A caça ao monstro (conto). Parte 1: Se tiver de matar, nunca olhe nos olhos

JOSÉ CARLOS FINEIS – Se de tudo o que eu tenho a contar o leitor aprender somente o que vou dizer nestas primeiras linhas, já terá lhe valido em muito, e a mim também, segundo creio, porque tenho esperança de que o falar e o alertar a todos que estejam ao meu alcance possa redimir, um pouco que seja, minha alma de seus pecados, quando o Juízo Final chegar – embora, pessoalmente, não acredite que mereça ser salvo, nem espere compaixão.

Então, amigo, aprenda com meu tormento: quando, por necessidade extrema, tiver de matar um monstro, como imaginei que tivesse sido o meu caso, não o faça sem a convicção plena de que se trata realmente de um monstro e de que, sendo monstro, possa oferecer algum perigo – pois monstros devem existir, imagino, que sejam monstros na aparência sem que tenham a alma monstruosa, ao passo que muitos de nós, humanos, podemos ser monstros por dentro e pessoas de bons modos por fora, sorridentes e até bem elegantes enquanto praticamos nossas monstruosidades.

Antes de prosseguir com minha história, com seu antes e depois, quero deixar outro conselho, que reputo igualmente de grande utilidade, e depois de lê-lo o amigo pode até deixar este texto de lado, se tiver algo mais interessante a fazer. Então, aprenda mais isto: caso não tenha a menor dúvida de que é mesmo preciso matar o monstro, cuide de atirar de uma distância segura, em que não lhe possa ver os olhos. Asseguro que é preferível errar o tiro ou que esse ser ou coisa fuja e se esconda no mato, ou mesmo que o ataque, do que matar aquele de quem se possa ver o último olhar.

Matadores deve haver que não se importem com isso – matar olhando nos olhos de sua vítima –, mas posso assegurar que para a maior parte de nós, pessoas de bem, é melhor não reter na memória o olhar daquele a quem julgamos ser nosso dever tirar a vida.

Acontece que pessoas e monstros quase sempre têm olhos, e posso lhe assegurar que esse olhar, se você tiver um coração cristão como o meu, o perseguirá pelo resto dos seus dias, em sonhos e acordado, quando estiver consertando uma torneira ou tentando fazer amor, a cada vez que a roda-gigante da memória passar por algum elemento que o faça lembrar do que seus olhos viram, e que ficará gravado em seu cérebro como as marcas de ferro em brasa feitas no gado, ou como quando olhamos para o Sol fixamente e continuamos a vê-lo muito tempo depois que fechamos os olhos.

Eu era um homem normal, trabalhador, honesto e temente a Deus, e tive um dia uma casa simples, construída por meu avô paterno, com grossas paredes de taipa. A roça, a igreja, a conversa com a mulher, irmãos, filhos e sobrinhos em volta do fogão à lenha eram toda minha vida, somada à dádiva de viver em um lugar em que Deus parecia ter se detido um pouco mais para enfeitar com suas belezas. Um vale abençoado com um rio largo e de margens rochosas, repleto de peixes e de lendas, uma floresta que se espalhava até onde os olhos pudessem alcançar, pontilhada de magníficos jequitibás, riachos, cachoeiras, fruteiras cujos frutos os pássaros, macacos e homens dividiam em comunhão, um céu em que se podia ver mais estrelas do que na maior parte das suas iluminadas cidades, vaga-lumes, bem-te-vis e uma terra tão fértil que mesmo os que dispunham de menos espaço para plantar jamais passaram necessidade de nada.

No centro minúsculo da cidade, uma igrejinha – não vou revelar de qual religião, pois tenho certeza de que o que ocorreu, e que vou narrar mais à frente, poderia ter sucedido em qualquer uma delas –, um armazém e uma loja de utilidades difíceis de fabricar em casa, como agulhas e espelhos, à frente da qual se estendia um largo de pedras irregulares, bancos de madeira rija, árvores e alguns moradores tão velhos quanto elas, que pareciam fazer parte daquela pracinha, como elementos fixos da paisagem.

Em nossa aldeia distante de tudo, menos de Deus e da Natureza, éramos umas 200 famílias que levavam uma vida quase autônoma em seus minifúndios (digo éramos porque, pelos motivos que vou contar, tiraram-me de lá e me colocaram neste inferno de paredes brancas, remédios tarja-preta e conversa fiada). Em nosso vale plantávamos arroz, criávamos vacas leiteiras e animais menores para abate, fazíamos linguiça e chouriço, salgávamos a carne, tecíamos o algodão, costurávamos calças e camisas, curtíamos o couro que dois antigos sapateiros transformavam em botas e sandálias, em troca de dinheiro ou mantimentos.

