Jazz e vinho: uma dupla super afinada que dá samba

MARCO MERGUIZZO – Confesso. Tenho algumas grandes paixões na vida que fazem meu coração bater mais forte: a literatura, o cinema, o jazz e o vinho – não necessariamente nessa ordem. Cada uma delas é capaz de tocar fundo a minha alma, aflorar minha sensibilidade, tirando-me, mesmo que por alguns poucos instantes, das batalhas cotidianas e da dura realidade da vida.

São momentos (necessários) de um hedonismo solitário – eu com o livro, eu com a taça, eu com a música, eu com a tela, enfim, eu comigo mesmo -, que me carregam e fazem o meu espírito se elevar a um outro plano e resgatar um pouco dos sonhos e utopias juvenis que resistem dentro de mim, sobretudo nestes tempos em que vivemos de distopia, frustrações e descrenças de toda sorte.

Ao ler um bom livro, ouvir um clássico do jazz, sorver um copo de vinho ou ver um filme de Federico Fellini ou de Giuseppe Tornatore, de Woddy Allen ou de Pedro Almodóvar, de Guillermo del Toro ou do ator argentino Ricardo Darín, todos geniais, sinto que consigo me conectar comigo mesmo, religando-me àquele estado de espírito descrito, logo abaixo, pelo escritor, ativista e pensador uruguaio Eduardo Galeano, desaparecido em 2015, e de quem sou, também, um admirador.

“Muitos me perguntam: para que serve a utopia? Digo: a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Mas, afinal, para que serve a utopia? Serve exatamente para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano (1940-2015)
NAS TELONAS, O JAZZ ETERNIZADO PELA SÉTIMA ARTE

São inúmeras as associações e referências do jazz no cinema. Duas, em especial, me arrepiam. A primeira é a do filme Hanna And Her Sisters (1986), de Woddy Allen, que é um jazz maníaco de carteirinha e sempre dá uma canja no bar e café do histórico Carlyle Hotel, em NY, tocando clarinete em jam sessions. A paixão do genial diretor pela época dourada da música popular norte-americana, entre os anos 20 e os 50, com ênfase nas décadas de 20 e 30, escancara-se em praticamente todas as trilhas de sua filmografia.

“Quando nasci – disse ele, certa vez, em uma entrevista – a música popular que tocava no rádio era a de Benny Goodman e Count Basie. Havia canções de Gerhswin, Cole Porter, Rodgers & Hart, Jerome Kern e Irving Berlin”. Aos meros 14 anos, Allen despertaria para o jazz ao ouvir o clarinetista e saxofonista Sidney Bechet (1897-1859), o que o encantou definitivamente. Já aos 15 de idade, começou a tocar clarineta e estudou de cara com o saxofonista tenor e clarinetista Gene Sedric (1907-1963), que por sua vez tocara com o pianista e compositor Fats Waller (1904-1943), autor de clássicos como Honeysuckle Rose e Squeeze Me.

Em 1970, Allen formou a sua própria trupe: a New Orleans Funeral and Ragtime Orchestra. Tocou semanalmente no Michael’s Pub até 1997, e desde o fechamento da casa, mudou-se para o bar do hotel Carlyle, o mesmo espaço em que Bobby Short aparece tocando piano e cantando no filme Hannah e suas Irmãs, um dos melhores de sua estupenda filmografia, ao lado de Zelig, também outro filmaço.

Woody Allen e sua trupe de músicos em uma jam session no bar-café do hotel Carlyle de NY: música na veia que é homenageada e venerada em vários de seus filmes (Foto: Arquivo)

Outra película incrível em que o jazz é reverenciado de forma tocante é o The Terminal do diretor Steven Spielberg. Nesta comédia dramática de 2004, o protagonista Viktor Navorski, um atrapalhado e engraçadíssimo turista de um país fictício da Europa Oriental, interpretado pelo camaleônico e sempre brilhante Tom Hanks, chega à Nova York e é impedido pelo departamento de imigração norte-americano de deixar o aeroporto, sendo obrigado a viver e a sobreviver ali por várias semanas.

Apenas na tomada final da película, o espectador descobre que Navorski viajara para a Big Apple tão-somente para obter um autógrafo (o último que faltava no bloco de notas do pai, um jazzófilo apaixonado) do lendário saxofonista Benny Golson, que em janeiro deste ano completou 90 anos e ainda está em plena atividade. A cena, apoteótica, em que Hanks assiste à jam de Golson no sax, retratando de modo sensível o sentimento de um fã diante de seu ídolo, é simplesmente de arrancar suspiros e arrepios.

