Fantasmas norte-americanos te assombram. Fantasmas brasileiros nos comem.

FREDERICO MORIARTY – Vestido de baiana, Vadinho desce as ruas de Salvador em pleno domingo de carnaval. Repentinamente ele cai duro no chão. Dona Flor agora era viúva. Assim começa um dos mais belos romances brasileiros. Mas poucos o acham, afinal, Jorge Amado possuía um defeito incorrigível: vendia muito e o povo o adorava. Escritor no Brasil tem de passar fome, ser escorraçado do mercado e ter meia-dúzia de leitores.

Nos dias tenebrosos de hoje, Jorge Amado, o escritor comunista, seria mandado pra Cuba, além de ser acusado de ter inventado o kit-gay distribuído para 100 milhões de crianças no governo comunista brasileiro.

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Flor era professora de culinária e de outros afazeres domésticos. Casou-se com Vadinho ainda jovem. Um boêmio que vivia nas ruas atrás de putas, bebidas e carteado. Para casa Vadinho trazia dores de cabeça constantes e ficava a bolinar as alunas de Flor. A morte do marido foi recebida com alívio pela heroína da história.

Alguns meses depois, Flor conhece um boticário. Um homem sério, trabalhador, financeiramente estável e respeitador das damas. Teodoro era o oposto de Vadinho. Florípedes decidiu pelo amor seguro. Vadinho a fizera sofrer demais. Ela, agora, era uma senhora de família, senhora de classe média, senhora da tradicional família brasileira.

Dona Flor estava feliz, realizada, quase completa. O gênio Jorge Amado entra aí: transforma uma história banal num misto de realismo fantástico com muito bom humor. Vadinho, agora, é um fantasma. E o que faz a assombração? Vem comer Flor. Vem trazer-lhe o sexo, o prazer e o orgasmo. Tudo aquilo que o homem da moral e os bons costumes, Teodoro, jamais poderia lhe dar.

Vadinho não perde a mania. Dá prazer à Flor, a única que o vê, mas continua a bolinar as alunas. Flor se apaixona novamente e começa a ficar dividida. Ela, senhora de família, agora tem um amante. A solução para essa mulher forte e real é simples: Vadinho e Teodoro são legítimos maridos: um vivo e o outro no além.

Portanto, não há pecado, não há traição, não há infidelidade. Flor é a mulher do prazer; Florinda, a senhora de família. A dubiedade está presente em todos nós. Somos dois, dez, muitos, a limitação é típica das mentes pragmáticas e sem riqueza, como a dos norte-americanos.

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A terra do Tio Sam tem problemas com a morte. Os fantasmas deles só querem a vingança – ou proteger a propriedade. Vieram para nos assustar, botar paúra e, até, nos matar. Qual será o tamanho da neurose de um povo assim? Nossas Flores e Vadinhos só querem gozar.

Ô povo mal resolvido esse americano. Até nos filmes de traição deles a história termina em tragédia.

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Jorge Amado percebeu a alma brasileira como ninguém. Sem perder a consciência social, construiu grandes comédias de costumes. O livro é de 1966. Bruno Barreto fez a primeira (a única e boa) versão do romance. Dona Flor e seus dois Maridos contou com os excepcionais José Wilker, no papel de Vadinho, Mauro Mendonça, no de Teodoro e, claro, Sonia Braga, como Dona Flor.

Uma mulher forte, inteligente e que soube tirar dos seus dois homens tudo aquilo que ela precisava: respeito, estabilidade e sexo, muito sexo. A trilha sonora foi composta por Francis Hime e Chico Buarque, o comunista de plantão, o compositor que só existe por causa da lei Rouanet. O Brasil mudou. Para muito pior. Preferia o Brasil em que iríamos fazer um pecado rasgado, pois pecados não existem no lado debaixo do Equador.

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