O povoado mais próximo ficava a três dias em lombo de mula. TV e internet eram coisas que simplesmente não existiam, seja porque o sinal era fraco demais, seja porque todos tinham muito trabalho a fazer, seja porque os anciãos a quem respeitávamos e obedecíamos nos ensinaram desde cedo que essas coisas – a começar pelo rádio – eram instrumentos do demônio, que podiam, com palavras melífluas e músicas suaves, fazer germinar as sementes do joio que Deus colocara em nós assim como as do trigo, a fim de facilitar-Lhe a colheira no dia do Juízo Final.

Os acontecimentos diferentes eram poucos: tempestades de raios, incêndios na floresta, as festas da igreja, o nascimento de um menino ou menina, a morte de alguém.

Um dia, entretanto, nos vimos aturdidos e sem respostas diante de um suicídio – desgraça com a qual não nos deparávamos desde 1978 ou 79, quando um rapaz meio louquinho, que vivia recluso, tirou a roupa e mergulhou para nunca mais ser visto no trecho mais revoltoso do rio. E desta vez não foi o suicídio de um qualquer de nós, mas justo do nosso líder religioso, a quem amávamos como a um pai e, beijando-lhe a mão enrugada, pedíamos a bênção todos os domingos, feito crianças.

Esse senhor, que chamarei apenas pelo primeiro nome, Ezequiel, e não de padre ou pastor, a fim de preservar a fé que professávamos, apareceu enforcado num galho baixo de um pé de jacarandá, localizado em uma pequena clareira em meio a um trecho fechado de mata, perto de sua casa mas longe dos olhares, a poucos minutos da cerca que mantinha afastadas as raposas e impedia que as cabras, porcos e galinhas debandassem para o mato.

O sr. Ezequiel sumiu sem dar notícias no final da tarde de um dia de semana, quando os lavradores voltaram da roça e não o encontraram no lugar em que ficava todos os dias, à porta de sua casa quase na entrada da vila, em uma cadeira tosca de madeira que forrara com uma velha colcha de retalhos dobrada, à guisa de torná-la menos dura. Era ali que o sr. Ezequiel, ancião já sem condições de arar, semear, regar e colher de sol a sol, porém comprometido com o estudo da Palavra, os sermões dominicais e o aconselhamento pessoal para nos conduzir em segurança por este mundo de armadilhas, cumprimentava ao final de um dia de trabalho, com o sol já fraco, as pessoas que, vindas de suas roças, por ali passavam a caminho de casa ou que iam de suas casas, localizadas ainda mais distantes do centro da aldeia, ao armazém ou à lojinha, buscar alguma coisa de que carecessem.

Seu Ezequiel não estava em sua cadeira, nem na casa ou em outro lugar. Procuraram-no pelo quintal, nas casas dos vizinhos, e depois, como o percebessem desaparecido de fato, com lanternas de querosene (eu estava no grupo), pelas matas próximas à casa.

Não tardou para que o corpo fosse encontrado, pendurado e imóvel na noite sem vento. Seu rosto era o do sr. Ezequiel, mas não se parecia com ele, pois nunca que eu me lembre o havíamos visto com o semblante sério, como agora estava. Era dessas pessoas que têm sempre uma expressão alegre, que riem com um jeito triste – mas riem – quando lamentam a morte de um amigo e nos confortam perante as agruras com sorriso tranquilizador nos lábios, como se Deus as tivesse assim distinguido de nós todos que vivemos de testa franzida.

Entretanto, a meu ver, aquele corpo com os sapatos a meio metro do chão não tinha o que poderíamos chamar de características de um enforcado, como sempre ouvíramos dizer ou imaginávamos que fosse. Nem os olhos saltados e hemorrágicos, nem o rosto arroxeado, nem a língua para fora da boca. Nem urina, nem fezes, que, segundo sempre ouvi dizer, costumam escorrer dos corpos dos enforcados.

O pescoço não estava quebrado. Logo, morrera por asfixia. Mas seu rosto, visto à luz dos lampiões, com a sombra grotesca projetada nos galhos atrás de si, não parecia o de alguém que estrebuchara sem ter como respirar, e sim o de um sr. Ezequiel que de repente se aborrecera por algum motivo e olhava para nós, seus amigos e membros de seu rebanho, como se perguntasse: “Por que demoraram tanto? Justo hoje que eu precisei de vocês, onde estavam?”

