Crítica: artEfeito

JOSÉ SIMÕES – A proposta cênica do ArteEfeito é a de colocar o espectador como o sujeito da experiência. No espetáculo somos colocados diante de um espetáculo híbrido que mistura elementos do teatro, da performance, do site specific  e do ativismo. Nosso desafio é precisamente considerar os elementos da teatralidade presentes.

A palavra teatralidade foi empregada pelo diretor russo Evreinov, em 1907. Alguns pesquisadores, também, citam Meyerhold. Para Nicolas Evreinov a teatralidade não é um elemento exclusivo do teatro. Trata-se antes de um instinto,   uma necessidade humana básica.

Os estudos de Evreinov foram certamente o pontapé inicial na discussão acerca da teatralidade. Desde então são inúmeras as possibilidades de abordagens acerca do tema. Para a canadense Josette Féral a teatralidade funda-se no estabelecimento de um espaço-outro, criado pelo espectador, ainda que se mantenha a plena ligação com o espaço real.

Para Féral o performer, não joga, não atua, não representa a si mesmo. Ele é “o lugar de passagens de fluxos energéticos (gestuais, vocais, libidinais/eróticos, etc.), que ele atravessa sem se fixar em um sentido ou em um significado preciso e único”

Assim  a performance nos aponta para o desaparecimento do sujeito social, do teatro ilusionista.  Ao mesmo tempo que busca desestabilizar os sentidos do espectador. Assim o jogo na cena deseja a não-representação e o não-ilusório. Para conseguir este  efeito cênico se exploram procedimentos diversos, tais como: gestos que se repetem incessantemente, ora em movimentos lentos, muito lentos, ou muito rápidos, closes de partes do corpo, etc.

ArtEfeito se propõe a isso, todavia, permeado de percalços. Logo  no inicio o diretor explicita aos espectadores que eles irão vivenciar  uma experiência. Sua intervenção confunde o espectador. Há um didatismo na apresentação inicial que não condiz com a proposta.

Somos convidados a entrar no espaço. Mas, antes, somos avisados que o local estaria escuro, não haveria cadeiras, que a montagem das cenas foi construída de modo itinerante  e  deveríamos nos orientar pela luz (do diretor).

Somos, ainda, alertados que no espaço existiriam obstáculos e  não se poderia mexer nos objetos naquele espaço. Não haveria, também, indicações pela voz. Somente deveríamos interagir com a luz. Experiência  conduzida.

A proposta cênica que se assiste está organiza a partir da apresentação e encadeamento de cenas que nos levam a perguntar: que espaço é esse? Quem os ocupa? Que cidade é esta? Corpo – respiração – tensão – repetição gestual – imagem – objeto – ação –  são os elementos utilizados pelos atuantes que exploram (dentro e fora) o espaço do barracão cultural.

Os atuantes recorrem muitas vezes a hipoxia – respiração ofegante – como recurso. Entretanto, o gesto, o corpo, a tensão não estabelecem dialogo com esta respiração, não correspondem à situação orgânica proposta. Resta, pois, a percepção de uma ação exteriorizada. Nalguns momentos a relação palco/plateia ilusionista invade a cena.

As cenas na maioria das vezes revelam situações limite e são desiguais na qualidade, no conjunto cênico. Há um excesso no “mostrar algo”. O espectador fica sem espaço para poder construir a sua percepção.

Há na encenação elementos que precisam ser reavaliados e/ou apurados. Por exemplo: me pergunto qual o sentido da catarse poética cantada, auto explicativa e referenciada, ao final do espetáculo, após a cena da agressão ao corpo na grade? Se canta a linha do trem, e se mostra a linha do trem? O teatro da ilusão venceu?

Há muito o que estudar, pesquisar e explorar na cena.

O espetáculo é provocador e se observa uma entrega potente dos artistas. Que venham outras tantas experiências cênicas dos jovens atuantes. Vibrantes e corajosos nestes tempos tão obscuros. Há muitos  espaços-outros a serem explorados na cidade.

Direção Artística: Anderson Nogueira
Produção: Thainá Schichi
Fotografia: Laura Siqueira
Elenco: Alexandro Edne, Moorepatty, Priscila Pires, Rato, Thaís Fogaça, Alana Mafrinatto, Alexsander Vieira, Ananda Tortelli, Carol Caçador, Danii Saito, E.L Brilinsk, Fabiano Amâncio e Pablo França.

O espetáculo ArtEfeito é resultado do projeto da Oficina Livre de Interpretação promovido pela Prefeitura Municipal de Sorocaba

 

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