Incontáveis existências, infinitos universos (conto)

JOSÉ CARLOS FINEIS – Não vale a pena me aprofundar em detalhes sobre como eu morri. Basta dizer que, num momento, eu acelerava a moto para abrir caminho no frio noturno e, no instante seguinte, eu e a moto flutuávamos a mais de dois metros do chão, catapultados por uma lombada mal sinalizada.

Nosso voo durou não mais do que três ou quatro segundos, e seria lugar-comum dizer que pareceu uma eternidade, não fosse exatamente essa a sensação: a de que eu levitava demoradamente, como um astronauta a girar no espaço. Lembro de ver a moto que flutuava a meu lado, num gracioso bailado em câmera lenta, enquanto minha consciência era invadida por um misto de surpresa e decepção. A expectativa da queda só não era maior do que a angústia – lúcida e profunda – de perceber que, da maneira mais idiota possível, caíra numa armadilha da qual não havia a mínima chance de escapar.

A levitação foi interrompida pelo baque de corpo e máquina contra o solo, e, a partir de então, foi como num filme acelerado. Lembro do corpo a arrastar-se no asfalto como se pesasse duas toneladas, o barulho do capacete ralado pelo pavimento, os óculos retorcidos pregados na testa por dentro da viseira.

Quando acordei, ele estava ao meu lado. Eu, imóvel numa cama de hospital; ele, sentado na cama vizinha, com um camisolão que lhe chegava aos joelhos. Um pé sobre o colchão, outro sobre a armação de ferro, um braço que apoiava o corpo jogado para trás, outro livre para gesticular, agitando na mão algo que, sem óculos, me pareceu ser uma maçã. Tinha um ar bem-disposto, um sorriso de canto de boca que o fazia parecer irônico e falava pelos cotovelos.

– Olá, José. Pode me ouvir? Deixe que me apresente. Sou Felipe. Muito prazer. Caso não recorde, você caiu da moto e bateu a cabeça. Não foi nada bonito, rapaz. Mas tenho boas notícias.

– Minha mulher foi avisada? A moto estragou muito?

– Sua mulher está lá no hospital, chorando muito, coitada. Aliás, sua família inteira foi pra lá. A moto ficou destruída, mas – como dizer? – receio que não vá mais precisar dela agora.

– Como assim? Foi grave? Não vou mais poder andar? – perguntei, tentando levantar a cabeça e mexer os dedos das mãos e dos pés.

– É um pouco mais profundo que isso — disse ele, acentuando a palavra “profundo”. — Você, José… Bem… Como se diz popularmente na Terra, você morreu. Estamos conversando em um plano intermediário entre os múltiplos universos. Seu corpo está inerte na cama e já está bem frio, por sinal. E, antes que pergunte: isso que você pensa ser sua voz é uma projeção da sua mente.

“Por que o Criador deveria se contentar com um único universo? Quem cria um, cria muitos! Não se pede a um Criador: agora pare de criar!”

Fiquei um instante em silêncio. Ele olhava sorridente para alguma coisa no teto ou além dele, e só o que se podia ouvir era o ruído da maçã sendo devorada. Forcei os olhos, mas não consegui ver muita coisa. Era impossível saber se havia mais alguém no quarto que parecia estender-se por muitos metros para dentro da escuridão. Tampouco se ouviam barulhos de máquinas, ares-condicionados, aparelhos de inalação, carrinhos de comida e outros sons típicos de hospital.

– Por que você precisa comer essa maçã, se estamos em outro plano? – eu perguntei, irritado. Mas então, repassando o diálogo mentalmente, uma ficha caiu.

– Espere… Eu entendi bem? Foi imaginação minha ou você disse que tinha boas notícias?

– Pergunta número 1. Gosto de maçãs e estou com fome. Não é fácil este trabalho. Faz dias que estou em vigília, sem poder me ausentar, esperando por este momento. Pergunta número 2. Sim, tenho ótimas notícias. Você morreu, mas vai ter outra chance, se quiser. Na verdade, temos uma janela bastante curta – coisa de 15 minutos terrenos –, e você vai ter de tomar uma decisão importante.

– Mas eu não morri? O que um morto pode decidir?

