Lição de filho para pai

NILSON RIBEIRO – Por quase todas as manhãs tenho o privilégio de ficar sozinho algumas horas com Arthur, hoje com seis anos. Este episódio aconteceu quando meu pequeno ainda tinha menos de dois anos. Estávamos no sítio onde moramos. Como outras vezes, naquela manhã só eu e ele. Mônica dá suas aulas nesse período e esse é meu “turno” com Arthur.

Isso é bom de várias maneiras. Primeiro, posso sentir como é verdadeiramente desafiante tomar conta de um garoto saudável e cheio de energia, ainda mais num sítio, onde o espaço e as possibilidades alimentam a imaginação – que em Arthur sempre foi artigo farto. Der tal forma que passar algum tempo com Arthur é privilégio para qualquer um, tamanha a criatividade e disponibilidade para a vida que esse garoto tem.

Numa dessas manhãs, a brincadeira escolhida por ele foi “puxar trator”. Arthur sempre foi apaixonado por tratores, caminhões, ferramentas, mato. Graças à mãe, também apaixonada por tudo que lembra sítio ou fazenda. Pois bem. Arthur escolheu seu trator e ficou me olhando. Saí andando. Nada dele me seguir. “Vamos, Arthur!” Nada. Arthur me olha e solta: “Tratoi… papai…” Demorei um segundo para entender que ele queria que eu também puxasse um trator.

Coisa muito simples que a lógica adulta demora a perceber. Brincadeira de um é chato pra caramba! Então, encontrei o outro trator e saímos pelo campo. Arthur puxa o trator dele como se andasse pelas estradas do mundo todo. Escolhe os caminhos com pedras, mato alto, pequenas saliências, buracos. E eu, que não estou a fim de sujar o tênis, escolho os caminhos mais limpos, menos complicados.

Arthur vai pela lama, pelas poças, então para, recolhe algumas pedras na caçamba. Pula novamente nas pequenas poças, vai pelo trajeto mais elameado. Para de novo e despeja as pedras em algum buraco no caminho. Olha para mim e sorri. E recomeça a brincadeira. E eu ali, todo impecável, preocupado com meu tênis, minhas meias, meu ideal asséptico de adulto bundão.

De repente percebi: Estou sendo convidado pelo meu filho para participar do universo dele. Aprender com ele. Estar de verdade no mundo dele. E venço meu medo infantil de me sujar. Topo. Entro de verdade na brincadeira. E assim redescubro a minha própria criança, muito viva e certamente cansada de esperar para poder brincar novamente.

E assim redescubro a minha própria criança, muito viva e certamente cansada de esperar para poder brincar novamente “

Então, já não escolho mais os caminhos fáceis. Eu ando ao lado dele pela lama. Meu trator anda junto ao dele, pelas poças, pedras e buracos. Capota, fica de pneus para o ar. Escorrego e caio de bunda na lama. Meu tênis agora é marrom. Arthur ri alto do acidente. Sento na poça e rimos juntos. Agora sim é uma brincadeira de crianças. E eu não quero estar em outro lugar – ou tempo –  no mundo. O perfeito milagre da vida está acontecendo aqui e agora, com a ajuda do meu pequeno Arthur.

Bom dia, Vida!

nilribeiro63@hotmail.com

Nilson Ribeiro é Psicanalista

#umanjopassouporaqui

#coletivoterceiramargem

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