Um retrato cru do racismo

LÚCIA HELENA DE CAMARGO –

Sem meias palavras ou meias verdades, nada de eufemismos ou pílulas douradas. “Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman, 2018), dirigido por Spike Lee, fala sobre racismo de maneira crua, direta e pragmática.

Ao contar a história, baseada em fatos reais, do policial negro Ron Stallworth (John David Washington), que decide investigar a Ku Klux Klan (KKK) do Colorado, infiltrando-se entre seus membros, o filme entra por águas pouco confortáveis, mostrando cada detalhe das brincadeiras de péssimo gosto feitas pelos policiais brancos, as reações e principalmente as não reações registradas no semblante de Ron, que tem plena consciência do preconceito que o cerca. Seu colega judeu, o detetive Philip “Flip” Zimmerman (Adam Driver) servirá de interface com a instituição, cujo líder, David Duke, é vivido por Topher Grace.

Embora a ambientação seja nos Estados Unidos do final dos anos de 1970 (mais precisamente, 1978), as situações e diálogos soam extremamente contemporâneos. Poderiam figurar no jornal de ontem. Ou de amanhã. Se no poder está um homem branco sem muita cultura geral, com ideias bizarras sobre a vida, politicamente canhestro, armamentista e mentalmente confuso, podem florescer instituições como a KKK, que defende a “supremacia branca”, o antissemitismo, entre outras bandeiras de naipes na mesma linha.

Assistir ao filme causa incômodo. Não apenas por acompanharmos os perrengues pelos quais passa Ron para conseguir levar avante a investigação. Mas exatamente porque é inevitável comparar o nosso dia a dia com a trajetória ali retratada. Como as pessoas negras são tratadas no ônibus, na rua, no mundo, no ambiente empresarial, nas lojas. O racismo existe em todos os lugares. Não é ficção nem exagero de Spike Lee.

Embora o foco principal seja sobre o racismo contra negros, o preconceito dos truculentos e obtusos contra pessoas diferentes em razão de gênero, cor de pele, religião, classe social, entre outros motivos, estão todos representados em “Infiltrado na Klan”. Por isso o longa metragem é tão poderoso.

Um paralelo nacional, com representações em outra linguagem, seria a genial série em quadrinhos do cartunista André Dahmer, que traz diálogos assim:

– Como é ser negro no Brasil?

– Só sendo mulher para saber

E também:

– Como é ser mulher no Brasil?

– Só sendo gay para saber.

É isso. Uma chacoalhada na acomodação de quem faz de conta que vive em um lugar no qual todas as pessoas são respeitadas. Não somos. Sabemos.  Não é fácil. E talvez seja assim ainda por muito tempo. Mas “Infiltrado na Klan” deixa claro que nem todo mundo está amortecido ou vendado. A hipocrisia existe, sim, mas também tem um montão de gente boa tentando fazer a coisa certa.

A primeira exibição do filme foi em 14 de maio de 2018 no Festival de Cannes, no qual  conquistou o Grand Prix, o prêmio do júri (que só perde em importância para o prêmio máximo, a Palma de Ouro, concedida no ano passado ao drama japonês “Shoplifters”). Recebeu seis indicações no 91º Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator Coadjuvante (Drive). Levou como Melhor Roteiro Adaptado (escrito por Lee com base no livro autobiográfico “Black Klansman”, de Ron Stallworth). O prêmio de Melhor Filme foi para “Green Book”, que também se propõe a tratar de racismo, porém, na comparação com este, parece ainda mais água com açúcar.

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