Aos 105 anos, represa de Itupararanga ainda causa deslumbramento

SANDRA NASCIMENTO – Era o dia 26 de maio de 1914 quando a Usina Hidrelétrica de Itupararanga foi oficialmente inaugurada pela São Paulo Eletric, coligada à empresa anglo-canadense Light.

Para tanto, o lago da nova hidrelétrica foi formado com a construção de um paredão no canyon* do rio Sorocaba, localizado na Serra de São Francisco. Esse lago tinha a função de produzir energia a partir de uma estrutura que no início gerava uma potência de 30 milhões de watts por hora (Mwh). E, a partir de 1925, teria capacidade para produzir 55 Mwh.

O que ninguém diria, na época, é que, 105 anos depois, a represa seria considerada um importante manancial que garantiria água a grande parte da população na região de Sorocaba.

A construção da represa de Itupararanga começou em 1911 e mobilizou mais de dois mil operários, chefiados por um engenheiro inglês chamado Frank Robotton.

Nas fotos acima: vista geral da usina, com as linhas adutoras e moradias dos
trabalhadores (esq.); turbina número 1 (foto central) e canteiro de obras. Na foto maior,
de 1911, abertura do canal de desvio do Sorocaba, para construção da barragem

“O canteiro de obras era uma babel fervilhante, onde italianos, espanhóis, portugueses, brasileiros e até hindus e siriolibaneses (trazidos pela Itália) procuravam se entender”, declarou o historiador Paulo Fontes (1935-2012) ao jornal Cruzeiro do Sul, em entrevista de 5/12/2010. “A construção da represa de Itupararanga foi uma epopeia, pela grandiosidade da obra e, também, pela dificuldade em realizá-la. Materiais eram levados para o pé da serra em carros de boi, encontrados facilmente em Votorantim. O maquinário das usinas ia por trem.”

A barragem, com 415 metros de comprimento e 35 m de altura, ainda hoje é considerada uma obra arquitetônica admirável. Esse paredão de concreto segura um espelho d’água de 33 quilômetros quadrados. A capacidade total do reservatório é calculada em 302 bilhões de litros de água.

O manancial de Itupararanga fornece água para quase 1 milhão de habitantes. Isso significa a metade do abastecimento de toda a região de Sorocaba, apesar de sua principal função ser a de produzir energia para a fábrica de alumínio da Votorantim Metais, empresa pertencente ao Grupo Votorantim, que, em 1974, comprou a Usina Hidrelétrica de Itupararanga, por meio da Companhia Brasileira de Alumínio.

Segundo o dicionário Pequeno Vocabulário Tupi-Português (Rio de Janeiro, 1951), do padre A Lemos Barbosa: “ytu” significa salto, cachoeira; e “pararanga” – rodar (pelo chão). Para outros estudiosos, Itupararanga quer dizer “salto barulhento” ou “cachoeira barulhenta”.

Conta a história que, antigamente, os índios que habitavam a região do Sorocaba andavam por uma trilha que os levava a um vale todo coberto por uma larga nebrina. Lá existia uma mata fechada e uma cachoeira barulhenta, chamada por eles de Itupararanga. Em suas idas e vindas ou em fugas, o barulho e a neblina formada pelo movimento das águas os acolhiam ou os ajudavam a se refugiar. A cachoeira volumosa era parte do rio formado do encontro de outros três rios: o Sorocamirim, Sorocabuçu e o Una. Melhor dizendo, era parte do Rio Sorocaba.

Hoje, esse lugar é conhecido pelo nome de Salto de Itupararanga ou Cachoeira do Itupararanga, mas a cachoeira que lá está já não cai com a mesma força de antes. Parte daquele volume de água foi desviado para gerar a energia da represa. Uma outra parte é utilizada pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Sorocaba (SAAE), para o fornecimento de água à cidade. E, apenas um pouco do antigo rio agora salta e segue o curso, silenciosamente.

“É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve.”

Victor Hugo (1802-1885). Foi ensaísta e estadista francês.

