A rica fauna do Sorocaba, um rio que muitos olham, mas poucos veem

SANDRA NASCIMENTO – O rio passa arrastando as águas que seguem recebendo galhos, folhas, pedras, chuva e sol. Em um movimento contínuo, leva consigo tudo o que recebe, enquanto rega paisagens, germina sementes, envolve plantas, abriga bichos, mata a sede de um lugar. As estações se alternam e trazem tempos de mudanças, muitas perceptíveis aos olhos de quem também passa e observa a natureza que insiste em se renovar, guardando em fauna e flora a sua diversidade.

– Aqui um suiriri-cavaleiro, ali uma garça branca: são encantos de um passeio às margens do Sorocaba, em apenas um trechinho desse rio que nasce em Ibiúna e atravessa mais oito cidades: Votorantim, Sorocaba, Iperó, Boituva, Tatuí, Cerquilho, Jumirim e Laranjal Paulista, onde fica a foz que entrega suas águas ao Tietê.

Aves de diferentes espécies coabitam nas margens do rio Sorocaba

No início dos anos 2000, estudos sobre a biodiversidade do rio Sorocaba revelavam perto de 250 espécies de aves, 60 de mamíferos, 25 de anfíbios, 30 de répteis e 65 de peixes. Foi o que narrou o biólogo Welber Senteio Smith, em seu livro Os peixes do Rio Sorocaba (Editora TCM, 2003).

Só para se ter uma ideia, entre os peixes, foram citados no livro o lambari bocarra, a tilápia e a piaba. Entre pássaros, povoavam o Sorocaba o quero-quero, a jaçanã, o frango d’água e a garça-branca. A rã, a perereca-de-banheiro e o sapo-cururu constavam entre os anfíbios. Já os mamíferos encontrados eram o ratão-do-banhado, o tamanduá-bandeira e até uma onça-parda ou suçuarana. Quanto aos répteis: cascavel, cobra d’água, coral verdadeira e a jararaca – comum em toda bacia, explicava o autor.

“Somos frutos da paisagem em que vivemos, ela dita nosso comportamento e até nossos pensamentos, na medida em que reagimos a ela.”

(Lawrence Durrell – 1912-1990 -, romancista e poeta)

Mas esse ressurgimento não era fruto do acaso, porque a cidade, desde o ano 2000, por meio de obras do Programa de Despoluição do rio Sorocaba, já vinha desenvolvendo o tratamento do esgoto produzido, livrando o rio de sua carga total de efluentes. Nas duas décadas anteriores, o curso d’água havia sido alvo de muita poluição, em consequência das atividades industriais e de mineração, pela falta de tratamento de esgotos e tantos outros motivos.

Com a conscientização social e política que ocorreu após a década de 80 e a aplicação de leis ambientais, pôde ser notada uma significativa melhora na preservação dos mananciais.

Calango toma banho de sol na margem: avistar animais é comum num passeio pelo rio

Mais recentemente, esse reflexo foi conferido na obra Biodiversidade do Município de Sorocaba (2014), composta de trabalhos realizados por alunos das universidades sorocabanas (tais como Ufscar, Unesp, Unip, Uniso e Puc), que revelaram uma multiplicidade de espécies, após as ações de limpeza no rio.

Os trabalhos registram mais de 280 espécies de aves – 23 ordens, 61 famílias – , número que representa 35,3% das aves do estado de São Paulo e 15,3% da avifauna nacional. De peixes contaram 53 espécies, sete ordens, 19 famílias, sendo 44 espécies nativas e 9 não nativas. Os estudos apontaram ainda 49 espécies de répteis e 23 de anfíbios. Foram encontradas 36 famílias, 11 ordens e 4 classes de macroinvertebrados. Quanto aos invertebrados, ficou evidenciada a necessidade de novos estudos.

Com toda essa riqueza, não é difícil apreciar, ao longo do trajeto do Sorocaba, casinhas de joão-de-barro sobre árvores e torres, lembrando a sua presença. Corujinhas buraqueiras dissimulando olhares, calangos procurando luz, uma família inteira de ratões, o colhereiro, marrequinhas, um quero-quero, o bem-te-vi, além dos cardumes de peixes, é claro. E tudo isso, enquanto o rio segue despretensiosamente brincando com o vento, alimentando a terra e garantindo a vida.

“Biodiversidade é a biblioteca das vidas.”

(Thomas Lovejoy, ambientalista)

Conheça alguns dos animais citados neste post. Breve, outros

Ratão-do-banhado – O ratão-do-banhado é um grande roedor que pode ser encontrado na bacia do Sorocaba. Tem pelagem marrom-amarelada e cauda grossa e longa, revestida de pelinhos ralos. Suas patas traseiras apresentam as membranas que unem os dedos e possibilitam o nado. Para construir ninhos, costumam cavar tocas em barrancos próximos à água. Alimentam-se da vegetação da margem e de plantas flutuantes. A foto foi registrada no lago do Parque das Águas, em Sorocaba. Nome científico: Myocastor coypus.

Garça-branca-grande – Entre as garças brancas é a mais conhecida. Vive sozinha ou em bandos. Alimenta-se de insetos, peixes e anfíbios. Em águas rasas, consegue permanecer imóvel durante um longo período à espera da presa. A plumagem é totalmente branca. Pernas negras. Bico pontiagudo amarelo. Seus ninhos são construídos sobre árvores à beira d’água. É espécie migratória e pode ser encontrada por todo planeta. Contudo, tornou-se residente na região. Nome científico: Ardea alba.

