O fio do destino

RITA BRAGATTO – O que faz uma pessoa se conectar a outra: o espaço físico ou a energia? Quanto tempo é necessário para conquistar um coração alheio: um segundo ou uma vida? O que é preciso para tocar, profundamente, a alma de outra pessoa: a frequência ou a intensidade? Na semana passada, me peguei pensando muito nisso. E o que originou a minha reflexão foi o caminhão de afeto que recebi de um casal de amigos, durante a minha estada na casa deles, na Holanda.

Nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez em San Jean Pied de Port, na França. Era abril de 2007. Primeiro dia do “Caminho de Santiago”. Um percurso feito por peregrinos do mundo todo. Conheci Jan e Willie ainda no refúgio. Trocamos algumas palavras em um parco inglês. E, no dia seguinte, cada um seguiu o caminho, em seu próprio ritmo.

Jan e Willie

Mas, obviamente, ao longo dos quase 800 quilômetros percorridos, nos encontramos muitas vezes. E começamos a compartilhar não só o percurso. O stroopwafel (um biscoito típico holandês). A nossa história de vida. O silêncio que grita durante a peregrinação. Mas também as profundas emoções que o trajeto faz florescer. Foi lindo ver o caminho se fazer em nós! E uma forte conexão nascer!

Mantive contato por e-mail após o fim do percurso. Em maio de 2008, eles me convidaram pra viajar pela Holanda. Aceitei. Foram me buscar de barco em Amsterdã. Passeamos quinze dias por canais que nos levaram até a casa deles. Pela manhã, navegávamos. À tarde, pedalávamos pelos vilarejos onde o barco ficava ancorado. Cozinhamos. Rimos. Choramos.

Ao fim da viagem, eles me levaram para conhecer seus filhos Sandra e Niko, a nora Daniela, o genro Jacob e também a mãe de Jan, que vivia numa casa de repouso bem aos moldes holandeses: um quarto no prédio de um hospital, mas que era totalmente decorado com seus pertences. Mais parecia uma casa.

“Oma”, como são chamadas as avós holandesas, me recebeu com muita alegria. O quarto estava florido. Ela fez chá e o serviu numa louça bonita. Ubele era uma mulher muito elegante e culta. Passava os dias lendo. Foi gostoso conversar com ela. Ao fim da tarde, fez questão de tirar uma foto comigo. Depois que eu regressei ao Brasil, soube, por Jan e Willie, que ela a colocou num porta-retratos. Confesso que fiquei surpresa com aquele gesto, mas também muito feliz. Como quem recebe um carinho de vó!

Oma e eu em 2008

Em outubro de 2008, Jan e Willie foram para o Brasil. Eu os levei para conhecer Bonito e mais alguns lugares. Ubatuba também estava no roteiro. E nem preciso dizer o quanto se esbaldaram nessas águas quentes e transparentes. Novamente, nos divertimos muito juntos.

Voltamos a nos encontrar só em 2016, quando fui fazer um curso na Bélgica. Eles foram ao meu encontro e passamos um final de semana juntos. Apesar do inglês não ser fluente, uma outra linguagem sempre impera entre nós: a do coração. Muitas vezes, Willie e eu trocamos abraços e olhares que dispensam qualquer legenda. E é assim até hoje. É uma conexão muito intensa.

Semana passada, fui visitá-los. Assim que cheguei à Holanda, soube que Oma tinha morrido há duas semanas. Com os olhos transbordando em lágrimas, Willie me confessou que suas últimas palavras foram: “Diga adeus a Rita.” Quando ouvi isso desabei a chorar. Ser lembrada no leito de morte, por uma pessoa com a qual estive apenas algumas horas, me tocou profundamente.

Fiquei vasculhando a memória. Tentando recordar aquela tarde. O que eu tinha dito? Como eu tinha agido? O que eu tinha feito de especial para justificar a honra de ter meu rosto exibido em um porta-retratos nos últimos dez anos? O que Oma pensava quando via minha foto? Por que se lembrou de mim em seu leito de morte? Não encontrei respostas. Mas acolhi todo esse amor em meu coração. Com muita honra e gratidão.

Jan e Willie também têm fotografias minhas pela casa. Elas registram as poucas, mas significativas, viagens que fizemos juntos. Ver minha foto numa parede misturada aos grandes momentos da família me emocionou muito. Dá uma sensação de pertencimento. De valorização. De amor. Definitivamente, esses holandeses são especialistas em conjugar o verbo amar, não é mesmo?

Mas pensa que acabou a avalanche de afeto? Não! Tem mais! Antes de eu embarcar, Willie me entregou um envelope. Disse que era uma pequena carta. Eu sabia que lá vinha mais emoção. Num papel de sulfite dobrado, ela escreveu: “Uma boa amiga você não a vê. Ela está sempre nas suas costas.” Além disso, colou um fio de barbante preto com um durex. Mais uma vez, desabei a chorar.

Tem uma lenda chinesa que diz que quando duas pessoas nascem são conectadas por um fio de destino. É a chamada “Lenda do fio vermelho” e serve para ligar as almas gêmeas. É como uma conexão espiritual que representa o amor eterno. Ao ver esse fio que a Willie colou, imediatamente, lembrei dessa história. E de todo o amor que nos envolve. Sou muito grata ao universo por ter cruzado nossos caminhos, mas, principalmente, por esses peregrinos holandeses caminharem tão docemente pelo meu coração.

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
Atendimento por Skype

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6 comentários em “O fio do destino

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  1. Sempre bom ler suas histórias .
    Obrigada por dedicar um tempo para escrever e nos deixar “ ver o mundo com seus olhos” . Um grande beijo amiga querida

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    1. Ahhhh sua linda! Agradeço muito a sua leitura e doces palavras. São um bom incentivo pra eu continuar conectada aos chamados da vida! Gratidāo! 🌷

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  2. Rita, chorei. Nem nos conhecemos pessoalmente, mas sinto uma conexão. Vou ter que ir te ver aí na Bélgica. Não tem jeito…. rsrsrr

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    1. Ah, sua linda….Não sou eu. São as pessoas que cruzam meu caminho….<3
      Não estou mais na Bélgica. Agora, estou na Itália.
      Quando for ao Brasil vamos nos encontrar? Será um prazer te conhecer pessoalmente!

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