Cena do filme O Terminal no qual o personagem de Tom Hanks, o impagável Viktor
Navorski, assiste emocionado à performance do saxofonista Benny Golson (Foto: Arquivo)
O JAZZ E O MUNDO DE BACO: DOBRADINHA QUE DÁ SAMBA

Alguém disse por aí – certamente, o mais apaixonado dos enófilos – que apesar de ser um apenas um líquido, o vinho é a única bebida criada pelo homem que é capaz de emocionar. Um jazzófilo de carteirinha também diria o mesmo. Almas gêmeas, imagens refletidas, quem ama vinho, ama jazz e vice e versa, como num espelho onde cada um sente e vê o reflexo de suas próprias emoções, seja na taça, seja no Spotfy.

Quer pelos arranjos melódicos, sonoridade marcada e trilhas musicais, quer pelos solos instrumentais, performances vocais e composição estética sofisticada, o jazz talvez seja, dentre todos os gêneros musicais, aquele que melhor se encaixe a uma boa taça de vinho. Uma combinação mais do que perfeita, cool e instigante que aguça tanto o paladar quanto os ouvidos, proporcionando a seus apreciadores momentos de puro deleite e transcendência.

Nada mal, portanto, do que desfrutar de afinados duetos proporcionados entre um superchâteau de Bordeaux e o saxofone performático de Gerry Mulligan, por exemplo. Ou de um Rioja intrigante com as notas do trompete de Chet Baker. Assim como de um imponente Brunello de Montalcino, tinto icônico moldado na região italiana da Toscana, com as improvisações ao piano de Dave Brubeck e Bob Cooper. Ou, ainda, de um sedutor Chardonnay elaborado na ensolarada Napa Valley associada às vozes magnéticas de Ella Fitzgerald e Aretha Flanklin.

Certamente, a relação será estabelecida pela emoção que explodirá na taça e nas trilhas musicais entoadas por estes monstros do jazz. Saboreie, abaixo, a seleção feita pelo blog Aquele Amor Que Me Emociona, que inclui dezenove rótulos campeões da safra de 2017 escolhidos a dedo pela exigente publicação norte-americana Wine Spectator para serem saboreados ao som dos clássicos antológicos da playlist da All Music.Jazzmaníacs.

Por certo, você que é amante de vinho e jazz irá se reconhecer aqui ou em outras livres associações da sua preferência pessoal.

Cheers ao jazz!

Cheers à sensibilidade!

AFINADOS DUETOS

Uma seleção instigante de rótulos de alta gama em associações de encaixe perfeito com uma playlist de trilhas jazzísticas para aguçar o paladar e os demais sentidos
🍷DUCKHORN MERLOT NAPPA VALLEY THREE PALMS VINEYARD & ELLA FITZGERLAD (MONTEAUX 1977) 🎷🎹

Nada como a grande dama do jazz para expressar a sutil elegância e complexidade deste Merlot californiano com camadas de frutas vermelhas, especiarias e mineralidade. Nesta coletânea gravada Montreux Jazz Festival (Suíça), em 1977, Ella Fitzgerald (1918-1996), em estupenda forma vocal, é acompanhada pelo trio do pianista Tommy Flanagan. Passeia por baladas comoventes como My Man (imortalizada por Billie Holiday) e Come Rain or Come Shine, antes de dar uma aula de swing em I Let A Song Go Out of My Heart e Billie’s Bounce e arrasar em O Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim & Newton Wonder, e You Are The Sunshine of My Life, composição que bebeu das águas da bossa-nova brasileira dos anos 1950 e 1960. Para beber, ouvir e se emocionar agora ou guardar até 2023.

🍷 K SYRAH WALLA WALLA VALLEY POWERLINE ESTATE & ART BLAKEY CARAVAN 🎷🎹

Um tinto matador feito da uva syrah originário do terroir de Walla Walla Valley, região vinícola de Whashington, cuja personalidade é expressa por notas carnosas, frutas silvestres, pimenta e alcaçuz e taninos envolventes. Perfeito para acompanhar as batidas ritmadas do vulcânico e performático Art Blakey (1919-1990), baterista e bandleader do grupo Jazz Messengers, no qual despontaram nomes como Lee Morgan, Benny Golson, Keith Jarrett e os irmãos Wynton & Branford Marsalis, dentre outros. Nesta reedição em CD, cujo título homenageia Duke Ellington & Juan Tizol, destaque para os alternate-takes da incendiária Sweet ‘N’ Sour (Shorter) e da angular Thermo (Hubbard). Pronto para ser saboreado já, mas com potencial de guarda para até 2024.

🍷 CHÂTEAU COUTET BARSAC & YUSEF LATEEF: EASTERN SOUNDS 🎷🎹

Um Sauternes Premier Cru Classe de estirpe de paladar arrebatador. No nariz, pinceladas de abacaxi, maçã, ameixa verde, flor de laranjeira e gengibre. Moldura perfeita para desfrutar desta coletânea preciosa do multi-instrumentista William Evans, um dos primeiros músicos americanos a incorporar elementos da música oriental no jazz. Também conhecido como Yusef Lateef, após sua conversão ao Islamismo, Evans protagoniza este Eastern Sounds (1961), álbum considerado uma de suas obra-primas. Nele, Lateef toca vários tipos de flautas e oboé magistralmente executado por ele em faixas como Blues for Orient ao lado do pianista Barry Harris. Amante de improvisações politonais, o craque dos instrumentos faz uma releitura de Don’t Blame Me e das músicas-temas dos filmes Spartacus, de Alex North, e The Robe, de Alfred Newman. Com enorme potencial de guarda (até 2035), este vinho de sobremesa estará em plena forma e em todo o seu esplendor a partir de 2020.

🍷 CASANOVA DI NERI BRUNELLO DI MONTALCINO & SHELLY MANNE: MY FAIR LADY 🎷🎹

Par perfeito, dois clássicos eternos: Brunelo e My Fair Lady. O primeiro moldado por Casanova di Neri, premiado produtor italiano da Toscana, com acabamento primoroso e estrutura longeva, característicos deste monumento da taça. Já o segundo interpretado pelo baterista Shelly Manne (1920-1984), uma lenda da era do cool-jazz. Ao lado do pianista André Previn e do baterista Leroy Vinegar, Manne oferece tratamento jazzístico irretocável às canções do musical My Fair Lady (1956), como On the Street Where You Live, I Could Have Danced All Night, I’ve Grown Accustomed to Her Face e Get Me to the Church on Time, entre outras. Para beber a partir de 2020, com grande potencial de guarda (2035 ou mais).

🍷 CHÂTEAU DE ST. – COSME GIGONDAS & DUKE ELLINGTON / RAY BROWN: THIS ONE’S FOR BLANTON  🎷🎹

Uma ode hedonista que reúne este monumental e musculoso tinto do Rhône e os mestres do jazz Duke Ellington (1899-1974) e Ray Brown (1926-2002). Produzido por Norman Granz em 1972, este belíssimo disco em duo gravado é um tributo ao revolucionário contrabaixista Jimmy Blanton. Tem como peça-central a Fragmented Suite for Piano and Bass. Nas faixas complementares, a dupla de craques passeia por clássicos do repertório Ellingtoniano, como Do Nothin’ Till You Hear From Me e a deslumbrante balada Sophisticated Lady, além do blues Things Ain’t What They Used To Be, o maior hit de Mercer Ellington, filho de Duke. Para beber e curtir já, porém, pode ser degustado até 2030.

🍷 DOMAINE HUËT VOUVRAY DEMI-SEC LE MONT & BEN WEBSTER 2017/ JOE ZAWINUL: SOULMATES  🎷🎹

Com punch aromático demolidor de frutas brancas e amarelas e um paladar mineral único, este branco ultrarrefinado do Loire é um convite e tanto para saboreá-lo ao som desta coletânea do sax-tenor de Ben Webster (1909-1973) e o pianista austríaco Joseph Zawinul. Na coletânea elaborada pela dupla de feras do jazz, brilham os hits dos anos 1960: Too Late Now, Come Sunday, e Like Someone in Love. Como convidado especial, o trompetista Thad Jones (1923-1986) dá uma canja em três temas, incluindo a faixa-título, que por si só vale. Ouça e deguste agora mas, take easy, seu impressionante potencial de guarda vai até 2032.

🍷 CHÂTEAU CANON – LA GAFFELIÈRE ST. EMILION & ART PEPPER: WINTER MOON 🎷🎹

Um dos grandes clássicos da região bordalesa de Saint-Emilion, este tinto de paladar complexo e requintado é perfeito para reverenciar Art Pepper (1925-1982), uma das personalidades mais fascinantes do universo jazzístico norte-americano. Da inconfundível sonoridade do sax-alto de Pepper destilando lirismo, destaque para Here’s That Rainy Day e a faixa-título Winter Moon, de Hoagy Carmichael. Esta reedição vem acrescida de três bonus-tracks: a pungente Old Man River e alternate-takes de Our Song e The Prisoner, o tema de amor do badalado filme The Eyes of Laura Mars. Mas espere um pouco para degustá-lo. Com potencial de guarda extraordinário (até 2035), este grande tinto de Bordeaux começará a viver os seus melhores momentos só em 2020.

🍷 MEYER CABERNET SAUVIGNON NAPA VALLEY & ART TATUM: THE TATUM GROUP MASTERPIECES (VOL. 8) 🎷🎹

Musculoso, profundo e persistente em boca, este super Cabernet Sauvignon da Meyer Winery, uma das mais reputadas de Napa Valley, ostenta o mesmo fôlego e classe do último volume da série “Group Masterpieces”. O álbum enfatiza o trabalho fenomenal do pianista Art Tatum (1909-1956), cuja banda nos anos 1950 era formada por Ben Webster (sax-tenor), Red Callender (baixo) e Bill Douglass (bateria). O menu deste CD inclui somente standards de primeira grandeza, como All the Things You Are, Night and Day, Where or When, Have You Met Miss Jones? e My One and Only Love. Uma verdadeira aula de piano e de improvisação. Portanto, não perca tempo: ouça e desfrute o vinho agora. Mas é possível guardá~lo até 2032.

🍷 PAHLMEYER CHARDONNAY NAPA VALLEY & THE QUINTET: JAZZ AT MASSEY HALL  🎷🎹

Opulento e sedutor, este Chardonnay californiano da jovem e icônica Pahlmeyer, considerada a  Califonia Mouton Winery, é para suspirar, despertando paixões. Assim como esta coletânea que reúne cinco dos maiores jazzmen de todos os tempos: Charlie Parker no sax-alto, Dizzy Gillespie no trompete, Bud Powell ao piano, Charles Mingus no baixo e Max Roach na bateria. O dream team foi formado especialmente nos anos 1950 para tocar no Massey Hall, em Toronto (Canadá), considerado o melhor concerto da história do jazz. Todas as músicas apresentadas durante a apresentação do quinteto resultaram em um retumbante sucesso de público e crítica, confirmando a genialidade destes monstros do bebop. No CD, estão eternizados solos como Salt Peanuts, Hot House, All The Things You Are, We e A Night in Tunisia, entre outras canções de arrepiar. Imperdível para os ouvidos e para o paladar. Beba agora ou mantenha-o na adega até 2022.

🍷 BOOKER OUBLIÉ PASO ROBLES & CHET BAKER: ‘CHET’ 🎹

Mescla de Grenache, Mourvèdre e Counoise, este supertinto de corte da californiana Booker Vineyard impressiona pela densidade e mineralidade, inclui toques de groselha, amoras, especiarias, café e pimenta. Tamanha complexidade e sedução também se faz presente neste álbum do genial Chet Baker (1929-1988) gravado entre os anos 1958-59. O trompetista mais lírico que o jazz já conheceu toca com o pianista Bill Evans, o flautista Herbie Mann e o sax-barítono Pepper Adams, que dá uma verdadeira aula em Alone Together. Merece aplausos a química musical entre Chet e o guitarrista Kenny Burrell em faixas como September Song e a balada It Never Entered My Mind. Além de suas performances em How High The Moon, If You Could See Me Now, o clássico de Cole Porter You’d Be So Nice To Come Home To e Early Morning Mood, composição do próprio Chet. Tinto para ser saboreado já ou até 2028.

🍷 ALTESINO BRUNELLO DI MONTALCINO OUR 40TH HARVEST & KENNY BURRELL & JOHN COLTRANE 🎷🎹

Outro gigante na taça, este Brunelo brilha com intensidade na companhia do guitarrista Kenny Burrell e do saxofonista John Coltrane nesta comovente jam-session gravada em 1958. A coletânea inclui Why Was I Born, a translúcida releitura do standard I Never Knew, um tema instigante de Burrell (Lyresto) e duas contribuições do pianista Tommy Flanagan: Freight Trane e Big Paul. Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria), ambos famosos pela parceria musical com Miles Davis, completam a seção rítmica. Ouça e se emocione agora. Potencial de guarda: de 2021 a 2035.

🍷 BEDROCK ZINFANDEL CALIFORNIA OLD VINE & STEAMIN’ WITH THE MILES DAVIS QUINTET 🎷🎹

Estrela da vinicultura americana, a Zinfandel (ou a italiana Primitivo) ganha uma expressão superlativa ao protagonizar deste tinto da premiada Bedrock Winery. Tão surpreendente e visceral quanto o trabalho de John Coltrane e Miles Davis, gravado em 1956 e eternizado neste CD. Em grande forma, o genial trompetista se arrisca em voos rasantes, de perfeição desconcertante, ao longo de standards como Surrey with the Fringe On Top, a conhecida balada When I Fall in Love e um dos hinos do bebop, Salt Peanuts, parceria de Dizzy Gillespie & Kenny Clarke, com um show à parte do baterista Philly Joe Jones nos pratos. O quinteto de Miles também contava à época com Red Garland ao piano e Paul Chambers no baixo. Para ser sorvido agora ou, se preferir, guarde-o para ser saboreado até 2026. 

🍷 SIXTO CHARDONNAY WASHINGTON UNCOVERED & THELONIOUS MONK: BRILLIANT CORNERS 🎷🎹

De personalidade, acidez e mineralidade marcantes, este Chardonnay ultradelicado e elegante moldado na badalada região de Whashington a partir de leveduras selvagens é tão impactante quanto esta obra-prima do bebop. Neste terceiro disco do pianista Thelonious Monk (1917-1982), Brilliant Corners, gravado em 1956, surgiram, por exemplo, clássicos como Pannonica e Bemsha Swing, com o revolucionário baterista Max Roach, enquanto Clark Terry ataca no trompete. Nas demais faixas brilham Sonny Rollins (sax tenor), Ernie Henry (sax alto) e Oscar Pettiford (baixo). Sozinho ao piano, Thelonious aplica sua personalíssima concepção como baladista em I Surrender, Dear. Desfrute já ou até 2021.

🍷 CLOS DES PAPES CHÂTEAUNEUF-DU-PAPE & MILT JACKSON QUARTET 🎷🎹

Etéreo, complexo e refinado, este exemplar faz jus à mística deste produtor, um dos titãs franceses do mundo do vinho. Tão revenciado quanto Milt Jackson (1823-1999) um dos pioneiros do bebop. Ao lado de Horace Silver ao piano, Percy Heath no baixo e Connie Kay na bateria, o insuperável mestre do vibrafone arrasa neste álbum de estréia gravado em 1955, e elogiadíssimo pela revista Down Beat, a bíblia do jazz, por composições como My Funny Valentine, The Nearness of You e I Should Care. Além de releituras de Moonray (sucesso do band-leader Artie Shaw), Wonder Why, de Sammy Cahn, e o blues efervescente Stonewall, do próprio Milt. Com enorme potencial de guarda (até 2040), também é possível saboreá-lo agora.

🍷 DOMAINE DES BAUMARD SAVENNIÈRES & THE INCREDIBLE JAZZ GUITAR OF WES MONTGOMERY 🎷🎹

Apontado como o maior expoente da casta Chenin Blanc pela crítica especializada, Domaine Baumard é um dos maiores nomes do vinho na França. Da lavra do premiado produtor, este branco estupendo de textura ultracremosa e grande complexidade. Perfeito para brindar o talento de Wes Montgomery (1923-1968), tido por muitos como o maior guitarrista da história do jazz. Neste álbum, Wes arrasa todo o tempo. Dono de uma sonoridade inconfundível e de uma técnica autodidata que fazia do seu polegar uma aveludada palheta, ao empregar as conhecidas “oitavas paralelas”, o mestre da guitarra brilha, ao lado de Tommy Flanagan (piano), Percy Heath (baixo) e Albert “Tootie” Heath (bateria), em composições como Airegin, In Your Own Sweet Way, West Coast Blues, Four on Six e D-Natural Blues, entre outros hits jazzísticos. Beba agora ou reserve-o até 2030.

