A ratoeira

JOSÉ CARLOS FINEIS – O velho passou meses levando vasilhas com líquidos, canos, latas, engrenagens e toda sorte de ferramentas e engenhocas para cima da laje de sua loja – várias semanas de trabalho duro e misterioso que entrava pelas madrugadas – porque sabia que, mais dia menos dia, eles chegariam. E eles chegaram.

Na tarde de uma terça-feira, por volta das 17h, com a rua apinhada de gente, entraram cinco deles. Tão logo surgiram, uma cliente saiu sem olhar para os lados e o velho, que não tinha funcionários, ficou sozinho no caixa. O homem que parecia ser o líder do grupo parou diante dele e disse:

– Chegou a hora, velho. O que é seu estava reservado. Olhe bem para este rosto. Você está olhando para sua morte.

O velho olhou bem. Estatura mediana, quarenta e tantos anos, rosto vermelho de sol ou de cachaça, ferida no nariz, bíceps trabalhados em alguma academia ou com latas cheias de pedras em um fundo de quintal, camiseta polo meio gasta, barba aparada rente, cabelos crespos e despenteados.

O velho manteve-se de pé, com as mãos sobre o balcão caixa, respirando fundo para controlar o nervosismo.

– Se minha hora chegou, devo ter direito a um pedido – disse, disfarçando o tremor na voz. E, antes que o outro respondesse: – Peço que me matem antes de destruir tudo. Esta loja é o esforço de uma vida inteira. Seria muito triste vê-la arrasada antes de morrer.

Suas palavras mal puderam ser ouvidas em meio ao quebra-quebra que os outros haviam começado. O ruído dos brinquedos espatifados contra o piso cerâmico podia ser ouvido nitidamente da rua, mas as pessoas continuaram a passar pela calçada como se nada estivesse ocorrendo, e ninguém mais entrou (todos sabiam o que aconteceria se entrassem naquele momento). Também ninguém chamou a polícia, porque a polícia recebera ordens de jamais intervir nessas ocasiões.

O homem com a ferida no nariz olhou para trás, com um misto de orgulho e crueldade. Os outros já tinham jogado quase tudo no chão e, com tacos de beisebol (influência dos filmes americanos), reduziam a pequenos fragmentos bonecas e carros de bombeiro. Uma dessas bonecas que falam, ou o que restou dela, começou a repetir com voz de robozinho: “Olá, eu sou a Mary. Gosto tanto de você! Vamos brincar?”

– Tarde demais, velho – disse o líder do bando. – Meu pessoal é rápido. Mas saiba que fico contente que você possa ver, como é mesmo?, o esforço de uma vida inteira ser destruído. Isso é o que merecem os vermes como você.

O velho então olhou fixamente nos olhos do outro, e disse aquelas que seriam suas últimas palavras dirigidas a alguém, enquanto deslizava dois dedos e apertava– com raiva e prazer – um botão escondido embaixo do balcão.

– Então faça o que quiser. Termine sua obra, jagunço imundo. Lacaio dessa alcateia podre que tomou conta de tudo. Lutei minha vida inteira com dignidade. Apoiei causas humanitárias. Fui às ruas pela democracia. Há muito sinto que não pertenço mais a este mundo. Não faço questão de viver num lugar onde assassinos ditam as regras. Só lamento morrer com um bando de ratos.

Disse isso esperando um soco, mas, enquanto falava, o homem com a ferida no nariz sacava uma pistola da cintura, retirava o carregador de um bolso da calça e municiava a arma, como que a prolongar a agonia do velho. Ele tinha esse costume. Jamais matava alguém sem antes fazer uma mise-en-scène. E não se importava com discursos, pois aprendera a se abstrair completamente quando as vítimas tentavam dizer alguma coisa. Simplesmente não ouvia. Era como se a voz do outro fosse uma espécie de ladainha em língua estrangeira.

Algo do que o velho falou, entretanto, ecoou no fundo de sua mente e interrompeu seu ritual. “Só lamento morrer com um bando de ratos.”

O velho continuava a falar, mas o homem o interrompeu, apontando a pistola para seu rosto.

– Espera. Cala a boca, velho! O que você disse sobre morrer com um bando de ratos?

O velho sorriu e, com um aceno de cabeça, apontou para a porta da rua, dessas de enrolar, que descia sem ser percebida, lentamente, desde que apertara o botão.

– Suba aquela porta! Suba aquela porta agora! – ordenou o homem, esticando o braço sobre o balcão e enfiando o cano da arma na boca do velho.

Os outros pararam a quebradeira e, percebendo que estavam sendo aprisionados, correram para a porta. Mas a estrutura de metal estava a poucos centímetros do chão e fechou com um estrondo, antes que chegassem até ela.