Votorantim Energia diz que barragem é segura

Recentemente, a notícia do rompimento de barragem da Vale do Rio Doce, na cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, trouxe à tona os fantasmas da preocupação e do medo.

Se há risco de rompimento, periodicidade das vistorias por órgãos ambientais, prevenção a possíveis danos de ordem social ou ambiental, orientação à população sobre procedimentos adequados em caso de acidente, prejuízos, medidas e cuidados a serem tomados, são alguns dos assuntos constantemente encaminhados a estudiosos, governos e empresas responsáveis por barragens em todo o país.

O Brasil possui um total de 3.386 barragens. Para quase todas é feito um levantamento de risco pela Agência Nacional das Águas (ANA), instituição fiscalizadora federal responsável pelo Sistema Nacional de Informação de Segurança de Barragens (SNISB).

Na lista do Sistema, a usina de Itupararanga aparece como sendo da “categoria de risco baixo para o rompimento”. Todavia, considerando que as cidades de Votorantim e Sorocaba estão localizadas na parte de baixo da represa, o dano potencial é classificado como alto.

Dano potencial é um parâmetro para medir prejuízos que podem ser causados no caso de haver um acidente. Ele avalia riscos de vazamentos de águas, de rejeitos e de resíduos que podem chegar em áreas urbanas, impactando o meio ambiente e impondo um prejuízo econômico. O nível de avaliação é considerado baixo, médio ou alto: DPB (Dano Potencial Baixo) DPM (Dano Potencial Médio) ou DPA (Dano Potencial Alto)

Ao jornal Diário de Sorocaba, em reportagem intitulada Barragem não tem risco de problema sério, diz gerente de Itupararanga, de 15/1/2016, o gerente de operação e manutenção do Grupo Votorantim, Neymard Silva, afirmou: “É importante entender que a segurança está sempre associada aos trabalhos de manutenção que se fazem ao longo dos anos. Atualmente, em Itupararanga, há um processo de manutenção que garante estabilidade da barragem ao longo de sua vida. Há 40 anos fazemos isso.”

Traçado da represa no mapa do site wikimapia.org, começando em Ibiúna (dir.) e terminando em Votorantim (esq.)

Em seu relatório anual de 2017, a Votorantim Energia relatou:

“Ao longo do ano, a Votorantim Energia também atualizou os Planos de Ação de Emergência e de Segurança das Barragens em suas usinas. (…) Os indicadores de acidentes são elaborados de acordo com a Norma Brasileira 14.280. Quaisquer incidentes são investigados para a identificação de causas-raiz e as lições aprendidas são compartilhadas para fortalecer a gestão de saúde e segurança em todas as operações.”

Já no atual site da empresa, sobre operação e manutenção de usinas, a Votorantim Energia informa:

“Atuamos na operação e manutenção de usinas hidrelétricas e eólicas. Todas as atividades são realizadas por engenheiros e técnicos 100% especializados. Fazemos manutenções preventivas e preditivas, intermediação de contato com órgãos reguladores, estratégias de operação, gestão de pessoal, gestão de risco e dezenas de outras atividades necessárias para o perfeito funcionamento das usinas.”


“Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a eletricidade e a energia atômica: é a vontade.”

Albert Einstein (1879-1955), foi cientista alemão

*Canyon é um canal profundo formado ao longo de milhões de anos pela erosão causada por um curso de água. É também chamado de garganta.

Fotos atuais: José Finessi e Sandra N.
Fotos antigas: Acervo da Fundação Energia e Saneamento de São Paulo (FES-SP)

Referências:

A História Ambiental de Sorocaba (Unesp campus Sorocaba, 2015) de Fábio Navarro Manfredini, Manuel Enrique Gamero Guandique, André Henrique Rosa; Pequeno Vocabulário Tupi-Português (Rio de Janeiro, 1951), do padre A Lemos Barbosa; Wikipédia; Dicionário Informal; Jornal Cruzeiro do Sul; Jornal Diário de Sorocaba; Gazeta de Votorantim; Revista Vitrine Online, de Ibiúna; José Carlos Fineis

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