

Muitas pessoas que me conhecem falam: “nossa, que chique, morar na Europa.” Sempre respondo: depende do ponto de vista. Eu, Rita, acho muito chique a gente utilizar o transporte público, com qualidade e segurança. Acho muito chique poder andar de bicicleta e ser respeitada no trânsito. Acho muito chique ter acesso à história, tão cuidadosamente preservada. Acho muito chique viver numa casa sem muros, e não enclausurada em condomínios. Acho muito chique ver idosos tendo acesso a absolutamente tudo. Bem-estar físico. Mental. Social. Só pra enumerar as coisas mais óbvias.

E também acho um luxo a maneira como eles transformam momentos ordinários em extraordinários. Como por exemplo quando um grupo de amigos marca um encontro num lugar público e com uma vista bacana. Cada um leva um vinho. Uma baguete. Um queijo. Frutas secas. E pronto: a festa está armada!

E por falar em festa, semana passada, por exemplo, brindei com um champagne francês a chegada da primavera. Foi com os meus pés descalços no jardim da casa de uma amiga. A garrafa não custou mais do que cinco euros. Mas curtir aquela “vibe” em ótima companhia, sentindo aquele sol chegando devagarinho e aquecendo a alma, foi muuuuuuuuito chique!

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
Atendimento por Skype

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4 comentários em “Viver na Europa é chique?

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  1. eu que agradeço a leitura e o carinho ao me dar seu feedback!

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