Nos dias que se se seguiram ao enterro do sr. Ezequiel, a estupefação e a tristeza se espalharam como praga pela aldeia. Nas conversas em casa, nos encontros fortuitos, nas novenas e nas fofocas de vizinhos, o suicídio tornou-se o tema central, quase sempre em tom de lamento e de inconformismo. Mas, de maneira geral, aceitou-se a ideia de que o ancião, por algum motivo que não quis revelar (talvez uma doença incurável ou mesmo uma forma despercebida de depressão ou loucura), tirara de fato a própria vida, por vontade própria.

Tudo, aparentemente, fazia sentido. Ele saíra de casa no momento em que todos estavam fora, na lavoura. Levara consigo uma banqueta de madeira de aproximadamente 60 centímetros que, ao que se podia concluir, usara como patíbulo para tirar a própria vida. Como acontece nesses casos, mesmo nos rincões mais distantes, a polícia da cidade veio para registrar a ocorrência e voltou dias depois para uma reconstituição pedida por alguém. Eram dois policiais. Traziam o banco de madeira e a mesma corda usada no enforcamento, apreendidas dias antes como possíveis provas de um processo.

A população inteira do local, incluindo pessoas doentes e que precisavam de ajuda para se locomover pela mata, deixou as casas vazias e a lavoura aos cuidados dos espantalhos para assistir à reconstituição. Um policial subiu no banco, colocado sob o pé de jacarandá, e jogou uma ponta da corda sobre o mesmo galho horizontal e robusto escolhido pelo pobre sr. Ezequiel.

A corda, como todos puderam ver, havia sido engenhosamente preparada para não falhar. Numa das pontas, havia o laço da forca propriamente dito, feito com um nó de correr que sabe se lá onde o sr. Ezequiel aprendera a fazer com tanta maestria. Na outra ponta, havia apenas um laço fixo da largura de um punho fechado, amarrado com várias voltas de corda e arrematado com apertados nós.

Os policiais, com uma trena, mediram várias pessoas dos pés à cabeça junto ao tronco de uma árvore, bem como o comprimento dos braços, e escolheram um voluntário com medidas semelhantes às do sr. Ezequiel para subir no banco e reproduzir seus supostos últimos gestos. Aconteceu de essa pessoa ser eu, o que talvez tenha contribuído para que me sentisse ainda mais envolvido com o caso. Pediram-me para subir no banco e obedeci. Em seguida, pediram-me para erguer os braços e pegar as duas pontas da corda. Novamente, fiz como pediram.

– Agora pegue a ponta que tem a forca e passe por dentro do laço, depois puxe para a corda ficar bem presa no galho –, disse um policial.

Deu certo. Passei a ponta com nó corrediço pela argola e puxei a corda para que o laço se fechasse em torno do galho. Presa a corda em seu suporte, vi com terror que balançava diante do meu rosto (na verdade, na altura da testa) o laço da forca em que o sr. Ezequiel agonizara.

– Agora abra o laço com as duas mãos e tente enfiar a cabeça –, ordenou um dos policiais.

Hesitei. Minhas pernas tremeram.

– Não me sinto bem. Acho que minha pressão caiu – eu disse, com voz débil, fazendo menção de descer. Mas o que eu temia aconteceu e o policial, com uma voz de tenor que poderia ser ouvida a um hectare de distância, insistiu:

– Vamos lá, amigo. Por favor, faça isso. Nós vamos ficar aqui para evitar qualquer incidente. Só queremos saber se o velho se pendurou mesmo nessa corda sem ajuda de ninguém.

Ao ouvir essas palavras, uma confusão muito grande tomou conta de minha mente, atirando-a para dentro de um turbilhão de pensamentos que faiscavam como relâmpagos, sem nada iluminar. Meu coração acelerou, minha vista ficou turva.

Até então eu relutava em pensar que alguém poderia ter auxiliado o sr. Ezequiel a tirar a própria vida. Ou, ainda mais inaceitável, que ele tivesse sido assassinado e o suicídio, apenas encenado, talvez para evitar suspeitas e investigações. Mesmo sabendo, por ouvir dizer, das atrocidades que correm pelo mundo, minha cabeça de aldeão ingênuo não conseguia conceber que a cena de enforcamento pudesse ter sido montada por um ou mais assassinos. Mas era isso, em síntese, o que o policial de voz poderosa havia dito, diante de toda a comunidade, alto e bom som. Será que os outros tiveram o mesmo entendimento que eu? Ou estavam distraídos a observar se eu teria coragem de pôr a corda em torno do pescoço?

