Costelinha, Pudim, Paçoca, Laranja… A culinária inspira e alimenta apelidos Brasil afora

MARCO MERGUIZZO – Laranja. Costelinha. Amendoim. Moqueca. Paçoca. Pudim. Goiaba. Pastel. Picolé de chuchu. Mortadela. Pão com ovo. Tomate. Groselha. Cebola. Mexerica. No Brasil, o laranjal, ops, ou melhor, o manancial de citações e referências aos alimentos e à boa mesa é enorme e inesgotável. E isso não é de hoje. De forma recorrente, o universo culinário foi desde sempre fonte de apelidos curiosos, mordazes e pra lá de engraçados, tornando-se, muitas vezes, até mais populares e conhecidos do que os próprios nomes de batismo.

Provenientes da sagacidade do brasileiro, muitas dessas alcunhas são urdidas, em geral, na infância e pré-adolescência pelos colegas de escola, vizinhos de bairro e amiguinhos (da onça). Fruto, portanto, da criatividade (ou seria crueldade?) temperada com boa dose de ironia e picardia juvenis, um apelido acaba, por vezes, colando na gente como Super Bonder pelo resto da vida, não desgrudando de jeito nenhum.

(Vide o Blog do Paulo Cabra, ou melhor, do conhecido ator sorocabano Paulo Betti, nosso colega aqui, neste coletivo (se você não ainda viu o vídeo, divertidíssimo, em que ele conta a origem do apelido que lhe deram na meninice, clique aqui).

Em geral, engraçados, mas não raras vezes desagradáveis e deveras inconvenientes, tais codinomes tendem, por vezes, a virar chacota e, basta uma mera torcidinha de nariz, para se transformarem em pegação de pé e assédio verbal, o chamado bullying. Ou seja, se alguém fica zangado, tanto pior, daí é batata (olha aí, outro apelido masculino bastante comum: João Batata ou simplesmente Batata): a alcunha irá acompanhá-lo até os seus últimos dias.

Mas se alimentos e características físicas pessoais são fonte
de inspiração e matéria-prima ilimitada para expressões, codinomes e outras pechas, nos últimos anos os políticos brasileiros é que se tornaram um dos principais alvos dos chalaças de plantão. E são muitos os exemplos pelo Brasil afora.

Talvez um dos mais famosos e populares seja o engraçadíssimo “Picolé de Chuchu” (retratado, logo abaixo, pelo talentoso cartunista Cassio Manga), um apelido alimentar gastronomicamente esdrúxulo mas dado de forma bem humorada pelo jornalista José Simão, da Folha de S. Paulo, ao monocórdio, frio e anódino ex-governador paulista e candidato à presidente, em 2018, José Alckmin. O apelido grudou de vez no líder tucano e não saiu mais.

O ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, no traço do cartunista Cassio Manga:
o apelido do candidato derrotado à Presidência em 2018 pegou e não descolou mais

Presente na pauta nacional, a bola da vez nos últimos anos tem sido os “laranjas” da política. O termo, sozinho, pode ser empregado para definir alguém que assume uma função ou responsabilidade no papel, mas não na prática. É o sujeito que “empresta” o seu nome para uso de outra pessoa.

Por isso, todo candidato laranja é de fachada. Aquele que entra na eleição sem a intenção de concorrer de fato mas, por trás, tem objetivos inconfessáveis, como desviar e embolsar dinheiro de fundos eleitorais.

Ao emprestar seu nome para sair como candidato, ele na verdade faz parte de um esquema que beneficia um partido ou um único político inescrupuloso. Ou seja, o laranja é o sujeito responsável por ocultar a origem ou o destinatário de dinheiro ilícito e de origem incerta, especialmente em operações que investigam crimes de lavagem de dinheiro e corrupção.

A “NARANG”: ORIGEM, PREDICADOS NUTRICIONAIS E CULINÁRIOS

Das páginas e inquéritos policiais para a mesa, a laranja – e, não, o laranja – tem origem incerta, confundindo-se no tempo com a história da própria humanidade. Sabe-se apenas que a maior parte dos frutos cítricos é originária de regiões entre a Índia e o sudeste do Himalaia, onde eram chamadas originalmente de nareng ou narang. Até hoje, por sinal, podem ser encontradas por lá, e ainda em estado silvestre, diversas variedades de laranjeiras, limeiras, cidreiras, limoeiros e toranjeiras.

Alguns autores afirmam que os frutos cítricos, incluindo as apreciadas laranjas, teriam surgido no Leste asiático, de onde teriam sido levados para o Norte da África e sul da Europa, chegando às Américas por volta de 1.500. Porém, tanto no Velho Mundo como no continente americano, só na segunda metade do século 19 que o cultivo e a comercialização de diferentes variedades impulsionou seu consumo.

Laranjais espalharam-se pelo mundo sofrendo mutações e originando novas variedades. Em várias culturas asiáticas, a laranja era conhecida como “maçã do paraíso”, com inúmeros registros antigos sobre “os frutos da “Árvore da Ciência”.

BRASIL: MAIOR LARANJAL DO MUNDO


Parece piada pronta, mas o Brasil é o maior produtor mundial de laranja e do suco concentrado. A área total de plantio no país é estimada em 800 mil hectares. Produz-se anualmente cerca de 18 milhões de toneladas, sendo que o estado de São Paulo é o responsável por 74% desse mar alaranjado.  Estima-se que, de cada cinco copos de suco consumidos no mundo, três sejam produzidos no Brasil, que por sua vez detém 50 % da produção mundial.

A laranja é muito conhecida por ser fonte de vitamina C. Duas laranjas por dia fornecem a quantidade de vitamina C de que o organismo precisa. A forma mais eficiente de se beneficiar de todos os seus nutrientes é consumi-la fresca ou tomar seu suco. As principais e mais conhecidas variedades no Brasil são a laranja-baía, a seleta, a japonesa, a lima e a pera. Já as utilizadas na produção de sucos são a Valência, Pera-Rio, Folha-Murcha, Charmute e Hamlin.

Com múltiplos usos culinários, a laranja pode ser saboreada in natura, sob a forma de suco e drinques (alcoólicos e não alcoólicos), em saladas, saladas de frutas, além de protagonizar outras tentações, como bolos, tortas, doces, pudins, pães, sorvetes e caldas para cobertura.

O suco de laranja também é fantástico para temperar aves de todo tipo, como frango, pato, peru e chester, além assados e pescados grelhados. Na culinária brasileira é integrante obrigatório da tradicional feijoada. A casca da laranja também é usada em chás, e a parte branca desidratada da fruta, denominada de pericarpo, como tempero.

RECEITA
PUDIM DE LARANJA

(8 PORÇÕES)

INGREDIENTES

1 e meia xícara (chá) de suco de laranja natural. 1 xícara (chá) de leite. 3 ovos. 1 colher (sopa) de amido de milho. 1 xícara (chá) de açúcar

PREPARO

1) Aqueça o forno em temperatura alta, a 200 °C. 2) No liquidificador, bata o suco de laranja, o leite, os ovos, o amido de milho e o açúcar até obter uma mistura homogênea. 3) Despeje em uma forma de 20cm de diâmetro com furo no meio, caramelada, e leve ao forno em banho-maria por aproximadamente 50′. 4) Retire, espere esfriar, desenforme e leve à geladeira até a hora de servir.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional
especializado em gastronomia,
vinhos, viagens e outras
coisas boas da vida.
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