– Nossa, como você é burro! – ele disse, largando a maçã no lençol e imitando com as mãos os tapa-olhos usados em cavalos e burros de carga. – O que você entende de morte, rapaz? Lhufas! Em termos de morte e múltiplos universos, você é um mané, um analfabeto. Você e toda a humanidade. Do ponto de vista da imensidão de coisas que vocês não sabem sobre esses assuntos – universos paralelos, múltiplas dimensões, existência e não existência, esse negócio que vocês chamam de física quântica –, o conhecimento de Einstein e o de um macaco-prego não são muito diferentes.

– Ahã. Me explique então, Felipe. É Felipe, certo?

– Eu digo Felipe num primeiro momento para não assustar as pessoas, pois parece nome de anjo da guarda, mas o nome pelo qual sou conhecido é grego. Me chamam de Chronos. Você deve ter ouvido falar de mim.

– Chronos! Você é um deus, então?

– Essa história de deus é coisa dos gregos. Digamos que alguns médiuns da antiga Grécia tiveram uma intuição muito vaga de quem eu sou, e completaram os espaços em branco com a imaginação. Aliás, que povo inventivo, o grego! Deram a mim prerrogativas de deus do Tempo, mas eu não sou tudo isso, não.

– O que é você, então?

Ele olhou para o teto, aparentando enfado.

– Hum. Monitor talvez seja a definição apropriada, pois é assim que sou chamado hierarquicamente. Embora eu discorde, porque minha função inclui muitas outras responsabilidades, além de apenas monitorar. Eu me definiria como um supervisor, no mínimo. Mas se querem me chamar de monitor, tudo bem, assim seja.

E o que tinha o monitor a me dizer, assim, de tão importante? Que decisão era aquela que eu devia tomar?

Felipe/Chronos me explicou que eu havia morrido neste universo, mas poderia continuar a viver basicamente a mesma vida, sendo “praticamente” eu mesmo, em outro universo “vizinho” ao nosso. De acordo com ele, estão certos os cientistas que apregoam a existência do multiverso – infinitos universos, que coexistem paralelamente. E, mais: não são cem, nem mil, nem um milhão. São mesmo infinitos. Disse, porém, que não há uma sincronicidade entre eles. Existe uma pequena diferença – “coisa de mili, mili, mili segundos” – entre o tempo de criação de cada universo, o que os leva a coexistir com um descompasso cronológico progressivo, quase imperceptível entre os universos mais próximos, porém descomunal entre os mais distantes.

Assim, pelo que consegui entender naquele estado de confusão mental em que estava, a história de cada pessoa ocorria em tempos ligeiramente diferentes em cada universo, como se fôssemos corredores em infinitas raias de uma pista. Em algumas eu estava no berço; em outras, sentado nas carteiras escolares; em outras, dava a partida na moto, e em outras voava pelo ar. Nos infinitos universos, a história da humanidade e de cada pessoa em particular sofria pequenas ou grandes alterações, porque as variáveis podiam mudar de maneira sutil ou drástica, com resultados pouco ou muito diferentes.

– Em muitos desses universos, seu pai não transou com sua mãe, e você nem sequer existe –, exemplificou o monitor.

– Não sei se consigo entender tudo isso. É muita coisa pra cabeça. Mas que decisão é essa que eu preciso tomar?

– Lembra quando você tinha quinze anos e quase se afogou quando o bote em que estava afundou em um lago?

– Sim, claro. Foi por um triz.

– Pois é, então: num desses universos paralelos, você ficou alguns trizinhos a mais debaixo d’água e foi resgatado quase sem vida. Neste momento, você está em coma num hospital e sua mãe faz incontáveis orações para que você fique bom. Mas o dano, por causa desse tempo a mais sem oxigênio no cérebro, foi irreversível e sua memória ficou apagada como a de um bebê zero-quilômetro. Não pergunte como eu sei essas coisas. O monitor tudo sabe, é um olho que tudo vê… E como você vai ficar com a mente vazia na outra dimensão, existe, segundo as regras universais, a possibilidade de transferir sua consciência desse corpo que acabou de morrer no acidente de moto para o corpo daquele outro você, que está desmemoriado por causa do afogamento. E você continua sua vida a partir de onde a dele parou. Em termos mais concretos, como vocês são basicamente a mesma pessoa, já que viviam em universos muito semelhantes, seria para você como voltar a ter quinze anos.

– E minha mulher, meus filhos nesta vida?

