Crítica. Ou um exercício de humildade.

LÚCIA HELENA DE CAMARGO

Vou pedir licença ao leitor dos textos deste coletivo Terceira Margem para convidá-lo a pensar um minuto sobre a questão: ao ler uma resenha ou crítica, quanto daquilo que está escrito influencia na sua escolha futura de filme ou série para assistir? Será que a percepção muda caso o texto seja assinado por crítico famosíssimo ou ilustre anônimo?

Queria mesmo saber o que pensam os leitores sobre o assunto. Na minha percepção, a influência de qualquer crítico (seja ele respeitado ou só mais um entre muitos) é quase nula. A pessoa vai assistir ao filme por outros motivos: gosta dos atores em cena, aprecia os trabalhos daquele diretor, foi ao shopping, tem tempo livre e está passando pelo cinema, então vê o cartaz e fica interessada, um amigo comentou e disse que o filme é bom… Muitos motivos levam o espectador à sala. Se estivermos falando de streaming, então, a coisa é ainda mais nebulosa. É a resposta que vale um milhão de dólares. Os serviços perseguem a meta de sugerir aos assinantes conteúdos que eles possam apreciar. Nem inteligência artificial com seus logaritmos consegue abarcar todos os fatores que levam alguém a desejar assistir certo filme ou série.

Isso dito, quero citar o relato “Jornalista tem salário?”, de Ignácio de Loyola Brandão (na foto, ele na capa do livro),  publicado em 2011 numa breve coletânea intitulada “O primeiro emprego”, porque me respalda a tese. O escritor conta que, no início da carreira, trabalhava para o jornal “O Imparcial” sem receber salário. Seu pagamento era em ingressos de cinema. De posse de uma carteirinha permanente, via quantos filmes quisesse e escrevia sobre eles, semanalmente. Um dia o diretor do jornal o chama para dizer que o dono da sala de exibição, grande anunciante da publicação, começara a reclamar do fato de que ele estava falando mal de muitos filmes. No primeiro momento, Loyola passa a não publicar mais as críticas negativas. Mas depois de algum tempo fica incomodado e decide devolver a permanente e parar de escrever sobre cinema, em nome da honestidade intelectual. O filho do diretor, com uma visão ligeiramente diferente da do pai, determina que Loyola Brandão continue escrevendo o que quisesse sobre os filmes. “Meu pai pensa que o crítico tira ou coloca espectadores no cinema. Nada disso. Não põe um e não tira meio”, afirma. “Além de tudo, nem você, nem o Paulo [o dono do cinema], nem meu pai perceberam uma coisa: o filme é exibido no domingo e na segunda. Sua crítica sai na quarta-feira, quando a programação já mudou. Gosto de ler, muita gente gosta, muita gente pensa como você, fica no ar um certo movimento, polêmica. Fique com a permanente, critique os filmes, não se leve tão a sério”.

A conclusão de Loyola Brandão é que o rapaz sabia “da neutralidade e da impotência da crítica”.

Achamos por aqui a mesma coisa. Não vamos nos levar tão a sério. Isso vale para a crítica de cinema e a vida em geral.

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