Comédia de D’Abreu Medeiros revela uma Sorocaba desconhecida

GERALDO BONADIO – A um primeiro exame, as pessoas imaginam que a ficção nunca tem nada a ver com a realidade. Às vezes, não; às vezes, sim. Um mergulho nas poucas páginas de Pai contra mãe, conto que o escritor negro Machado de Assis publicou, primeiro na imprensa fluminense e depois no livro Relíquias de Casa Velha, desnuda as mazelas da escravidão de modo muito mais contundente que o mais rigoroso dos estudos acadêmicos sobre a nefanda instituição.

Aquele tal de D’Abreu Medeiros, de quem aqui falei na semana anterior, na leveza de sua comédia musicada Na Feira de Sorocaba apresenta a seus leitores uma Sorocaba desconhecida, revelando sua intimidade naqueles recuados tempos e – pasmem os estudiosos – explicando sem nenhum ranço didático, as mudanças pelas quais, cem anos após o seu surgimento, os arranjos produtivos, logísticos e creditícios sobre os quais a feira de muares se alicerçava, melhor que os emproados cartapácios dos historiadores.

No imaginário do sorocabano superficialmente informado sobre o que foi tropeirismo, a cada ano, os tropeiros de tropa solta selavam suas montarias e cavalgavam até o Rio Grande, onde as mulas eram criadas e tangiam-nas, de pouso a pouso, até Sorocaba.

Puro engano!

A bem da verdade, boa parte das mulas que aqui se vendiam – em especial as mais altas e de melhor porte – eram produzidas na Argentina. Os birivas do Planalto Médio gaúcho, muitos dos quais de origem sorocabana, as adquiriam dos criadores do lado de lá da fronteira e traziam-nas até Cruz Alta, onde invernavam.

Ali, eram elas vendidas ainda não aos sorocabanos e sim aos paranaenses. Lembre-se aqui que até 1853 o Paraná haviam sido a 5ª Comarca da Província de São Paulo.

Os paranaenses conduziam aqueles semoventes até aos arredores nossa cidade e é aí que os sorocabanos entravam em cena, como proprietários de vastas extensões de terra nas quais prosperava a lucrativa atividade do aluguel de invernadas, providas de excelentes pastagens e aguadas.

Esses campos sujos, ou seja, pontilhados aqui e ali por capões de pequenas árvores, se estendiam por vários dos atuais municípios de nosso entorno: Araçoiaba da Serra, originariamente Campo Largo de Sorocaba, Capela do Alto, Tatuí e assim por diante. Em tais espaços, as mulas se refaziam das canseiras, ganhavam peso e reconquistavam o porte original que garantia preços mais altos aos vendedores.

Banco era coisa com que ninguém sonhava no Brasil profundo daquelas eras. Os compradores que vinham adquirir mulas em Sorocaba traziam o dinheiro nas guaiacas e gastavam-no todo na aquisição dos muares xucros. Ocorre que, para saírem daqui, rumo aos locais em que iriam utilizar ou revender os semoventes – a feira local alimentava várias outras pelo Brasil, como as de Feira de Santana (BA) e Caxias (MA) – tinham antes de recolher uma batelada de impostos e contribuições no registro que os arrecadavam, junto à ponte.

Os sorocabanos endinheirados logo se deram conta de que podiam aumentar suas fortunas, sem as canseiras das estradas, financiando o pagamento de tais impostos. O conhecido Almanaque de Luné para 1873, listando os profissionais da cidade, não relaciona um só tropeiro – mas lista mais de uma dezena de agiotas.

O registro aceitava o pagamento dos impostos com uma letra de câmbio, desde que avalizada por um deles. Ao chegar à feira, no ano seguinte, o comprador de tropas resgatava a letra, entregava-a ao avalista e recomeçava a história.

Uma das muitas coisas importantes de Na Feira de Sorocaba, de D’Abreu Medeiros, é exatamente mostrar que os capitalistas da cidade – a peça se inicia no escritório de um deles – eram a Crefisa da época.

Esse texto de D’Abreu Medeiros chegou até nós graças a três santos protetores da memória sorocabana. Um deles, Adolfo Frioli, que enquanto teve sob seu comando o Museu Histórico Sorocabano, ali preservou um dos raríssimos exemplares sobrantes da comédia, impresso em 1862, no Rio, pela Laemmert. (Aqui uma curiosidade: durante o Império, as peças teatrais, antes de serem levadas à cena, precisavam ser liberadas pela censura, que funcionava na Corte. Era mais fácil, para o autor, imprimir lá o texto de sua obra – e foi o que D’Abreu fez.) Um segundo exemplar de sua comédia existe, ou existiu, na Biblioteca Nacional. Figurava no catálogo antigo, mas é inencontrável no novo. Há muito tempo encontrei um outro exemplar, ainda não digitalizado, na Biblioteca da SBAT.

O segundo desses santos foi o querido e saudoso amigo Rogich Vieira. Ele o copiou, numa viagem que, com seu dinheiro, fez à sede da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Depois, datilógrafo paciente e perfeccionista que era, verteu o texto para o português contemporâneo.

Falecendo Rogich, teve a família o bom senso de confiar a guarda de suas pesquisas ao outro componente da tríade protetora da memória cultural da cidade: o nunca suficientemente louvado José Rubens Incao. Este, além de comandar as atividades de uma das melhores bibliotecas infantis do Brasil, nela achou espaço para preservar, adequadamente, o legado bibliográfico e a produção intelectual de importantes figuras da nossa vida cultural. Há muito se faz merecedor da comenda Ademar Guerra, instituída pela Câmara para exaltar os que trabalham pela nossa cultura.

Para celebrar o bicentenário de D’Abreu Medeiros e os noventa anos do pesquisador Rogich Vieira, três instituições das quais Rogich Vieira fez parte – a Academia Sorocabana de Letras, onde instituiu a Cadeira que tem D’Abreu como Patrono; a Loja Maçônica Fraternidade Acaciana, da qual foi um dos irmãos mais atuantes, e o Sorocaba Club – que passa por um vigoroso renascer, graças a uma equipe de notáveis sorocabanos, encabeçada pelo também acadêmico Benedicto Maciel de Oliveira Filho -, somaram esforços e, sem um só tostão de dinheiro público, promoveram uma caprichada reedição fac-similar do “Na Feira de Sorocaba”, acrescida do texto em português corrente, elaborado por Rogich Vieira, além de um conjunto de artigos complementares.

O livro será lançado, em sessão festiva, no Sorocaba Clube, dia 7 de junho, a partir de 20 horas. A edição, com mais de 200 páginas, está sendo feita em pequena tiragem, em grande parte “carimbada”. Algumas dezenas de exemplares serão destinados às bibliotecas das principais instituições de pesquisa histórica, atuantes no Brasil ou no exterior.

Interessados em adquirir antecipadamente um dos exemplares sobrantes, ao preço de lançamento de R$ 40,00, podem reservá-lo pelo e-mail ilsavioli@hotmail.com. Receberão as instruções para pagamento e poderão retirar o livro, na sessão de lançamento ou, se preferirem, recebê-lo pelo Correio. O volume é enriquecido com fotos inéditas, de arquivos particulares, e, por especial gentileza do designer Lawrence Marangoni, tem, na capa, a reprodução de belíssima tela do artista plástico Ettore Marangoni.

Um comentário em “Comédia de D’Abreu Medeiros revela uma Sorocaba desconhecida

Adicione o seu

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: