À flor da Terra

JOSÉ CARLOS FINEIS – Havia horas que ela se perguntava o que podia lhe ter ocorrido. Não que isso fizesse muita diferença: por tudo o que conseguia sentir e perceber desde que recobrara a consciência, sabia que estava muito ferida e, talvez, desenganada, apesar do ar que aspirava com dificuldade pelas narinas amassadas e do olho ardido e lacrimejante, a revirar-se incansavelmente de um lado para outro. O olho direito e as narinas eram as únicas partes de seu corpo que permaneciam em contato com o ar e a luz, na superfície do solo.

Não conseguia mover o corpo. Concluiu que algo lhe rompera a medula ou que a terra densa como concreto a imobilizara de tal forma que mesmo o menor dos movimentos se tornara impraticável. A ausência de dores a levava a crer na primeira hipótese. Mas, se a medula espinhal estava rompida, como explicar o calor nos braços e pernas – calor excessivo, muito próximo do insuportável – e a sensação de umidade nas costas, nos braços, mas partes íntimas?

O olho descoberto, ironicamente, era o mais míope. O outro simplesmente desaparecera: ou fora inutilizado, ou estava selado e imóvel, como o resto do corpo, recoberto por terra quente e pesada que não lhe permitia sequer mover a pálpebra. Sentiu náusea e regurgitou o suco de laranja que tomara no almoço, mas a boca estava cerrada pela força de cem punhos. Um tanto do líquido saiu pelo nariz, que ardeu com a acidez. Outro tanto, controlando a respiração para não engasgar, ela teve de engolir de novo, em goles pequenos.

Como fora parar ali? O que ocorrera no momento em que saiu do restaurante e pôs os pés na calçada? Algo ou alguém a arrancara da rotina como se um deus displicente tivesse pisado sobre ela. O céu estava claro. Sentia-se plena, bela, quase feliz. Um pouco ansiosa porque marcara um encontro com um dos contadores da empresa para o jantar. Era o terceiro jantar em menos de quinze dias. Ela estava atraída por ele e ele por ela, mas ainda não se haviam revelado; sequer haviam se adicionado como contatos no LinkedIn. Os encontros eram supostamente para tratar de assuntos da empresa. Isso a deixava excitada, mas também insegura.

Ao sair para a calçada, viu Sônia, sua auxiliar, do outro lado da rua. Ergueu o braço para chamá-la, mas seu gesto não se completou. Algo pesado como uma locomotiva a atingiu e a levou a nocaute. Quando acordou, Sônia e a cidade haviam sumido: estava enterrada no chão úmido e quente, em algum lugar deserto, com apenas um olho míope que tentava, sem os óculos, enxergar algo ou alguém ao nível do solo – portanto, com um raio de visão bastante restrito.

Durante horas aquele olho se contorceu em busca de informações. Tudo o que conseguiu ver foram algumas nuvens carregadas. Depois o Sol que se abriu, cegando-o e obrigando-o a se fechar. Por sorte, o Sol foi coberto por nuvens baixas e escuras. Um pássaro cortou o ar alegremente, mas ela não prestou atenção. Forçando-se para reconhecer o terreno, concluiu que estava enterrada em uma espécie de deserto vermelho, sem árvores, pedras, morros ou plantas ao alcance da vista. Com as orelhas enterradas e lacradas pelo solo denso, ouvia apenas a própria respiração e o sangue a pulsar nos ouvidos. Era impossível saber se havia alguma atividade por perto.

Começava a anoitecer e a moça teve medo. Pensava nos amigos e nos parentes próximos. Será que a estavam procurando? Tinham ideia de onde estava? Afagava-a uma esperança fraca, quase inexistente, mas seu instinto lhe dizia que sofreria menos se não se apegasse à vida.

Agora o corpo esfriara e dores fortes latejavam nas costas, no pescoço, na cabeça. Percebeu que as pernas e os braços estavam retorcidos em posições bizarras. De alguma forma, sabia que estava presa numa armadilha mortal. Sempre tivera intuições fortes, pressentimentos. E seu sexto sentido lhe dizia que não sairia viva daquele lugar.

Certa vez lera sobre a morte do astronauta soviético Vladimir Komarov, em abril de 1967. Impressionada, tentara imaginar o que lhe passara pela cabeça, ao perceber que seu corpo era incinerado lenta e inevitavelmente, como numa fogueira medieval, enquanto a cápsula da nave Soyus 1 superaquecia pelo atrito com a atmosfera terrestre.

O suplício de Komarov ficou gravado em sua memória como referência de sofrimento extremo, de horror. A possibilidade de que um ser humano pudesse sofrer àquele ponto a aterrorizava mais do que a morte. Agora, experimentava algo semelhante ao que o cosmonauta sentiu em seus instantes finais. Calor, desespero, paralisia, dor. A certeza angustiante de que toda esperança, por mínima que fosse, seria vã. Porém, ainda mais forte e obsessivo, o desejo de morrer rapidamente, para livrar-se do sofrimento. Pensou nas pessoas que se jogam de prédios em chamas, conscientes de que a morte as espera lá fora, no vazio. Gostaria de ter ao menos essa opção.

O olho bailarino viu um vulto preto que se aproximava a passos tortuosos. A alma da moça se encheu de pavor. Fechou o olho e rezou para que o corvo em busca de comida – pelo menos foi o que lhe pareceu – não o bicasse. A ave passou pisando em seu rosto com garras frias e prosseguiu à procura de larvas e minhocas. Ela decidiu manter o olho fechado, por terror e cansaço, e assim ficou, tentando se acalmar e controlar a dor. Em pouco tempo, a noite desceu e uma escuridão densa, de Lua quase nova, tornou inútil a vigília do olho míope. O olho podia descansar e ela, como um certo Hamlet, morrer, dormir. Dormir, talvez sonhar.

Com seu agasalho de terra, o corpo quente e imóvel, a boca seca, a narina puxando o ar com dificuldade cada vez maior devido ao sangue coagulado, ela cedeu a um último devaneio, e constatou enternecida que os sonhos permanecem até o fim. Não é a esperança, como dizem, a última a morrer. São os sonhos. Pelo menos para ela era assim. Já desistira de viver, mas seus sonhos, do mais grandioso ao mais tolo, estavam vívidos em sua mente e só morreriam quando ela morresse. Ela amava a vida e os pais. Amava livros e filmes, os irmãos e os amigos. Mas nenhuma perda seria, para ela, mais dolorosa do que a morte do menor dos seus sonhos.

Ainda tinha o controle da mente – um pouco confusa, é verdade – e decidiu triunfar sobre o sofrimento. Podia rezar, mas não acreditava em um Deus salva-vidas, ou teria de odiá-lo por permitir que crianças passem fome ou morram de câncer. Deus escreve direito por linhas tortas e não será uma oração que irá endireitá-las, pensou. Ademais, as orações estavam todas feitas, desde a primeira comunhão. Seja feita a tua vontade, ela repetiu vezes sem fim. Decidiu não lamentar, nem chorar, nem maldizer, nem implorar. Sonhar seria seu triunfo sobre a morte.

Imaginou-se chegando ao restaurante, cabelos soltos, vestido leve, para o jantar com o contador. Quisera talvez pegar sua mão, trocar olhares e palavras doces. Maria Lúcia (esse seu nome) vivia o tempo mágico dos desejos românticos. Exalava amor por todos os poros e sonhava com um casamento perfeito. Uma casa grande e ventilada, um quintal com árvores, crianças correndo pela sala. Um jantar a dois na varanda. A aragem fresca da montanha a roçar levemente as flores e as cortinas. O amor sorvido calmamente entre passeios pelo parque, taças de vinho e enormes xícaras de café.

Apegada a essas delicadezas, adormeceu. Como seu paradeiro era desconhecido, nenhum príncipe encantado surgiu para salvá-la. Cerca de dez horas depois, logo de manhãzinha, um grupo de operários a encontrou, mas já então Maria Lúcia não estava mais ali. O belo corpo que ela habitara, suas lembranças e tudo o que sonhara resumiam-se agora a um pedaço de rosto machucado e umas poucas mechas de cabelo para fora da terra vermelha e compacta.

Perceberam que era gente pelo olho, surpreendido pela morte numa última tentativa de enxergar alguma coisa. Verde, sereno, manchado de sangue e de terra.

Alguém de mãos rudes e coração bom fechou a pálpebra daquele olho sem expressão ou encanto, como que a dizer: “Agora descanse, moça. Seja lá o que tenha acontecido, acabou.”

O estranho chamou a polícia e, como tinha que bater o ponto numa fábrica de colchões, seguiu caminho com o coração apertado, um pouco atrás dos colegas de serviço. Rezou um pai-nosso e uma ave-maria. Lágrimas escorreram por seu rosto, ele que nunca chorava. Pensava naquela pequena esmeralda sem brilho à flor da terra, à qual os pássaros e os bichos rasteiros, por descuido ou algum insondável instinto de compaixão, permitiram ver o céu pela última vez.

Imagem de Riala por Pixabay

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