– Onde abre aquela porta, velho filho da puta? – berrava o homem, revirando o cano do revólver na boca do velho.

Um dos quatro correu para os fundos, onde tentou abrir e depois arrombar a pontapés outra porta de aço, menor, que lhe pareceu ser a única opção possível de fuga – mas estava blindada como um cofre.

Alguém subiu numa prateleira para ver se era possível escapar pelos vãos de uma janela estreita e comprida, a quase dois metros do solo. Dizem que os ratos passam por qualquer fresta em que sejam capazes de enfiar a cabeça, mas aqueles, apesar de embrutecidos, eram seres humanos, e nenhuma cabeça humana passaria pelo vão estreito do vitrô basculante.

Então começou o espetáculo que o velho preparara especialmente para a ocasião. De seis pequenos furos no teto, ao longo do salão comprido, desceram com zunido de motorzinho de dentista seis canos finos que pararam cerca de 15 centímetros abaixo da laje.

Os homens estavam quietos agora, e, arfantes, quase sem piscar, olhavam para os canos. O velho, ainda com o revólver na boca.

Com um clanc que fez a todos tremerem, menos ao velho, os canos se desdobraram em conjuntos de cinco hastes finas, dotadas de furos minúsculos na parte de baixo, formando como que pequenos chuveiros circulares.

Na sequência, para satisfação do velho, que se regozijava intimamente com o perfeito funcionamento de sua engenhoca, de cada pequeno furo começou a escapar um jato forte e audível de gás incolor, que em poucos segundos se fez sentir pelo cheiro.

– Esse velho armou uma emboscada! Esta arapuca é uma câmara de gás – gritou um dos jovens.

O homem de nariz machucado esqueceu o velho por instantes. Os cinco se uniram para tentar levantar a porta da frente, que travara em dois lugares ao bater no chão, deixando em alguns pontos – seria o perfeccionismo do velho tão aguçado a ponto de planejar esta pequena ironia? – pequenas frestas estreitas e longas, por onde se podia ver a luz da rua. Os cinco deram chutes na porta e atiraram nas travas, tentando destruí-las. Gritavam coisas desconexas. A certa altura, jamais se saberá por quê, um dos rapazes deu um tiro em outro, que caiu com a cabeça estourada. Ato contínuo, o atirador enfiou o revólver na boca e puxou o gatilho.

O velho sussurrou de si para si, entre os dentes machucados: “Emboscada não: ratoeira.”

Depois, tirou de uma gavetinha um revólver calibre 22 e deteve-se olhando para o cano prateado enquanto fazia uma breve oração. Pensou com carinho na família, nos pais, nas mulheres que amou, nos irmãos de sangue e de ideias. Lembrou da colação de grau na Escola de Comércio, do dia em que abriu a loja de brinquedos, da única vez em que se candidatou a vereador (não foi eleito), das reuniões partidárias, das manifestações pelos direitos humanos. Seus olhos se encheram de lágrimas quando pensou no destino trágico de seu país. E, sem mais pensar, com mão resoluta, deu-se um tiro na têmpora, na direção do lobo frontal.

Os bombeiros levaram horas para serrar a porta e abrir uma passagem. O sangue de um dos rapazes escorrera pelas frestas da porta, empoçando na calçada e chamando a atenção dos transeuntes.

A rua foi interditada. Alguém sentiu um cheiro estranho saindo da loja. Buscaram máscaras antigás. Os primeiros homens a entrar no salão encontraram seis corpos, três com ferimentos à bala. Os chuveiros no teto haviam esgotado sua carga mortal. A boneca Mary calara-se finalmente. Apenas o som de vidros e plásticos esmagados sob as botas dos bombeiros e policiais podia ser ouvido.

Suficientemente treinados para lidar com cadáveres, eles não expressavam emoções, nem faziam comentários. Conversavam entre si apenas o essencial: “Me ajude a tirar este daqui”, “chegaram os sacos plásticos?”, “nada de fotos”.

Diziam isso com vozes desprovidas de emoção e não se olhavam nos olhos, pois haviam sido advertidos em treinamentos, nas aulas de Segurança Nacional e Novos Parâmetros de Cidadania, sobre o quanto um simples olhar pode ser incriminador.

Ilustração: reprodução da tela A Dança dos Ratos, de Ferdinand van Kessel (1648-1696), Städel Museum

Leia também, do mesmo autor:

3 comentários em “A ratoeira

Adicione o seu

  1. Muito obrigado, Nilson. Quero me dedicar cada vez mais e mais à literatura. Está sendo um prazer enorme escrever novamente.

Deixe uma resposta

WordPress.com. Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: