A caça ao monstro (conto). Parte 2 (final): Nunca use uma arma sem estar pronto para morrer também


JOSÉ CARLOS FINEIS – Depois do suicídio do velho Ezequiel, nós todos da aldeia nos esforçamos por pensar mais no trabalho e menos na tragédia, até porque não se pode deixar as criações e a lavoura ao deus-dará. Nem bem o velho baixou à cova, cada qual retomou sua rotina, que só foi alterada no dia da reconstituição do enforcamento.

Leia a primeira parte deste conto clicando aqui.

Acontece que, em minha cabeça, muitas perguntas sem resposta continuaram a se debater de forma obsessiva. A todo momento do dia ou da noite, acordado ou durante o sono, a imagem do enforcado me voltava à memória, sempre acompanhada de interrogações tão evidentes que, mesmo sendo eu um camponês de poucas ciências e habilidades, me admirava de que nem a Polícia nem ninguém tenha dado a menor atenção a elas.

Já falei que o cadáver do sr. Ezequiel não parecia com o de um enforcado, nem na cor do rosto ou por qualquer outro traço da sua expressão. Aos poucos me convenci de que não foram alucinações sem sentido as visões que tive no incidente ocorrido durante a reconstituição, quando experimentei o terror de ter o corpo dependurado pelo pescoço.

O sr. Ezequiel, eu estava convicto, não morrera por enforcamento. Alguém – em minha visão, três homens – o matara com uma injeção. Já sem vida, o corpo fora arrastado para a mata e pendurado na forca, para que todos acreditassem ter sido suicídio.

Lembrei-me que, pelos dias da morte do sr. Ezequiel, operários de uniformes azuis, iguais aos da prefeitura, estiveram tapando buracos pelas estradas de terra que se estendem por dezenas de quilômetros em nosso vale. Eles foram vistos várias vezes no armazém tomando cachaça e comendo salgados, mas sem falar entre eles e sem puxar conversa com os moradores locais. Não teria sido difícil para eles, numa tarde qualquer, quando quase todos estavam fora em suas roças e os outros poucos que ficavam em casa cuidavam de seus afazeres, bater à porta do velho com roupas comuns para não chamar a atenção, entrar na casa com algum pretexto, matá-lo e arrastá-lo para a mata dos fundos, sem ser vistos.

Um detalhe importante aparecera bem nítido em minha visão e eu tinha como descobrir se era verdadeiro. Fui, numa manhã de sábado, à casa da viúva do sr. Ezequiel e lhe perguntei se ela guardara as roupas que o velho usava quando morreu. Ela estava fora no dia em que o marido foi morto, já que levava almoço para os filhos e sobrinhos na roça e ficava trabalhando em alguma coisa até a convencerem de voltar para casa.

Para minha surpresa, a viúva não perguntou por que eu queria ver as roupas. Talvez tivesse as mesmas desconfianças que eu. Pediu-me que me sentasse na sala com vasos de flores murchas, ofereceu-me água e entrou para os fundos da casa. Em pouco tempo, surgiu com um copo d’água e uma trouxa de roupas.

– Aqui. Tudo do jeito que ele deixou.

– Os sapatos também?

– Tão aí. Não mexi em nada. Achei que alguém podia querer investigar. A Polícia, quem sabe? Mas acharam de levar só a corda e o banco.

Fiz um gesto, como a dizer: “Posso?”. Ela permitiu com a cabeça. Desatei o nó da trouxa de lençol e a abri no chão à minha frente. Eram poucas peças. Peguei um dos sapatos, depois o outro. A viúva me olhava como se compreendesse tudo. Não trocamos palavra. Só ficamos olhando para os sapatos. Havia lama seca na parte superior dos bicos e as solas estavam limpas. Lembrei-me que havia chovido pelos dias do ocorrido e as trilhas da mata, inclusive a clareira onde o corpo fora encontrado, estavam cobertas de lama.

– Ele foi arrastado de pé, pelos braços. Não foi andando, foi levado até o jacarandá – a viúva rompeu o silêncio.

– A senhora imagina quem fez isso?

– Não tenho palpite. Todos gostavam do Zequié.

– Vocês guardavam dinheiro em casa?