🍷 TURLEY ZINFANDEL PASO ROBLES UEBERROTH VINEYARD & BILL EVANS TRIO: SUNDAY AT THE VILLAGE VANGUARD 🎷🎹

Moldado no terroir de Paso Robles, outro Zinfandel californiano de grande complexidade e cuja personalidade desperta paixões. Como a da enorme legião de fãs do trio novaiorquino liderado pelo pianista Bill Evans, que brilhou nos anos 1960 ao lado do baixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian. Com técnica musical irretocável, estes titãs do jazz arrasam em composições como Solar (Miles Davis), My Man’s Gone Now (da ópera Porgy & Bess, de Gerhwin), Gloria’s Step, All of You, Jade Visions e em Alice in Wonderland. Para beber já ou até 2028

🍷 VOLVER ALICANTE BOUSCHET TARIMA HILL OLD VINES & COLEMAN HAWKINS: THE HAWK FLIES HIGH 🎷🎹

Produzido pela jovem vinícola espanhola Volver, dos catalães Rafael Canizares e Jorge Ordonez, este tinto moderno, moldado a partir de vinhas velhas da uva mourvédre (ou monastrell), cultivada no terroir de Alicante, região de Valencia, encanta ao primeiro gole. Uma cepa sedutora e intrigante como as performances do saxofonista Coleman Hawkins (1904-1969), que encantou gerações. Nesta gravação dos anos 1950, ele toca ao lado de vários craques do jazz. Como o trompetista Idress Sulieman, autor da faixa Juicy e o trombonista-mor do bop, J. J. Johnson. O pianista Hank Jones e o baixista Oscar Pettiford. O baterista Jo Jones e o guitarrista Barry Galbraith em uma sucessão antológica de solos instrumentais, como Think Deep, Laura, Blue Lights e Sancticity, esta do próprio Coleman. Para desfrutar agora ou até 2025.

🍷 BODEGA COLOMÉ MALBEC SALTA & DEXTER GORDON 🎷

Representante argentino na lista dos top 20 da Wine Spectator, este Malbec de primeira grandeza da bodega Colomé é um monumento na taça. Assim como o talento musical de Dexter Gordon (1923-1990), um dos pioneiros do bebop americano. Gordon era considerado um virtuose, particularmente por seus duetos de saxofone com Wardell Gray, Neste álbum, ao lado de Barry Harris (piano), Buster Williams (baixo) e Albert “Tootie” Heath (bateria), ele improvisa uma vez mais com sua reverenciada fluência em Fried Bananas e Meditação, explorando a fértil harmonia com a bossa nova de Tom Jobim & Newton Mendonça. Convidado especial, James Moody (sax tenor) surge em duas faixas, contribuindo com ótimo solo em Lady Bird, do arranjador Tadd Dameron. Para ser saboreado já ou até 2022.

🍷 MARQUÉS DE CÁCERES RIOJA RESERVA & DIZZY GILLESPIE Y MACHITO: AFRO-CUBAN JAZZ MOODS 🎷🎹

DNA ibérico temperado com a ginga e ritmos afro-cubanos na linha evolutiva do jazz – o latin-jazz – fazem deste dueto uma combinação irresistível. Na taça, um Reserva de corte poderoso (85% de tempranillo mais 15% de garnacha) que leva a assinatura de um dos mais tradicionais e renomados nomes de Rioja. Já no CD,  o lendário trompetista Dizzy Gillespie (1917-1993) surge como solista da orquestra de Frank “Machito” Grillo. Gravado em meados dos anos 1970 em NY, a coletânea traz Oro, Incienso y Mirra e a suíte Three Afro-Cuban Jazz Moods. Machito, tocando claves e maracas, comanda a seção rítmica. Bauza, diretor musical da orquestra, ataca de sax-alto e clarinete. Chico O’Farrill cuida dos arranjos e regência, combinando tambores africanos, congas, timbales, trompas, tuba e teclados eletrônicos, destacando o balanço de Jorge Dalto no piano Fender Rhodes. Prova irrefutável da universalidade do jazz. Um vinhaço para se deliciar já ou até 2027.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional
especializado em gastronomia, vinhos, viagens e outras
coisas boas da vida.
Escreve neste coletivo
toda segunda-feira.
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acessando @marcomerguizzo
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PARA OUVIR E CURTIR:

ELLA FITZGERALD LIVE AT THE MONTREAUX (1977)
SHELLY MANNE (MY FEAR LADY)
DIZZY GILLESPIE Y MACHITO: AFRO-CUBAN JAZZ MOODS
MY FUNNY VALENTINE (CHET BAKER)

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