O Brasil atual é tão ‘Horrorshow’ que qualquer pitanga do mato nos tritura

FREDERICO MORIARTY – Johan Cruyff desce pela avenida Marinho Chagas, o então lateral esquerdo do Botafogo, e cruza para Neeskens anotar o primeiro gol neerlandês com 5 minutos de jogo. O Carrossel Holandês começava a passear sobre a poderosíssima seleção brasileira (campeã de três das últimas quatro copas do mundo e terra do maior fenômeno da história do futebol, Pelé).

Rinus Mitchell, o técnico dos Países Baixos, utilizara a base do Ajax Amsterdã, então tricampeão invicto da UEFA  (hoje, Xampions  Ligui). A Holanda praticava o revolucionário “futebol total”, no qual os jogadores não tinham posição fixa, ocupavam todos os espaços vazios e atacavam em círculos.

Dias antes da partida, o técnico brasileiro, Zagallo, um lambe botas da ditadura militar, que dirigiu a seleção de 70 apenas porque o ditador de então não queria o comunista João Saldanha à frente, proferiu uma de suas tantas empáfias. “Quem tem de estudar e aprender futebol conosco são os holandeses”.

Tomamos um vareio. Dois a zero, fora as cinco defesas espetaculares do arqueiro Leão. Os brasileiros, perdidos em campo, partiram pra violência. Luiz Pereira tornou-se o primeiro brasileiro expulso em copas. Marinho Perez,  sorocabano da gema, não foi expulso por milagre. Tempos áureos em que os dois defensores saíram das fileiras do E. C. São Bento.

Marinho Chagas, cansado de correr atrás de Cruyff, apelou: cuspia, falava palavrão e chegou até a enfiar o dedo no fiofó do craque holandês, que impassível, apenas dedilhava seu maravilhoso futebol, como um Van Gogh de chuteiras.

holanda 3

Daí a gente se depara com a bandeira tricolor do país adversário (azul, vermelho e branco numa representação do equilíbrio entre os três estados) e olha para a divina camisa da seleção de Resembrink e observa aquele laranja forte, pulsante, quase solar. Simples, a KNDV (Federação Neerlandesa de Futebol) homenageia a família real do país,  a dinastia de Orange-Nassau, com seu brasão alaranjado.

E o temido Leão Negro das camisas? Vem de Carlos V, o imperador sacro-romano-germânico que em 1515 derrotou os espanhóis na Guerra dos 80 anos.

A Holanda de 1974 — que triturou e fez suco do Brasil — era a Laranja Mecânica. Alusão ao filme de Stanley Kubrick, este por sua vez, baseado no romance homônimo de Anthony Burguess The Clockwork Orange. O livro de 1962 me caiu nas mãos nos anos 80. Burguess inventou cerca de 300 palavras na Distopia futurista. Muitas delas retiradas do russo (tempos de Guerra Fria).

Alex era um jovem de classe média baixa, fanático por duas coisas: a ultraviolência (Horrorshow, na linguagem “Nadset”, como queria o escritor), e Ludwig Beethoven, em especial a Nona Sinfonia. Alex liderava uma gangue de jovens que se divertia destruindo bens públicos e privados, espancando idosos ou mendigos, assaltando casas e estuprando moças.

As cenas do filme clássico de Kubrick (falecido há exatos 20 anos) se misturam com as passagens do livro, numa leitura que sempre deve ser dupla, para nos causar sinestesias sensoriais.

laranja 2

Os drugues (os membros da gangue) de Alex adoravam tomar o moloko, mais uma das contradições inerentes à alma humana. Os paradoxos são muitos: Alex é o mais pérfido e autoritário dos quatro drugues, mas ao mesmo tempo é apaixonado por Beethoven. Os jovens violentos se embebedam de leite. Após o reformatório, um dos jovens torna-se policial e exerce o seu sadismo sobre um frágil Alex.

Após um homicídio decorrente de um assalto e um estupro de uma mulher na casa de um escritor que fica paraplégico após os ataques, a gangue é presa. Alex, o líder, irá fazer parte de um experimento social de um novo governo de extrema-direita britânico. Utilizando métodos behavioristas, o jovem será bombardeado com imagens de violência sem fim, assassinatos, guerras, estupros coletivos, etc. Sempre ao som do seu prazer máximo: Beethoven.

Ele é espancado, humilhado e seus glasses são tratados à fórceps para jamais se fecharem. Após semanas de tratamento, Alex estava curado. Assim como Zagallo, ele se ajoelha em frente ao diretor do projeto social e lambe-lhe as botas (e as solas destas).

“Estava curado”. A lavagem cerebral comportamental libertara sua alma violenta. Alex volta ao mundo como um cordeirinho.

Por uma coincidência do destino vai parar na casa do escritor, que o abriga de uma chuva torrencial, sem saber que ele era o estuprador e assassino que o colocara numa cadeira de rodas.

No filme, a descoberta se dá quando Alex canta Singing in the Rain no banheiro. A curiosidade fica por conta de como funciona a cabeça de um criador: Kubrick perguntou a Malcom MacDowell (o intérprete de Alex) qual música ele sabia cantar e o ator citou o clássico do filme Cantando na Chuva. Inventou seu final. Alex não estava curado, como queriam os homens do Estado. Homens não são ratos de laboratório.

Em tempos sombrios como o nosso, a releitura de Laranja Mecânica é essencial. Nossos “Alexis” viraram presidentes, ministros, deputados. Nossa educação “sem partido”, com civismo barato e pitadas de filmagens indevidas ao Grande Irmão, nos remete aos métodos fascistas e behavioristas. Mesmo no futebol, nossa bola não assombra mais. Hoje qualquer pitanga do campo nos tritura em gramados.

Singin In the Rain. Clockwork Orange

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