Leopoldo II e o Holocausto africano

FREDERICO MORIARTY – Charles Marlow narra sua história num porto inglês. Contratado por uma empresa belga, ele descera em sentido contrário as mais de 70 corredeiras do Rio Congo (o segundo em vazão ao mar). Num traçado repleto de meandros e perigosas cachoeiras, a bacia tem o formato de uma imensa curva a cortar duas vezes a linha do Equador: uma em direção ao norte e a outra ao sul, fazendo que duas vezes ao ano ele receba chuvas torrenciais. Com o Saara ao norte e as Savanas ao sul, uma imensa área verde de 2,5 milhões de km2 protege o rio, a floresta Equatorial do Congo.

No romance No coração das trevas, de Joseph Conrad, o mercador Marlow vai em busca de marfim, borracha e um coronel inglês que desaparecera na selva do Congo, Kurz.

Entre 1885 e 1908, a região do atual Congo, da República Democrática do Congo,  de Ruanda, Burundi, parte de Angola e Moçambique formaram o “Estado Livre do Congo”, o vasto império dos belgas. Em verdade, a propriedade privada do genocida rei belga Leopoldo II.

Nos 23 anos de exploração econômica, cerca de 10 milhões de congoleses foram mortos (cerca de 30% da população do país). Mortos pelos rifles das empresas privadas criadas por Leopoldo, pelo trabalho sem fim,  pela fome ou pela escravidão.  Um prenúncio trágico do que seria o nazismo. Uma história esquecida ou escondida pela Europa.

images (4)Após uma longa campanha Internacional pelos direitos humanos (liderada pelo deputado socialista belga Vandervelde) e defendendo o fim do holocausto africano, em 1908 o rei Leopoldo II se retira do Congo, nasce o Congo Belga, uma colônia da Bélgica, país governado pelo mesmo rei facínora.

O livro é maravilhoso. Inspirou várias narrativas de aventura e morte. Francis Ford Coppola captou o texto e o adaptou para o cinema. Três quartos de século depois, o capitão Marlow desce as corredeiras do rio Mekong. Kurz é  um coronel louco na floresta da Indochina. O Congo agora é o Vietnã. A insanidade arde mais do que os milhões de toneladas de napalm despejadas pelos Estados Unidos num país paupérrimo do sudeste asiático. Sempre em nome da civilização, sempre em nome dos valores culturais do Ocidente e sempre exterminando corações e mentes.

Somos tomados por esses Kurz vez ou outra. Somos tragados pela barbárie de quem diz que irá nos salvar. Somos devastados em nossa humanidade. E, como sempre, os algozes, os assassinos, gostam de renegar a História. Valorizam o extermínio e comemoram a violência. Como no romance de Conrad (numa imagem que existiu verdadeiramente no país africano), quando Marlow descreve uma imensa fazenda de um oficial e empresário belga no Congo. Nela, a cerca que dava a volta em toda a Casa Grande era feita de crânios de congoleses assassinados. O narrador diz a frase que define as barbáries de outrora e dos nossos dias:

“O horror. O horror. O horror.”

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5 comentários em “Leopoldo II e o Holocausto africano

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  1. Bravo! Belíssimo texto e oportuna reflexão sobre uma parte da história pouco conhecida. Parabéns, Prof. Moriarty.

  2. Agradeço demais por tudo que está fazendo meu grande editor.

  3. Trazendo um pouco da minha pesquisa para a net. Bjos

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