As árvores da minha vida

PEDRO HENRIQUE NEGRÃO (FOTO) VANESSA MARCONATO NEGRÃO (TEXTO) – A silhueta do Jatobazeiro mora na minha memória desde sempre. Desde que eu ia de bicicleta, aos 4 anos pra escola da fazenda, a grande árvore dividia o caminho ao meio. Dali em diante é só descida. Depois o estábulo dos búfalos, cujos olhos azuis me apavoravam.
Um arco-íris, eu nunca tinha visto desse ângulo, e nenhum lugar do mundo seria mais adequado a mim para um pote de ouro.

São sempre imagens de árvores que sustentam minhas lembranças, tal como a figura da árvore genealógica, substituindo as figuras ancestrais e pendurando minhas subjetividades nos galhos, que às vezes arcam pelo peso das memórias que conjugo a elas.

Nossos Natais aconteciam debaixo de uma Paineira majestosa. Minha avó arrastava a grande mesa de madeira para a sombra, e a preenchia com travessas de macarrão grosso, frango assado, e uma leitoa a pururuca.

Sonho, aliás, tenho pesadelos, com o dia em que um tornado passou pelo sítio. Lembro-me das ripas frágeis da janela de madeira voando com o vento, e o Coqueiro, logo embaixo dessa mesma janela, sendo arrancado pela força da tempestade. A primeira coisa que fizemos ao acordar foi cavar um novo leito para plantar de novo o Coqueiro onde o vento o havia levado.

Lembro também da grande Sibipiruna, das suas folhas miúdas que entupiam a calha e era motivo de reclamação constante da minha mãe. Tantas queixas resultaram no seu corte. Meu tio emprestou a motosserra do vizinho e em poucos minutos a Sibipiruna foi ao chão. Meu tio sofreu um acidente fatal de moto naquele mesmo dia, e por mais que eu saiba que ambos os acontecimentos não têm relação, não consigo me livrar da imagem de seu corpo sem vida e do tronco sem vida lado a lado na imagem da minha memória.

Nomeamos todas as árvores da escola onde leciono, inspirada numa crônica de Rubem Alves que diz: “Nossas inteligências estão cada vez mais ligadas aos vídeos e computadores e cada vez mais distantes da natureza. Há crianças que nunca viram uma galinha de verdade, nunca sentiram o cheiro de um pinheiro, nunca ouviram o canto do pintassilgo (…) As nossas escolas – seria bom se elas ensinassem as crianças a amar as árvores. Chamar pelo nome e amar as paineiras, as sibipirunas, as magnólias, os pinheiros, as mangueiras, as pitangueiras, os jequitibás, os ipês, as quaresmeiras… Aprendi na escola que os homens são uma forma de vida mais evoluída que as árvores. Estou brincando com a possibilidade do contrário: que as árvores sejam mais evoluídas que nós.” Hoje nossas crianças, orgulhosamente, chamam as árvores pelos seus nomes.

O Jatobazeiro, bravo, resistente, que já foi partido ao meio com um raio, refeito logo depois com tijolos e cimento. Continua lá, marcando o horizonte da minha existência O mundo inteiro eu enxerguei dali.

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