As existências mínimas

VANESSA MARCONATO NEGRÃO (TEXTO) / PEDRO NEGRÃO (FOTO) – Pouco acredito nos calendários, tampouco nos relógios, muito menos em datas comemorativas. Mas acredito nas pessoas. No coração que pulsa, nas falanges do bem.

Como o abrigo do guarda-chuva num dia de sol quente, ainda encontramos acalento nas existências mínimas que nos atravessam. Alguém cede o lugar, dá passagem, deseja sinceramente que tudo dê certo, recusa a vaidade, abriga um animal abandonado, conversa com uma criança, troca o “eu” pelo “nós”, enxerga além dos limites do seu quintal.

Nossas mínimas existências percorrem caminhos do cotidiano e, na maioria das vezes, não a notamos. Ocupados nessa roda furiosa de afetação, deixamos de olhar para o lado e concordamos que está tudo perdido mesmo.

A pracinha do meu bairro, há anos em estado de abandono, voltou à vida por uma dessas existências mínimas. O senhor Maury, que, há pouco nos conhecemos (mas que já era nosso vizinho há mais de década), dedica seu dias a dar vida a praça. “Já são 20 mudas de árvores frutíferas”, ele conta orgulhoso.

Fez também um “restaurante de passarinhos”, onde agora descartamos as frutas maduras demais. Maury é um exemplo de existência mínima que faz o máximo pelas outras existências, e lapida o melhor nas pessoas, lhes abrigando à sombra das generosas árvores, que sempre estiveram ali, dispostas à gentileza.

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