A importância do texto no teatro

O poder é a escola do crime.

(Macbeth)

 

JOSÉ SIMÕES – Antes de começar este post é preciso afirmar que qualquer texto pode ser teatralizado. Isto é: todo texto literário  ou não pode ser levado à cena. Tal como  poemas, literatura,  fábulas, etc. Mas há uma forma de escrita específica para o teatro – o texto teatral.

Dito isto. É, também, necessário reiterar que o texto teatral é fundamental para a cultura teatral como um todo.

O texto teatral tem peculiaridades e características próprias que dialogam fortemente com o contexto com/no qual foi escrito. Os textos  dialogam com a memória e o imaginário de uma época e serão os artistas os responsáveis pela objetivação desse texto no aqui-agora da cena.

Para a Anne Ubersfeld, pesquisadora francesa de semiologia teatral, uma das principais características do texto teatral são a presença das lacunas ou dos espaços na estrutura do texto. Nesses espaços ocorrem a ação. Diferente do romance que ocorre a narração.

O texto teatral é, portanto, permeado por espaços a serem preenchidos pelos jogos de linguagem, pelas falas que se desdobram em camadas,  no corpo e no espaço, pelo não dito. Muito além do recitativo oriundo do teatro textocêntrico. Teatro no qual o fundamental era falar/ouvir/escutar o texto. Negligenciando, por exemplo, a espacialidade.

O texto teatral portanto  se realiza em cena, na presença dos atores e espectadores num dado espaço. É nesse momento que se pode observar se o texto funciona ou não para o teatro. Alguns textos não “acontecem” em cena. São narrativas desconectadas do tempo e dos espectadores. Noutras vezes são, por exemplo, um diário particular e privado, com poucas possibilidades de potencializar a espacialização na cena. Outros tem a estrutura narrativa espacial cinematográfica, distinta da do teatro. Não funciona.

Outro dia assisti a um espetáculo no qual a cada cena era adicionado um conflito e uma personagem. Assim, ao longo da peça, foram se somando conflitos e personagens (e os atores se desdobrando nos diversos papeis) para por fim, nos cinco minutos finais, tal qual a estrutura de uma novela tradicional, o autor tentar solucionar cada um dos conflitos individualmente. Não foi possível. Esqueceu, ainda, da resolução do não dito.

Noutro montagem o texto que assisti a proposta era uma mistura de estilos, com muitos efeitos, frases clichês, mas, fundamentalmente egóico. Uma bolha hermética. Ao final estavam todos felizes – o autor e os atores. O publico aplaudiu. Eu perguntei para um rapaz ao meu lado. Bom? Ele respondeu: a trilha é ótima! Outro me respondeu: são meus amigos. Gosto deles. Então…

A leitura de textos teatrais é fundamental para quem escolheu o teatro como atividade artística. É urgente que se leia e se conheça a boa dramaturgia. Se a escola não faz esta parte (são poucos os alunos que tem literatura dramática no currículo)  nós artistas precisamos preencher esta lacuna.

Os cursos de formação de atores espalhados pela cidade devem estimular a leitura dos textos teatrais. Leituras dramáticas são bem vindas!

Que tal organizar algumas leituras entre alunos e amigos na cidade? Que tal ler, por exemplo, Macbeth de Shakespeare?

Esta peça é uma ótima oportunidade para refletir, por exemplo, sobre a ganância, a traição e a culpa.

 

Tudo se passa na Escócia (século XI). Os generais Macbeth e Banquo voltam para casa após uma batalha vitoriosa.

No meio do caminho se encontram com três bruxas que profetizam que Macbeth se tornará barão e depois, Rei. Os filhos de Banquo serão os próximos soberanos.

Na sequencia Macbeth é nomeado Barão. A primeira parte da profecia aconteceu. Macbeth se anima com a segunda parte da profecia – torna-se rei. Mas é, justamente, a sua esposa Lady Macbeth que se anima muito mais com a possibilidade se tornar rainha.

Ela convence o marido a assassinar o rei e assumir o trono.

Após o assassinato tudo se transforma. A culpa, a traição e ganância não permitem que ele aproveite e usufrua do poder que conseguiu ao se tornar rei.

 

 

Você pode imaginar qual seria o desfecho da peça? Vale a pena a leitura.

Que tal organizarmos  leituras dramáticas e, também, oficinas de formação da escrita para o teatro nas cidades da Região Metropolitana de Sorocaba?

Ler o teatro.

PS. se precisar de sugestões de textos me escrevam.

 

 

 

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