Amado e admirado, rio Sorocaba ainda sofre com a indiferença e o descaso

SANDRA NASCIMENTO – Hoje, a intenção é lançar luz a algo preocupante e deprimente. Trata-se das marcas notáveis de abandono à natureza que envolvem toda a comunidade da área geograficamente traçada pelo rio Sorocaba. Para exemplificar, pode-se evidenciar a quantidade razoável de lixo que é jogado no seu entorno, ou incêndios indevidos provocados por queima de detritos. Que tal citar os descasos políticos? Ou, ainda, elencar os loteamentos clandestinos e plantações, que descartam em seu leito esgotos, adubos e pesticidas?

Todos devem saber que rios e cursos d’água pertencem às comunidades, cabendo sobre eles a responsabilidade de municípios, Estados e Federação, mesmo quando situados em terras particulares. Mas vale lembrar que a sua preservação é dever de todos, salientando, inclusive, que a água, devido à degradação ambiental provocada por atividades impensadas, até mesmo onde existe em abundância, um dia poderá se tornar escassa.

O naturalista francês Jacques Yves Cousteau (1914-1997) disse certa vez: “Os homens se congregam onde as águas convergem, isso é uma lei da natureza.” Não seria interessante se essa congregação de homens demonstrasse atitudes racionais e de respeito ao meio ambiente?

Pesquisas apontam que o consumo de água no mundo subiu cerca de seis vezes mais nas últimas cinco décadas. A exploração exacerbada foi tornando menor os estoques aos olhos do mundo, e são bem poucos os que se interessam por ações que possam garantir a sua preservação.

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Bertolt Brecht (1898-1956). Dramaturgo, poeta e ator alemão.

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa, pode-se dizer: “o rio que corre pela minha aldeia…” vem da represa que por lei é protegida pela Área Ambiental de Itupararanga (APA). Ou seja, é de um reservatório criado no começo do século 20 que provém a maior parte da água do Sorocaba. Outros volumes chegam de córregos que desembocam no rio ao longo de seu percurso.

A APA foi criada em 1º de dezembro de 1998, pela Lei Estadual 10.100 – alterada pela lei 11.579 de 2/12/2003 –, com o propósito de uso sustentável e conservação ambiental, para a proteção de todos os mananciais existentes no entorno da represa. Seu autor: o então deputado estadual Hamilton Pereira.

A represa de Itupararanga é o manancial de onde provém o maior volume de água do Rio Sorocaba

Essa área de proteção ambiental corresponde a toda área da bacia hidrográfica da represa de Itupararanga. Inclui os municípios de Alumínio, Cotia, Ibiúna, Mairinque, Piedade, São Roque, Vargem Grande Paulista e Votorantim. Ela é o maior reservatório manancial de água doce da região de Sorocaba.

Vasta parte da Serra de São Francisco*, encontra-se dentro da Área de Proteção Ambiental de Itupararanga – um ambiente de total interesse ecológico, por representar um refúgio da biodiversidade de toda a região.

Mas, com a indiferença da comunidade e consequentes desmandos políticos, a poluição vai se tornando cada vez mais uma realidade irreversível, seja ela na terra ou em águas de rios daqui ou daqueles que vão para além de onde corre o Tejo**.

Segundo avaliação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a produção de lixo no mundo deverá ter um aumento de 1,3 bilhão para 2,2 bilhões de toneladas até o ano de 2025. E, naturalmente, a consequência da gestão incorreta dos resíduos pode causar grandes danos à população mundial. Em outras palavras, estão dizendo que reverter essa situação “depende de nós”.

“Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir.”

James Lovelock, pesquisador e ambientalista inglês.

A foto principal deste artigo mostra um frango-d’água-comum em meio ao lixo que é descartado no Rio Sorocaba. Esta é uma ave aquática localizada em quase todas as partes do Brasil. Tem plumagem cinza-escuro, com linhas brancas e largas sob as asas. O dorso e as partes externas das asas são amarronzados. Na cabeça, destaca-se um escudo frontal vermelho. O bico é amarelo. A perna é avermelhada. Pés amarelados. Vocaliza sons como “kuurrrk” e “ki-ki”. Aparece em brejos, lagos, banhados e rios. Alimenta-se de vegetais, invertebrados e, às vezes, pequenos vertebrados. É conhecido também como galinha d’água, peituda – no Rio de Janeiro, jaçanã-galo no Nordeste, e galinhola no Rio Grande do Sul. Antigamente foi chamado “pequena galinha com capacete”. Nome científico: Gallinula chloropus.

*A Serra de São Francisco constitui uma elevação topográfica no Planalto Atlântico, está situada na área sul das cidades de Votorantim e Sorocaba.

**Tejo é o rio mais extenso da Península Ibérica. A sua bacia hidrográfica é a terceira mais extensa na península, atrás apenas do rio Douro e do rio Ebro.

Referências

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma); Wikipédia; Fernando Pessoa/Alberto Caieiro, O Tejo é mais Belo (canto XX do poema O Guardador de Rebanhos); Revista Planeta.com.br – Água Doce; Wiki Aves (site); Luciano Bonatti Regalado, Observando as Aves na Áreas Verdes de Sorocaba e Região.

Nas fotos, as evidências do descaso e da indiferença ao rio

Fotos: José Finessi e Sandra Nascimento

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