Chico do Rio, uma vida de lutas pelo rio Sorocaba e a preservação da Mãe Terra

SANDRA NASCIMENTO – Em 22 de abril, o calendário assinala o Dia da Terra. A data, também chamada de Dia do Planeta Terra ou Dia Internacional da Mãe Terra pela Organização das Nações Unidas (ONU), nasceu da proposta de suscitar reflexões que pudessem trazer reconhecimento e respeito ao planeta, por meio de ideias e ações saudáveis e sustentáveis, para a proteção da vida em todas as suas formas, estágios e ecossistemas.

Tudo começou no dia 22 de abril de 1970, nos Estados Unidos, com manifestações que reuniram mais de 20 milhões de pessoas por todo o país, lideradas pelo ativista ambiental e senador Gaylord Nelson (1916-2005), depois de um vazamento de óleo, ocorrido no estado da Califórnia, em 1966, ter causado uma grande destruição ambiental. Os ativistas reivindicavam a criação de uma agenda ambiental de preservação, que posteriormente foi apresentada com o nome de Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental), estabelecendo uma série de leis de proteção ao meio ambiente.

Manchete do New York Times sobre vigílias do Dia da Terra em 1970

Dois anos mais tarde, em 1972, na Suécia, cidade de Estocolmo, aconteceu a primeira conferência internacional sobre o meio ambiente, cujo propósito era sensibilizar os líderes mundiais para a importância do tema e determinação de políticas necessárias à erradicação das agressões socioambientais. Somente em 2009, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Internacional da Mãe Terra, reconhecendo assim a importância da data.

Enquanto isso, em Sorocaba, um homem lutava, praticamente sozinho, pelos problemas locais da Terra. Nas reivindicações que fazia às autoridades da época, sua principal ideia era colocar em pauta a despoluição do rio Sorocaba.

Mais conhecido como Chico do Rio, seu nome verdadeiro é Francisco Moreira de Campos. O apelido ele ganhou por abraçar a questão da preservação do rio. Chico nasceu em Sorocaba, no dia 17 de janeiro de 1933, e desde pequeno gostava de ouvir histórias sobre a natureza: “Minha mãe contava que a água é madrinha e o fogo é padrinho, e que essas coisas precisam ser respeitadas”, diz.

“Para sempre é composto de agoras.”

Emily Dickinson (1830-1886), poetisa americana

Quando menino, foi trabalhar de ajudante para um sapateiro que era pescador e teve, por isso, a oportunidade de participar das pescarias e de conhecer o rio Sorocaba. Então, convivendo com outros pescadores e suas carências, percebeu: “Tudo na vida depende da água, essa é a realidade.” Quando adulto, passou a se interessar por justiça social e pelo meio ambiente.

Durante a vida, exerceu muitas funções, trabalhou como servidor público e dedicou boa parte de seu tempo ao Sindicato dos Funcionários Públicos. No fim da década de 60, durante a ditadura militar, chegou a ser preso e enquadrado no Ato Institucional nº 2 (AI-2), por protestar contra os atrasos nos salários dos servidores municipais.

Já nos anos 80, foi integrante e um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT). E chegou a concorrer para vereador, pelo PSDB, tentando levar adiante sua luta pelas causas em que sempre acreditou. Mas não obteve êxito. No entanto, em 1989, quando foi promulgada a atual Constituição do Brasil, empenhou-se e conseguiu a realização de um sonho: a inserção de dispositivo que aplica 1% do orçamento para a despoluição do rio Sorocaba na Lei Orgânica do Município.

Desse momento, ele lembra:

“Foi feita a Constituição e nela eu vi a possibilidade de, através da Lei Orgânica do Município, fazer realmente alguma coisa para despoluir o rio. Então procurei o dr. João Dias (1) e ele me disse que precisaria de muitas assinaturas (perto de 9.600) para se conseguir alguma coisa. Aí conversamos com o Yabiku (2), vereador eleito com o prefeito Pannunzio e ele se prontificou a ajudar. E, como estavam eleitos o prefeito e cinco vereadores (da coligação PTB-PDC-PMB-PSC-PTR), o Yabiku disse: ‘Não precisa correr atrás disso, seu Chico, eu creio que dá pra pôr um parágrafo na Lei Orgânica.’ E, como o prefeito também gostou da ideia, foi posto.”

Dispositivo da Lei Orgânica de Sorocaba que destina 1% do orçamento ao rio

No ano de 1995, Chico do Rio iniciou outra campanha buscando o compromisso da comunidade por um rio limpo. Sua ação coletou mais de 34 mil assinaturas, além de muitos depoimentos. Todo esse trabalho resultou em um livro intitulado “O Rio do Chico – A luta de um ambientalista pela despoluição do Rio Sorocaba” (Crearte Editora, 2013).

O Fusquinha “SOS Rio Sorocaba” usado por seu Chico (foto: arquivo de família)

Para a campanha, seu Chico usava um fusquinha branco, no qual foram pintados os dizeres “SOS Rio Sorocaba”. A parte da frente do carro representava a poluição e nela foram desenhadas a água escura, carcaças de peixes e latas velhas. A parte de trás trazia a água azul e peixes saudáveis nadando, simbolizando o rio despoluído. Ele contou que quem projetou o desenho foi um engenheiro da prefeitura e que sua filha Graça Campos, que é artista plástica, também deu uns retoques.

Perguntado sobre o que ele argumentava para conseguir tantas adesões, recorda: “Eu explicava que era para termos um rio mais limpo, porque não é justo destruir o rio e deixar as futuras gerações, que são a esperança da humanidade, sem condições para viver.”

Chico do Rio assegura que trabalhar para o rio Sorocaba foi a grande alegria de sua vida. Ultimamente, busca a defesa de um jequitibá (3), que cresceu próximo de onde construiu sua casa e, agora, árvore frondosa, corre o risco de ser derrubado. Segundo informa, a árvore já está perto de completar um século de vida.

Aos 86 anos, Chico do Rio continua fiel à Mãe Terra.


Notas

(1) João Dias de Souza Filho, advogado e chefe da Divisão de Comunicação e Arquivo da Prefeitura de Sorocaba, em 1989.

(2) Francisco Moko Yabiku, eleito vereador pelo PTB, em 1988.

(3) Árvore com tronco, grande em comprimento e diâmetro. Mede, em média, de 30 a 35 m, mas pode atingir até 60 m. Em língua tupi-guarani significa o gigante da floresta. Nome científico: Cariniana legalis.

Referências

GTech Soluções Ambientais (site); Wikipédia; Lei Orgânica do Município de Sorocaba; Portal São Francisco.


Chico do Rio hoje defende o jequitibá da rua Joana Maria Pereira

Fotos (seu Chico e jequitibá): José Finessi

2 comentários em “Chico do Rio, uma vida de lutas pelo rio Sorocaba e a preservação da Mãe Terra

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  1. Agradeço,o cari nho de Sandra Nascimento ,pela bela materia sobre o Rio Sorocaba e a homenagem a Chico dl Rio meu Pai,um homem que a vida i nteira teve preocupação com o rio e a necessidade de cuidar para as futuras gerações.Obrigada.

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