Mãe é ninho

RITA BRAGATTO – Já faz quase um ano. Desde que saí do seu ventre, esse é o maior tempo que ficamos longe, mamys. Não tem sido fácil essa distância física, eu sei. Sabe aquele abraço que quase me quebrava os ossos e que, por isso, eu sempre reclamava? Pois, bem. Tô morrendo de saudade dele e de tantas outras coisas que fazíamos juntas. Cantar no carro. Chorar na varanda da tua casa. Fazer a prece antes do almoço. Tomar aquele caldo de cana sentadas embaixo da árvore. Ah, quanta coisa boa! Quantos momentos simples, mas tão ricos de amor!

Eu também sei que é mais difícil pra senhora do que para mim. Dizem que é sempre pior para quem fica do que para quem vai, né? Quem permanece, fica com a presença da ausência. Fica com o coração apertado com as incertezas que sabe o outro está vivendo. Fica com a sensação de impotência diante de uma emergência. Ter uma filha como eu, que está do outro lado do oceano, sem endereço certo, não é fácil não, eu sei. Mas a senhora está dando conta direitinho!

Nosso último beijo, antes de eu embarcar.

Ainda assim eu quero te tranquilizar, mamys. Confie. Confie em toda a base que me deu. Não só nos ensinamentos que me passou, mas no DNA que me transmitiu. Somos uma linhagem de mulheres fortes. Verdadeiras lobas. Enfrentamos a vida, com seus altos e baixos. Já passamos por muitos momentos difíceis. Dores. Perdas. Mas nunca tivemos de nos submeter a absolutamente nada que nos desonrasse. Não temos medo do trabalho. Das dificuldades. Das tristezas. Da solidão. A gente aguenta o tranco – e ainda com um belo sorriso no rosto. Temos muita alegria de viver!

Confio no DNA que me transmitiu.

Com essa distância física crescemos tanto como mãe e filha, não é mesmo? Cada uma foi para o seu lugar. Eu não estou mais tão presente em suas decisões diárias. E a senhora se fortaleceu. Está gigante. Forte. Tem mantido sua cabeça em plena atividade. Aos 78 anos, está cuidando direitinho da sua vida. Tem muita saúde. Toma, religiosamente, vinho enquanto muitos, na sua idade, estão entupidos de remédio. E sempre tem uma palavra de fé pra me oferecer quando eu fraquejo por aqui. A senhora me ensinou que quem cuida de nós não dorme e isso me sustenta em qualquer situação!

Do meu lugar de filha, passei a olhá-la sem julgamento. Hoje, consigo ver a mulher que existe por trás dessa mãe. A filha que honrou e cuidou dos seus pais até os últimos dias. A esposa dedicada. A mãe amorosa. a amiga sempre disponível. E a amo tanto! Tenho tanto orgulho de quem a senhora é! E, diariamente, a agradeço por me permitir ser quem eu sou. Por me amar sem restrições. Por respeitar minhas escolhas. Mesmo quando penso e ajo tão diferente da senhora.

Sei que a ausência das suas chamadas de vídeo (foram somente três em um ano) não são apenas falta de conexão; de uma boa da internet. Essa desculpinha é bem esfarrapada, mas eu a vejo como mais uma prova do seu amor. Eu sei que é duro pra senhora me ver, ao mesmo tempo tão perto e tão longe. Eu sei que é difícil ouvir minha voz e não me abraçar. Eu sei, mamys. E eu a entendo. Esse é o seu jeito de lidar com a situação. Quando a gente se olha, bem olhos nos olhos, não há segredos, né? Só por áudio é mais fácil de manter o controle. De mostrar que está dando conta da sua vida. Sei que faz isso porque entende que é importante eu estar aqui. Isso é o verdadeiro amor de mãe. Eu vejo tudo isso. Eu sinto. E sou muito grata.

Eu não tive filhos e, por isso, não faço a menor ideia do quanto isso tudo seja difícil como mãe. Como é profunda essa relação. Mas, outro dia, a senhora me deu uma boa noção. Em nossa conversa, falei que não te contava tudo o que me acontecia pra não te deixar preocupada. Mais uma vez, fui surpreendida com sua sabedoria: “você não precisa me dizer. Eu sinto no meu corpo quando algo não vai bem com você. Eu apenas respeito o seu desejo de não me contar.”

Ouvir isso me quebrou as pernas, mamys. Mais uma vez, eu pensava que era grande. Que podia poupá-la. Mas eu estava errada. Sou sua filha. Diante da senhora serei sempre pequena. E, com mais essa lição, aprendi que eu posso te contar absolutamente tudo e que, independente da minha idade e da distância, terei teu colo. Mãe é ninho.

Aguenta mais um pouco, dona De. Logo, logo estaremos juntas em algum lugar desse mundão. E vamos celebrar todas as nossas conquistas, nossas bênçãos – que não são poucas! Te amo! Nem um oceano nos separa!

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
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