– Esqueça. Sua mulher está viúva e seus filhos, órfãos. Mas eles vão ficar bem. Pense com carinho neles e vá para a outra dimensão. Cara, você não imagina como é incrível essa experiência. Eu fico excitado cada vez que transfiro uma consciência daqui pra lá, de lá pra cá, mesmo sendo tantas as pessoas e infinitas as dimensões! Meu olhar perpassa essas incontáveis existências nesses infindáveis universos, desde a eternidade e por toda a eternidade, em busca de casos como o seu. Não fossem essas situações incríveis em que os universos se cruzam, minha vida seria um tédio literalmente sem fim.

– É muito louco tudo isso.

– Parece louco, não é? E viver uma única vida, ter filhos, trabalhar, bater a cabeça no asfalto e morrer, não lhe parece louco também?

– Eu sempre imaginei que houvesse algo além da vida, mas nada como isso.

– Pois é, meu amigo motociclista. Seus médiuns e profetas não têm uma visão muito nítida das coisas. Eles enxergam, quando muito, um ou dois universos além daquele em que estão. E veem tão bem quanto você me enxerga agora, sem óculos.

– E por que tantas dimensões, tantos universos?

– Me diga: se você tivesse o poder de criar cores, criaria só uma? Só o azul, pra ficar olhando eternamente para o azul? Ou criaria aquela escala imensa de cores do Photoshop? Quantas cores são mesmo? Dezesseis milhões de cores! Nuances que seus próprios olhos humanos não são capazes de perceber. Se um humano limitado não se contenta com poucas cores e cria logo 16 milhões delas, por que o Criador deveria se contentar com um único universo? Quem cria um, cria muitos! Não se pede a um Criador: agora pare de criar!

– Eu vou levar lembranças desta vida?

– Elas estarão no fundo do seu subconsciente. Surgirão para você como intuições.

– E qual o sentido disso tudo? Aonde isso tudo nos leva?

Chronos, com ar de enfado, mordeu meia maçã com uma única dentada e, falando com a boca cheia, encerrou a conversa:

– Não sei. Só sei que é assim!

Depois, apontando para um relógio de pulso imaginário, exigiu que eu decidisse.

– Se você for para a outra dimensão, vai ter outra chance. Vai sair do coma com a idade de quinze anos. Poderá refazer sua família, se quiser, e, se aprender a não correr tanto com a moto, evitar acidentes idiotas como esse em que se meteu.

– E se eu não for?

– Aí vai morrer e-fe-ti-va-men-te – ele disse, enfatizando a gravidade que pesa sobre essa palavra. – Passar a régua, entende?

– E o que acontece se eu morrer efetivamente?

– Você já está querendo saber demais. Isso você tem de pagar pra ver, meu amigo, porque se eu lhe contar, vai afetar sua decisão. E eu sou um monitor, não um coach para assuntos metafísicos, entende? Não é essa minha função. Nós monitoramos e fazemos as interações entre os universos. Anunciações são com os anjos.

– Parece que eu não tenho nada a perder.

Pela primeira vez, ele ficou totalmente sério e olhou fundo nos meus olhos.

– Pode ser que sim, pode ser que não. De qualquer forma, um dia você vai descobrir.

E mordeu outra maçã que tirou de trás de minha cabeça, como um mágico.

Pedi-lhe um tempo para refletir. Pensei com carinho em minha família. Recordei passagens de vida. As mágoas, as recusas, os remorsos haviam escoado de meu coração e tudo o que sobrara era amor, um amor imenso, pleno, absoluto, repleto de gratidão e felicidade. Agradeci a Deus por todos os dias vividos, menos aqueles em que perdi a cabeça e magoei alguém. Uma emoção forte subiu pelo meu estômago e fez meu coração (imaginário, penso eu) pulsar com força. A emoção continuou subindo e transbordou em lágrimas. Eu havia tomado uma decisão.

Olhei para o lado e Chronos estava ali, imóvel como uma estátua grega, olhos fixos em mim.

Quando nossos olhos se encontraram, ele pareceu adivinhar minha resposta. Estava sério.

– Você não vai, não é mesmo?

– Quero passar a régua, como você diz.

– E posso saber por quê?

– Vou responder com um poema do Manuel Bandeira. Posso?

– Manuel Bandeira! Esse nome é conhecido… Sim, sim. Declame pra mim. Eu amo Poesia!

E eu então recitei, de memória:

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Poema: “Consoada”, de Manuel Bandeira

Imagem de Free-Photos por Pixabay

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