Guardo de memória apenas até aquele rebuliço mental provocado pela desconfiança de que alguém pudesse ter tirado e vida de um homem santo. O que ocorreu na sequência me foi contato, um pouco por um, outro tanto por outro, depois que me vi deitado em uma cama estranha, cercado de gente, enquanto dona Mariquinha dos Remédios – uma espécie de curandeira e farmacêutica informal da aldeia – me obrigava a engolir um calmante e segurava o copo para eu beber água, já que minhas mãos tremiam tanto que, nas tentativas anteriores, a água se esparramara antes de o copo chegar à boca.

Segundo fiquei sabendo, o que de mais importante ocorreu foi o seguinte: com olhos vidrados e sem mais tremer, eu ergui os braços, apanhei o laço com a mão, puxei para baixo o mais que pude, fiquei na ponta dos pés e, esticando o pescoço, enfiei a cabeça (neste ponto, um “oh…” teria percorrido a multidão). Ao voltar os pés à posição normal, o laço se fechou em torno do pescoço, apertando-o e esticando a corda. E então, sem que eu próprio pudesse imaginar o porquê, para surpresa dos policiais, de minha família e de todos os que assistiam à cena, eu empurrei o maldito banquinho com os pés, fazendo meu corpo que não é dos mais leves ficar pendurado a cerca de 50 centímetros do solo.

Os policiais, prosseguem os relatos, agarraram minhas pernas após um instante de susto, e alguém colocou o banco de volta, mas meu corpo estava inerte e pesava agora meia tonelada. Desmaiado, eu pendia de um lado para outro, esticando a corda, e espumava pela boca. Alguém com presença de espírito subiu em dois pulos no galho, que era baixo, e cortou a corda com um facão. Meu corpo então desabou por cima dos policiais e dos outros que tentavam me acudir.

– Você tá louco, rapaz? – perguntou o policial no quarto da casa de dona Mariquinha, repleto de gente que ria e conversava, enquanto eu olhava para os curiosos tentando encontrar o rosto de minha mulher. Senti que recuperava o raciocínio, lentamente, e que alguém segurava minha mão. Ouvi um choro conhecido. Era ela, Lígia, que pranteava de cabeça baixa com um lencinho a enxugar os olhos.

– Você está louco, Miguel? Por que fez isso? Você podia ter morrido. Eu podia estar viúva agora, e seus filhos… – ela não conseguiu terminar a frase e voltou a chorar. Outros em volta repetiam a mesma pergunta: “Você ficou louco?”

Só dona Mariquinha, com sua infinita caridade, quis saber se o pescoço doía.

– Não dói não. Obrigado. Estou bem. Eu passei mal lá em cima. Foi só isso.

Mas não era só isso. Eu sabia que alguma força do mal me fizera empurrar o banquinho. E enquanto a corda apertava meu pescoço tive uma espécie de sonho, ou visão, ou alucinação, como queira. Vi homens truculentos que seguravam um velho aterrorizado. Vi uma seringa. Um corpo que estrebuchava. Depois, no silêncio da tarde, o corpo inerte levado de arrasto, em pé entre dois brutamontes. Os sapatos arrastando pela trilha, com as solas para trás. Vi uma escada encostada no galho, uma corda. Um cadáver pendurado na corda. Um banco de madeira atirado sob ele, na lama, depois que estava bem pendurado.

Ainda hoje me pergunto se tive realmente essa visão, ou se não foi um sonho provocado pela sugestão do policial, de que era preciso comprovar que o sr. Ezequiel poderia ter cuidado de tudo sozinho. Seria alguma forma de auto-sugestão, como dizem os médicos aqui deste lugar onde me trancafiaram?

O fato é que essa visão de algo real ou imaginário é parte importante de todo esse emaranhado de ideias e sentimentos que me levaria, pouco tempo depois, a me tornar, também eu, por ingenuidade, fé cega ou soberba, um assassino e parte do joio que Deus Nosso Senhor, apesar de meu remorso, um dia haverá de ceifar.

O enforcado


No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

Alexandre O’Neil, poeta português (1924-1986)

Leia na próxima segunda-feira, 22 de abril, a continuação deste conto.

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