João-de-barro – O joão-de-barro é um dos pássaros mais populares das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país. Tem o dorso e a cauda marrom-avermelhados. O ventre e o peito são esbranquiçados. E a linha superciliar destaca penas claras. Cada ave mede de 18 a 20 cm e pesa até 49 gramas. Macho e fêmea são bem parecidos. Formam casais, vivem unidos, cantam em dueto e em parceria constroem o característico ninho de barro em forma de forno. Para tanto, escolhem o encontro de galhos nas árvores altas ou um lugar de difícil acesso em postes, torres, janelas e telhados. Durante a construção, o casal divide e reveza tarefas – enquanto um fabrica o ninho, o outro vai buscar o barro. O joão-de-barro pode ser observado em campos, pastagens, jardins e em toda região de Sorocaba. Costuma ser visto pelo chão revirando folhas ou ciscando insetos em gramas, pedras e troncos caídos. Alimenta-se de formigas, minhocas, moluscos e de farelo de pão deixado no seu caminho por humanos. Dócil e de fácil interação, é conhecido também como amassa-barro, barreiro, forneiro, pedreiro, oleiro e joão-barreiro. Já a fêmea é chamada joaninha-de-barro, maria-de-barro, sabiazinho e maria-barreira. Nome científico: Furnarius rufus.

Calango – De corpo cilíndrico e cauda longa e forte, calango é o nome dado ao pequeno lagarto que vive nas árvores, pedras e rochas. Normalmente costuma aparecer onde há pouco movimento de pessoas. Gosta de se camuflar em madeiras, concretos, costas rochosas e fendas, para caçar ou tomar sol. Alimenta-se de grilos, gafanhotos, larvas, formigas, cupins e aranhas. Tem hábitos diurnos, prefere sair nas horas mais quentes do dia. É comum abrigar-se também sob troncos caídos. Reproduz-se em épocas de chuvas, pondo até cinco ovos a cada uma das várias ninhadas do ano. Ao nascer, os filhotes medem 3 centímetros. Adultos, os machos podem chegar a medir 12 cm de comprimento. Habitam campos e cerrados, mas hoje a população de calangos já está sendo considerada como espécie ameaçada, devido ao desaparecimento cada vez maior do número desses indivíduos na natureza. Nome científico: Cnemidophorus ocellifer.

Colhereiro – A característica mais marcante do colhereiro é a cor rosa. Costuma medir em média 81 cm. É ave de hábitos diurnos. O nome colhereiro é alusão ao bico que tem o formato de uma colher. Para se alimentar, captura moluscos e crustáceos na água; quando encontra comida, fecha o bico de estalo. No período reprodutivo, a plumagem rósea se intensifica. Seu acasalamento é considerado bem elaborado, inclui batimentos de bicos e ofertas mútuas de galhinhos. O rosado das penas é ainda indicativo de boa qualidade do meio ambiente. O colhereiro vive solitário ou em grupo. Costuma habitar a América do Sul, o Caribe e a costa sudeste dos Estados Unidos. É também chamado Aiaiá e Ajajá. Na foto, um colhereiro no rio Sorocaba. Nome científico: Platalea ajaja.

Quero-quero – É uma das aves mais conhecidas na área urbana. Se alimenta de pequenos peixes e insetos, que captura na lama das margens, com os pés. Mede até 37 centímetros e pesa perto de 300 gramas. Possui uma faixa preta que se estende do pescoço ao peito e exibe um penacho na região posterior da cabeça. Sua plumagem é composta de penas nas cores branca, preta e cinza. Pernas e íris avermelhadas. Seu canto é comparado a um grito de alarme e parece dizer “quero-quero”. Defende seus ninhos vocalizando alto e atacando os inimigos com um esporão que se localiza no encontro das asas. Macho e fêmea têm a mesma aparência. Nome Científico: Vanellus chilensis.

Coruja-buraqueira – A coruja buraqueira habita campos, pastagens, cerrados e áreas urbanas. Ela tem hábitos diurnos e pode ser facilmente encontrada em praças, jardins e canteiros. Alimenta-se de insetos e costuma fazer ninhos em tocas cavadas por ela mesma ou abandonadas por tatus. Sua plumagem é cor de terra com manchas esbranquiçadas, sobrancelhas brancas, olhinhos amarelos. Estas corujinhas das fotos foram vistas na margem esquerda do rio Sorocaba, paralela à av. Dom Aguirre. Nome científico: Athene cunicularia.

Bem-te-vi – O pássaro mais popular do Brasil. É reconhecido pela plumagem e pelo canto que origina seu nome. Peito e ventre amarelos, garganta esbranquiçada, listra branca superciliar circundando a cabeça. Parte superior central da cabeça amarela. Asas, cauda e dorso marrons. Vive em campos, matas, pastagens, plantações, brejos, banhados, rios e cidades. Sua alimentação diária é à base de insetos, mas também come frutas – bananas, mamões, maçãs, laranjas, pitangas. E ainda flores, minhocas, pequenas cobras, lagartos, crustáceos, peixes, girinos e carrapatos. Gosta de ter domínio do território, ataca aves invasoras. Nome científico: Pitangus sulphuratus.

Fotos: José Finessi, José Carlos Fineis e Sandra Nascimento

Referências: Observando as Aves nas Áreas Verdes de Sorocaba e Região: Luciano Bonatti Regalado; Os Peixes do Rio Sorocaba, Welber Senteio Smith; Wiki Aves (site); A casa do joão-de-barro, Demis Bucci; Ambiente Brasil (site); Ambiente Fauna (site); Biodiversidade do Município de Sorocaba, organizadores: Welber Senteio Smith, Vidal Dias da Mota Junior, Jussara de Lima Carvalho.

Um comentário em “A rica fauna do Sorocaba, um rio que muitos olham, mas poucos veem

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  1. Fantástico. Amo esse Rio, essa terra rasgada e essa gente!

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