Da idade antiga aos dias de hoje, as aves povoam a imaginação humana, o mundo e o rio Sorocaba

SANDRA NASCIMENTO – Talvez por saberem voar e provocarem a ideia de liberdade, as aves sempre causaram um grande encantamento nos homens. Várias culturas antigas – a egípcia, a grega, a romana, a suméria – as elegeram como divindades ou as destacaram como representantes de ideias ou conceitos, tornando-as, muitas vezes, criaturas lendárias e até míticas, como é o caso da Fênix, pássaro da mitologia egípcia, conhecida por eles pelo nome de Benu. Ela morria várias vezes, transformava-se em ave de fogo e sempre ressurgia das cinzas totalmente renovada, representando a imortalidade, os ciclos da natureza e a alma de Rá, o Deus Sol.

Descrita como uma ave semelhante a uma cegonha com garras de pavão, de plumas douradas e vermelhas, a Fênix teve sua lenda incorporada por várias culturas. Para os gregos, ela significava o triunfo da vida sobre a morte e o eterno recomeçar. Os romanos a elegeram como metáfora para distinguir seu império considerado imortal. Na China antiga, a Fênix simbolizou virtude, felicidade e inteligência. Na arte cristã, a Fênix renascida tornou-se símbolo da ressurreição de Cristo. E, recentemente, o mito ganhou fôlego aparecendo na série de livros e filmes Harry Potter (J.K. Rowling), em videogames e séries de TV.

Antigamente, também o mal era representado com garras e asas e, por isso, muitas criaturas mitológicas obscuras aparecem como aves. Entre elas, estão as harpias gregas – seres voadores com rosto e seios de mulher, que cumpriam castigos impostos por Zeus –, e o Anzu — pássaro extremamente grande que pertenceu à mitologia suméria, com cabeça e asas de águia e corpo de leão, cujo voo provocava tempestades de areia e o grito poderia movimentar toda a Terra.

A Fênix aparece em várias culturas da Antiguidade, com diferentes significados

Mito ou realidade, as aves sempre existiram em grande quantidade, causando fascínio e mexendo com a imaginação humana. As espécies compreendem um grupo bem extenso. Atraem pela beleza, pelo canto e pelo modo com que se adaptam à vida.

Na história da evolução, as aves desenvolveram-se a partir dos répteis e conquistaram várias modificações sofisticadas. São os únicos animais a possuir penas, que, leves e flexíveis, protegem a pele. O corpo é aerodinâmico e consegue manter a temperatura regulada pelo próprio metabolismo num processo chamado homeotermia (1). Elaboraram a voz e a audição. Seus membros anteriores deram origem às asas que lhes permitem chegar onde outros animais jamais alcançarão.

Segundo o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO), o Brasil é o segundo país do mundo em número de espécies de aves, registrando 1919 espécies. O primeiro seria a Colômbia. Em Sorocaba, a obra Biodiversidade do Município de Sorocaba (2014), realizada por alunos da UFSCar, Unip, Uniso e PUC, registra mais de 280 espécies de aves, número que representa 35,3% das espécies do Estado de São Paulo e 15,3% do total no país.

Entre elas, estão o martim-pescador-pequeno, a Biguatinga, o sabiá do campo, a garça-branca-pequena, o bico-de lacre, o anu-branco, o urubu-preto e o maçaricão, destacadas nas fotos abaixo. Todas elas foram encontradas e fotografadas no percurso do rio Sorocaba, dentro dos limites da cidade.

“Deus fez o céu para justificar os pássaros.”

Mia Couto, escritor e biólogo de Moçambique

Martim-pescador-pequeno

O martim-pescador-pequeno vive próximo de rios e lagos, em florestas ou áreas abertas. Mede até 19 centímetros. Um penacho, destaca-se na cabeça. Possui uma faixa branca ligando o bico à nuca. No macho, o peito é castanho. Já a fêmea exibe no peito uma listra verde e larga que se estreita. Alimenta-se de peixes e crustáceos. Para caçar (pescar), gosta de pousar em galhos ou numa rama próxima à água. É considerado pássaro mitológico e já chegou a ser citado em obras do filósofo Aristóteles e de outros autores da antiguidade. Chama-se também “ariramba-pequeno” e “martim-cachaça”. A ave da foto foi vista em frente ao velho prédio da Cianê, situado na Avenida Dom Aguirre, lado direito do rio, em Sorocaba. Nome científico: Chloroceryle americana.


Biguatinga

Ave aquática, o biguatinga mede cerca de 88 cm. Possui o pescoço fino e longo, bico pontiagudo para fisgar peixes e os pés têm membranas natatórias. O macho é negro brilhante e a fêmea apresenta cor creme no pescoço, peito e dorso. Gosta de pousar com as asas esticadas e geralmente é observado solitário ou um casal. Se alimenta de insetos e crustáceos e tem dificuldade para levantar voo na água. A ave da foto, uma fêmea, foi localizada no bambuzal da avenida Dom Aguirre, margem direita do rio, na região do centro. Nome científico: Anhinga anhinga.


Sabiá-do-campo

O sabiá-do-campo gosta de viver em ambientes abertos. É encontrado em campos, praças e jardins. Adapta-se fácil a grandes cidades, desde que encontre água e áreas verdes para caçar e fazer ninhos. Tem as asas, a cauda, o alto da cabeça e o dorso em tons marrons. O peito, o ventre e a garganta são levemente acinzentados. Costuma pousar no chão ou em locais baixos. Alimenta-se de frutos e pequenos invertebrados. É tido como bom dispersor de sementes, que costuma regurgitar ou defecar inteiras. Vivem em bandos de três a sete pássaros. São dóceis e não temem a presença humana. É ave famosa pelo seu repertório de cantos que inclui imitações de outras aves. É também conhecido como tejo-do-campo, galo-do-campo, papa-sebo, sabiá-levanta-rabo, calhandra ou sabiá-poca (pela semelhança). Nome científico: Mimus saturninus.


