Paixão pelas palavras

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Poucos sortudos no mundo conseguem trabalhar apenas em tarefas que lhes trazem prazer. Essa não é uma particularidade dos tempos atuais. Eliminando da equação aqueles que têm o objetivo claro de ganhar cada vez mais dinheiro e seguem construindo uma carreira para bater as próprias metas nesse sentido, a maioria das pessoas sem heranças possui empregos apenas para obter o ganha-pão e ter certo conforto.

Alguns, entre os quais me incluo, tentam aplicar à vida fórmulas próprias que combinem antídotos contra a monotonia com o pagamento de boletos. Mas a situação mais cobiçada é sempre a primeira: poder engajar-se em algo que seja vital, premente, urgente, que exija dedicação máxima, corpo e alma empenhados. Em resumo, desperte paixão.

Perdão por esse nariz de cera. A intenção foi introduzir o espírito que permeia o filme “O Gênio e o Louco” (The Professor and the Madman, 2019), em cartaz nos cinemas. Com dois atores poderosos em cena, traz a história, baseada em fatos reais, da criação do primeiro dicionário Oxford da língua inglesa. Quem aprecia o poder das palavras certamente vai gostar do longa-metragem.

Sob a direção de Farhad Safinia, Sean Pen vive o médico W.C. Minor, que comete um crime e é internado em um manicômio. Do lado de fora está o linguista James Murray (Mel Gibson), capaz de falar dezenas de idiomas, empenhado na compilação dos verbetes que comporão a obra.

Os acontecimentos têm início no ano de 1857. A tarefa de reunir todas as palavras possíveis já escritas em inglês, e suas respectivas definições, precisava ser feita “na unha”, já que não existia então nada parecido com um computador. Por uma conjuntura que é melhor conhecer ao assistir o filme, Dr. Minor passa a colaborar com o professor Murray. A parceria foi o fator que permitiu que o dicionário começasse a tomar forma. Ao final da projeção ficamos sabendo que a tarefa levou, no total, 70 anos para ser concluída. Diversas gerações de linguistas contribuíram.

O que nos interessa mais, no entanto, é justamente a paixão de ambos pelo trabalho. No caso, pelas palavras e a vontade de reuni-las de maneira que um grande número de pessoas pudesse ter acesso a elas. Os apaixonados são obsessivos, perdem a noção da realidade e embarcam em transes frenéticos quando se deparam com problemas mais intrincados. As definições de gênio e louco se misturam em certo estágio. Eles debatem, por cartas e ao vivo, significados de verbetes, desafiam um ao outro, e acima de tudo cultuam a língua, suas nuances e até as transformações nos significados, que inevitavelmente ocorrem ao longo do tempo. Movidos pelo sentimento de que colaboram em algo relevante, doam tudo de si para a construção do melhor dicionário possível.

A trajetória desses dois homens apaixonados vale a ida ao cinema. Tenha sido ou não a história real tão interessante como mostrada no filme, Penn e Gibson dão show. Acredito que a dupla pode já ter garantido o lugar na lista de indicados ao Oscar 2020.

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