– Ché! Só uns tostões que os filhos deixam pra mor de comprar algum remédio. A gente é pobre. Cê sabe disso.

– E em casa, a senhora notou alguma coisa estranha naquele dia?

– Tava meio revirado. Mas aqui é sempre meio revirado.

– Sumiu alguma coisa?

– Nada.

– E a corda? Era daqui?

– Temos muitas tralhas na casinha do quintal. Zequié não jogava nada fora. Não lembro daquela corda. Mas pode ser que fosse nossa.

– Seu Ezequiel sabia fazer nós?

Ela contraiu os ombros.

– Pode ser que sim. Fazer nó não é o mesmo que tocar viola, né, Migué? Até criança faz nó pra montar arapuca, pendurar balanço… Fazer nó é fácil. Difícil é desatar.

Eu e a viúva, talvez por falta de confiança na capacidade ou interesse da Polícia, calamos sobre nossa suspeita, ou melhor, sobre nossa certeza de que o velho fora morto e pendurado depois, por algum motivo sobre o qual não conseguíamos atinar. E foi com esse espírito de desconfiança que vi chegar à aldeia um certo Timóteo, segundo ele mesmo se apresentou, homem de Deus designado pelo Altíssimo e pelos dirigentes máximos da nossa igreja para ser o novo líder espiritual da comunidade.

Timóteo e o velho Ezequiel, se colocados lado a lado, talvez tivessem em comum apenas o fato de serem humanos. Seu Ezequiel tinha a pele curtida de sol e as palmas das mãos duras de calos antigos. O rosto era enrugado e pontilhado de manchas maiores e menores, indicativas de idade avançada, assim como as mãos. Era simples, como já lhe falei. Tinha um jeito bonito de sorrir mesmo na tristeza, de ser como que um pai ou irmão para a gente. Vestia roupas surradas que ganhava dos filhos e amigos, as quais, por vezes, ficavam largas demais em seu corpo franzino. Usava sapatos gastos, não tinha relógio ou luxo.

Já Timóteo era como que um ser de outro planeta para nós, roceiros. Não vou entrar em detalhes, para não cansar o leitor. Basta dizer que, além de bem mais jovem e garboso que Ezequiel, usava paletó e gravata – um acessório que muitos de nós nunca havíamos visto de perto. E que, em vez de cavalo, charrete e carroça, andava pra cima e pra baixo em um carro velho, que passou a ser o único da aldeia. O resto o leitor imagine.

Timóteo disse que sentira seu coração ser tocado no exato momento em que Ezequiel agonizava na corda. Que nunca ouvira falar de nossa aldeia em seu Estado de origem, mas que, por algum motivo superior, fora designado por seus líderes para nos ensinar e conduzir.

O povo da aldeia, sempre crédulo, o acolheu de imediato. Muito falante e educado, Timóteo entretanto tinha um jeito que talvez só eu percebesse, de olhar os outros de cima – mesmo aqueles que eram mais altos que ele. Percebi também uma soberba, uma autoadmiração que não havia em Ezequiel. E notei que só pregava com a bíblia na mão. Quando tentávamos conversar sobre alguma passagem do velho ou do novo Testamento, ele respondia com ponderações genéricas e jamais citava um versículo de cabeça. Se bem que isso, também, não quer dizer nada. Qualquer idiota pode decorar a bíblia e ainda assim não ser um bom cristão, mas apenas um idiota que decorou a bíblia.

Meu estômago revirou quando, numa das preleções de domingo, Timóteo, depois de muitos argumentos, disse à comunidade que todos precisavam contribuir com algum dinheiro para reformar e manter o templo, além de ajudá-lo com o combustível para se deslocar até as casas dos fiéis, que ficavam por vezes a muitos quilômetros de distância.

A gente humilde do local não discutiu. Estavam acostumados a se ajudar mutuamente, embora o dinheiro em circulação fosse pouco. Os mais velhos, a quem respeitávamos, confabularam entre si e acharam razoável o pedido do novo líder espiritual. Foi assim que Timóteo, ao contrário de seu Ezequiel, que nos conduzira por muitos anos sem deixar de lado o trabalho, até não ter mais condições físicas de cuidar da faina diária e pesada do campo, passou a ser pago por seu apostolado, como se paga um advogado ou um motorista, a fim de que nos defenda perante o Altíssimo e nos guie pelo caminho do bem.

Meses se passaram e tudo parecia ter voltado ao normal, quando surgiu a história do monstro e da expedição para matar o monstro, organizada por Timóteo.

Acontece que outra tragédia se abateu sobre o vilarejo quando uma lavadeira encontrou o corpo da menina Letícia, de 13 anos, violado e com a garganta cortada, caído entre as plantas de um trecho do rio que formava uma espécie de mangue, escondido pela mata fechada. Pelo que se soube, a mulher que lavava roupa nas pedras deixou que uma blusa de frio fosse levada pela correnteza, mais lenta perto da margem. Como conhecesse uma trilha que levava pela mata a um trecho mais adiante, correu para antecipar-se à passagem da peça de roupa. A estratégia funcionou. Mas, quando a mulher entrou na água rasa para apanhar a blusa, viu uns panos brancos e floridos meio cobertos por plantas, não muito longe de onde estava. Era o corpo de Letícia.

– Eu tive um sonho esta noite, e nesse sonho eu vi um monstro, meio homem, meio bicho, com unhas grandes como facões, atacar a pobre menina! – bradou Timóteo no primeiro sermão após o enterro e a passagem protocolar da polícia pela aldeia, ocasião em que os mesmos policiais da reconstituição do suicídio ouviram algumas pessoas e tomaram notas, além de fazerem fotos do corpo.

– Há um monstro rondando nossa aldeia. Ele é inimigo das pessoas do bem e gosta de sangue. Precisamos caçá-lo e matá-lo, antes que faça mais vítimas – prosseguiu Timóteo, em meio a um certo alarido que sua primeira revelação causara. As pessoas se olhavam entre si, levavam a mão à boca, sussurravam com cenhos assustados. Alguns homens mais jovens ficaram de pé, como que a se oferecer para ajudar a matar o monstro.

– Quem aqui tem arma de fogo? – quis saber o líder espiritual da aldeia. Ora, em quase todo sítio havia uma arma, fosse para espantar animais selvagens, fosse para caçar. Eu tinha uma velha espingarda de um só tiro que meu pai comprara quando eu ainda era criança, e uma caixa fechada de munição. Levantei a mão hesitante, em meio a numerosos braços erguidos.

A expedição de caça ao monstro foi marcada para dali a dois dias. Foram, para mim, duas noites praticamente sem dormir, pois a simples possibilidade de carregar uma arma me deixava incomodado.

Os homens da aldeia, em geral, sentiram-se importantes e gostaram da ideia da expedição. Tive a impressão de que Timóteo tocara em um ponto sensível de suas vaidades. Condenados a uma vida de trabalho repetitivo, sujo e exaustivo, cujos maiores perigos eram as aranhas e as cobras, acordando de madrugada para cuidar das criações, recolhendo o estrume do gado e a bosta das galinhas para adubar as plantas, de repente eles se viram diante de uma missão importante – algo que poderiam contar para os netos pelo resto de seus dias.

No dia combinado, as mulheres prepararam mochilas com lanches e Timóteo recebeu a todos assim que o sol nasceu, no pequeno templo, com bules cheios de café bem quente e bolo de fubá. (Hoje, passando em revista os fatos daquele dia, me pergunto se ele não teria colocado alguma droga no café, para fazer com que obedecêssemos às suas ordens com docilidade e matássemos o que fosse preciso, sem pensar duas vezes.)

Os homens estavam excitados e falantes, paramentados com enferrujadas Boitos e CBCs, mas ansiosos como soldados prestes a entrar em combate. Saímos para a mata meio sem destino. Não sabíamos por onde começar nem o que procurar. Em sua breve preleção antes de sairmos do calor da igreja para o frio da mata, Timóteo nos advertira de que, segundo lhe fora revelado em sonho, o monstro tinha poderes excepcionais, como o de aparecer aos olhos das pessoas com a forma que quisesse, podendo se apresentar como um singelo sagui ou um perigoso gorila.

– Ele pode assumir qualquer forma, até a de uma sereia. Por isso, tenham muito cuidado. Ele é traiçoeiro e fará de tudo para enganá-los. Se derem confiança, ele atacará e teremos mais sangue inocente derramado.