Garça-branca-pequena

Espécie comum na região, alimenta-se de pequenos invertebrados e peixes. Em épocas de reprodução, as aves adultas apresentam plumagem nupcial, ou seja, penas eriçadas no alto da cabeça, no dorso e no peito. É totalmente branca. Bico e tarsos (2) negros, pés amarelos. Também conhecida como garcinha-branca, garça-pequena e garcinha. Nome científico: Egretta thula.


Bico-de-lacre

Ele é um pequeno pássaro de origem africana. Foi trazido ao Brasil a bordo de navios negreiros. Hoje é possível encontrá-lo próximo a centros urbanos. Algumas características: bico vermelho, cabeça acinzentada, dorso escuro, garganta esbranquiçada, mede de 11 a 13 centímetros de comprimento e suas asas alcançam até 14 centímetros de envergadura. O macho tem a cor avermelhada no peito. Vive em campos, pastagens, áreas agrícolas e urbanas. Geralmente é visto em bando ciscando no capim alto. Alimenta-se de sementes de gramíneas. Os pássaros da foto foram fotografados no Parque das Águas, próximos ao rio. Nome científico: Estrilda astrild. Foto: Edson Brandão.


Anu-branco

O anu-branco, também chamado rabo-de-palha, alma-de-gato, anu-do-campo, anum-do-campo, pelincho, guirá-acangatara, piló, piriguá, quiriquiri e quiriru, é uma das aves mais comuns do Brasil. Bastante sociável, apresenta um sistema de comunicação bem complexo entre os componentes do grupo. Sua vocalização é alta e estridente: “iá, iá, iá” diz o seu grito durante o voo; “i-i-i-i” é o sinal de advertência que avisa os perigos; e “gluu” é o canto característico e melodioso. Vive em bandos de seis a doze indivíduos ou entre outras aves. Possui plumagem predominantemente creme, com faixa preta no rabo e um belo topete crespo e alaranjado no alto da cabeça. O bico é longo e fino. Alimenta-se de frutas, insetos – que são apanhados em pleno voo – e de pequenos vertebrados, como pererecas e camundongos. Gosta de andar pelo solo e costuma construir os ninhos nas forquilhas das árvores, a cinco metros do chão. Seus ovos são da cor verde-marinho e o macho chega a pesar de 17 a 25% do peso da fêmea. Os filhotes abandonam o ninho antes de voar. Nome científico: Guira guira.


Urubu-preto

Também conhecido como urubu-de-cabeça-preta, é uma das aves mais conhecidas. Possui plumagem preta, com penas brancas nas extremidades das asas. A cabeça e pescoço são cinza-escuro e sem penas. Seu voo alcança grandes alturas. Costuma ser visto solitário ou em grupo. Alimenta-se de material orgânico em decomposição, principalmente de carcaças de animais mortos. Sua visão é bem desenvolvida. O olfato é apurado. Vive em florestas, campos e cidades. O fato dessa ave se alimentar de animais mortos é considerado um trabalho significante para a Natureza. O urubu da foto foi visto sobrevoando a rua Leopoldo Machado, antiga rua da Margem. Nome científico: Coragyps atratus.


Maçaricão

Ave comum no rio Sorocaba, o maçaricão possui plumagem negro-azulada sobre o corpo branco, bico preto afilado e pernas vermelhas e muito longas. Chega a medir aproximadamente 38 cm. Adulto, apresenta píleo (3) branco com uma faixa preta que se estende do bico até a parte traseira da cabeça. Quando jovem, apresenta apenas um píleo preto. É um excelente caçador aquático. Alimenta-se de insetos, larvas, moluscos, crustáceos, aranhas, minhocas e pequenos peixes. Seus hábitos são diurnos e noturnos. Os bandos costumam somar dezenas de exemplares. É ave migratória e voa maravilhosamente bem. Durante o período reprodutivo, costuma depositar os ovos em depressões (concavidades) e terrenos secos. Habita em quase todo Brasil. Além de rios, costuma frequentar manguezais, praias, arrozais e banhados. É conhecido como pernilongo-de-costas-brancas, quero-quero-da-praia e pernalonga-comum. Nome científico: Himantopus melanurus.

Fotos: José Finessi, José Carlos Fineis e Sandra Nascimento (exceto bico-de-lacre por Edson Brandão)

Notas

(1) Diz-se dos animais cuja temperatura interna é constante.
(2) Segmento inferior das pernas das aves
(3) Faixa na parte superior e central da cabeça das aves

Referências

Observando as Aves nas Áreas Verdes de Sorocaba e Região, Guia de Campo/ Luciano Bonatti Regalado; Biodiversidade do Município de Sorocaba (2014); Wikipédia, Super Interessante – Revista on-line, Wiki Aves (site); Mega Curioso na Mídia Social (site); Mitologia Grega de Deuses e Monstros (site), Aulete on-line. Colaboraram Lika M. M. Lao e Rubens Angheben Silva Maia, amigos da página Rio Sorocaba Documentário, no Facebook.

Leia também:

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3 comentários em “Da idade antiga aos dias de hoje, as aves povoam a imaginação humana, o mundo e o rio Sorocaba

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