Com estas palavras em mente, caminhamos durante horas por todas as trilhas existentes e possíveis, divididos em grupos de dois ou três, pois de outra forma levaríamos meses para cobrir uma ínfima parte da floresta ao redor da aldeia. Eu me sentia grogue e enjoado a princípio, como se tivesse tomado um copo de cachaça. Algumas horas depois, o medo, o cansaço e a ansiedade faziam com que o suor escorresse pela testa e pela nuca apesar do frio, e que a vista se embaçasse com frequência. A respiração curta, os batimentos cardíacos acelerados, uma certa confusão mental e a sensação opressiva de que um ser terrível estava à nossa espreita faziam de nós um bando de coitados, exaustos e alucinados.

O orgulho de empunhar velhas cartucheiras e garruchas abandonara os homens. Envergonhados de ceder, esperavam ansiosamente o horário designado para voltar ao ponto de partida, ou que Timóteo, com o sinal combinado de três tiros a intervalos regulares, encerrasse as buscas para que pudéssemos voltar.

Eu caminhava por uma trilha e me distanciei um pouco de outros dois rapazes, que pararam para comer alguma coisa e beber água. Foi então que a vi. Era uma criança. Quantos anos teria? Talvez oito, não mais que dez anos. Estava nua da cintura para cima e usava uma espécie de tanga, mas isso era muito estranho, já que não havia índios naquela região. À medida que eu me aproximava, a espingarda apontada para o chão, ela simplesmente me olhava e sorria. Seu rosto era calmo; seu sorriso, confiante e encantador. Os cabelos longos me deixaram confuso a princípio, mas, ao chegar mais perto, percebi que era um menino.

– Qual seu nome? – arrisquei.

A criança continuou a me olhar em silêncio.

– Seus pais estão por aqui? Com quem você está? Como você se chama?

Como resposta, apenas o sorriso, franco e espontâneo. Os olhos grandes me olhavam direto nos olhos. Não se via na criança, em sua postura e expressão, nem um traço de medo ou hostilidade, naturais quando se está diante de um homem armado ou quando se é um monstro.

Foi então que ouvi atrás de mim, a poucos centímetros de minha orelha, uma voz que sussurrava.

– Levante a arma bem devagar e atire.

Era Timóteo, que não deveria estar naquele setor da floresta.

– Atire. É o monstro. O inimigo.

Eu não tinha motivo para acreditar em Timóteo.

– Se tem certeza de que é o monstro, por que não atira você?

– Eu sou um homem de Deus, Miguel. Não posso pegar em armas. Minhas obras se fazem por suas mãos, assim como as obras de Deus se fazem por minhas palavras.

Tentei novamente falar com a criança.

– Menino, diga pra mim: quem é você? O que faz aqui?

Mas a criança continuou muda em seu sorriso.

Timóteo insistiu:

– É o inimigo, Miguel. Matou aquela menina. Pode matar outras, se você não atirar. Você quer que isso aconteça? Se ele fugir, talvez não o encontremos mais.

– Mas é uma criança, não tá vendo? – ergui a voz.

– Não é! É uma ilusão. O diabo pode assumir a forma que quiser. É um monstro. Meus olhos podem vê-lo como ele é. O que você vê é uma ilusão projetada por ele.

Comecei a tremer, tomado por um mal-estar que se encorpava, porém não mais por causa do medo, do cansaço e da ansiedade, e sim de um ódio insuportável, crescente, absoluto.

– Atire, Miguel!

Atordoado, apontei o cano da espingarda para o peito da criança. Então seu semblante mudou. Seus olhos se encheram de espanto. Seu sorriso deu lugar a uma expressão de pavor. Pensei ter ouvido um gritinho abafado. O menino contraiu os lábios e começou a chorar. Mais do que nunca, era uma criança. Nem pelos, nem unhas compridas como facões. Apenas uma criança assustada cujo olhar agora era puro espanto e medo.

– Atire, Miguel! Ele vai nos atacar a qualquer instante. Quando isso ocorrer, estaremos perdidos.

– Se fosse perigoso, já teria atacado – retruquei. – É uma criança! É uma criança!

– Atire! Atire agora! Veja, ele está fugindo.

Enquanto discutíamos, a criança embrenhara-se na mata.

– Pois se fugiu, não é monstro! – gritei. – Se fosse esse tal monstro, teria atacado. Eu vi os olhos, os olhos não mentem. Eu vi o medo em seus olhos. Monstros perigosos não têm medo de nada. Você nos disse isso! Nem medo, nem piedade.

A discussão em voz alta atraíra outros membros da expedição que estavam pelas proximidades. Aos poucos, um grupo de dez ou doze homens se formou à nossa volta. Estavam calados e, no silêncio da mata, não se ouvia sequer sua respiração.

– Ele deixou o monstro escapar! – gritou Timóteo, dirigindo-se aos homens. – Este covarde, este cagão deixou o monstro escapar. E quando outra mocinha da vila aparecer morta e violentada lá no rio, a culpa será dele! Só dele!

Os homens esboçaram uma reação, mas o que fiz então os fez recuar assustados. Colocando a arma em posição de tiro, encostei a ponta do cano no nariz de Timóteo, que imediatamente começou a suar e a tremer.

– Me chame de covarde de novo e por Deus que eu mato você!

– Calma, Miguel. Estamos todos nervosos.

– Era uma criança! – gritei para os outros. – Não havia monstro nenhum aqui. O único monstro aqui é Timóteo, que tentou me obrigar a matar uma criança!

Olhei fundo nos olhos de Timóteo e vi que ainda me olhava por cima, com desprezo, como se eu fosse um doente. Tremia dos pés à cabeça, mas seus olhos eram frios como duas bolas de gude. Frios como os olhos de um monstro.

– Foi você, não foi?

– Eu o quê, Miguel?

– Foi você que matou o velho Ezequiel, com aqueles capangas que se passaram por consertadores de estrada.

– Meu Deus! Do que você está falando? Eu só apareci aqui semanas depois que Ezequiel se matou.

– Você preparou tudo. Queria tomar o lugar dele. Queria nosso dinheiro, presentes, tecidos, frangos, bolos, gente puxando seu saco. Queria estuprar nossas meninas e matá-las como fez com a coitadinha da Letícia, e depois colocar nós todos como idiotas nesta mata, em busca de algum monstro que não existe.

– Mas você viu o monstro! Ele estava aqui. Você o deixou fugir!

O ódio crescia em mim, e Timóteo só piorava a situação, pois não media suas palavras. Aos berros, forcei tanto o cano da espingarda contra seu nariz que o fiz recuar um passo.

– Aquilo era uma criança! Uma criança! Você quase me fez matar uma criança! Eu não sei como ela veio parar aqui, mas não era um monstro!

– Em nome de Deus, eu lhe digo, era um monstro. Você viu uma ilusão, Miguel. Mas vamos caçá-lo em outra oportunidade. Agora, por Deus, abaixe essa arma.

Eu já havia ultrapassado aquele limite que separa a ação pensada do reflexo, do agir por impulso. Continuei a gritar.

– Você é o monstro, Timóteo. Você armou isso tudo. Queria nosso dinheiro, favores, presentes. Viver sem trabalhar. Queria ser servido e se servir. Você é o monstro. Você matou Ezequiel e o pendurou naquela corda! Você matou a menina Letícia. Viemos para esta floresta para matar um monstro e não voltarei para casa sem matá-lo.

Olhei bem em seus olhos. Os olhos não mentem – repeti para mim mesmo. Seus olhos eram puro ódio.

O que se seguiu, então, foi um tanto confuso. Alguém tentou puxar meu braço, enquanto Timóteo ensaiava um movimento para tirar o cano da espingarda de seu rosto.

Eu tinha ainda uma chance de matar o monstro, e não a desperdicei. A carga de chumbo explodiu no rosto de Timóteo, desfigurando-o e transformando-o numa bola de sangue. Mas, por uma infinita fração de segundo, entre o apertar do gatilho e a explosão do tiro, pude ver seus olhos novamente – e, por Deus!, eles haviam mudado. Eram olhos de pavor, de desespero, de angústia. Olhos de inocente prestes a ser executado. Olhos que imploram pela vida, como os da criança que fugira. Seu corpo fez um breve giro no ar e desabou. Olhei para o chão. Sobre um tapete de folhas mortas, dentes e carne em uma poça de sangue. Gotas brilhantes de um vermelho vivo respingaram na gravata amarela e formaram manchas escuras no paletó azul. Não consegui ver os olhos em meio ao sangue que jorrava.

Saí caminhando lentamente com a espingarda às costas e ninguém me dirigiu a palavra ou tentou me deter. Chegando a casa, encontrei Lígia à janela. Olhei longamente para ela, antes de entrar.

– Não chegue perto de mim. Estou sujo de sangue. Matei um homem lá na floresta.

Ela explodiu em choro enquanto corria para dentro da casa e, saindo pela porta da sala, se atirava contra meu corpo suado e sujo para me abraçar. Assim ficamos por um longo tempo, abraçados e chorando, sem nada dizer um para o outro.

Tomei um banho, vesti roupas limpas e, da porta, sem mais abraços, disse adeus a Lígia. Ela estava largada sobre uma poltrona antiga. Chorava ainda, os lindos olhinhos perdidos em algum da paisagem para além da janela.

Comecei a caminhar até o ponto de parada da jardineira que vai para a cidade, onde pretendia me entregar na delegacia, quando o carro de Polícia chegou.

– Você está preso por assassinato, amigo – disse um dos policiais, que já me conhecia da reconstituição.

– Eu sei.

– Vamos algemar você. Ponha as mãos para trás. Se tentar fugir vamos ter de atirar.

– Tudo bem.

Olhei para a casa, um olhar de despedida. Lígia havia fechado a janela.

Desde então tenho tido muito tempo para pensar e para me arrepender. Os olhos daquele homem, naquela fração de segundo, não saem da minha cabeça. Quase todas as noites sonho com tiros, olhos e sangue. Passo e repasso cada fala, cada pensamento que me ocorreu durante os episódios vividos na floresta. Psicólogos do hospital psiquiátrico tentam me convencer de que eu não tive culpa. Ficou provado, posteriormente, que Timóteo colocara uma droga alucinógena no café, para nos confundir e controlar. Pelo menos, foi o que me disseram. Ou pensei ter ouvido alguém dizer.

Também a viúva do velho Ezequiel veio me visitar para dizer que eu ficasse em paz, pois todas as evidências apontavam para o fato de que Timóteo era mesmo um impostor e, possivelmente, a pessoa que matou seu marido e a menina Letícia. “Mais ninguém foi morto deste então”, ela disse, como se isso pudesse servir de consolo.

Psiquiatras me enchem de remédios para dormir, para acordar, para melhorar meu humor, para curar minha angústia. Mas não me perdoo por ter atirado e, como afirmei no começo deste depoimento, não espero compaixão. Sei que Deus pode tudo. Mas, se eu mesmo não me sinto digno de ser perdoado, por que então Ele haveria de me perdoar?

Eu não tinha o direito de julgar; e de matar, menos ainda. Ao atirar em Timóteo, em quem condenei desde o princípio a soberba, incorri em pecado ainda maior, agindo como se não soubesse que só Deus tem o poder de dar e tirar a vida, conforme razões que apenas Ele conhece e os planos que tem para o mundo.

E Timóteo, à sua maneira, não mentiu. Havia de fato um monstro na aldeia. Ou, se não existia, passou a existir, no momento em que me deixei cegar pelo ódio e apertei o gatilho. O monstro, o leitor já deve ter intuído, era eu. Estava dentro de mim.

Essa é a única certeza que tenho. Tudo o mais são remorsos que corroem minha alma e dúvidas que só mesmo o próprio Deus, no dia do derradeiro julgamento, poderá esclarecer em nossas mentes limitadas e confusas, se assim Lhe aprouver, revelando-nos enfim a Verdade única e insubstituível, com todos os devidos quens, comos e por quês.

“Há seis coisas que o Senhor odeia,
sete coisas que ele detesta:
olhos altivos, língua mentirosa,
mãos que derramam sangue inocente,
coração que traça planos perversos,
pés que se apressam para fazer o mal,
a testemunha falsa que espalha mentiras
e aquele que provoca discórdia
entre irmãos.”


Provérbios 6:16-19

Imagem de klimkin por Pixabay

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