O incrível golpe da máquina de fazer dinheiro (conto). Parte 2 (final): Liberdade, abre as asas sobre nós!

JOSÉ CARLOS FINEIS – Almofadinha tinha uma resposta convincente para tudo. E uma qualidade que só os mentirosos profissionais dominam: a de responder olhando nos olhos, por mais absurda e improvável que fosse a resposta. Pelos dias em que a “família” começou a se reunir e a elaborar o golpe, Bacuri, Bernardo e madame Chevalier impingiram ao rapaz o que os profissionais de comunicação de hoje chamariam de “media training”, submetendo-o a várias baterias de perguntas, para afiá-lo e não deixá-lo sem respostas. Quando ele não conseguia responder ou o fazia de forma pouco convincente, todos paravam para discutir e faziam o que os profissionais de comunicação de hoje chamariam de “brainstorming” – uma tempestade de ideias, da qual fatalmente acabava surgindo alguma explicação melhor.

A resposta à pergunta “por que vender máquina de fazer dinheiro quando se pode simplesmente fazer dinheiro” demorou para ser lapidada e os trambiqueiros se orgulharam da explicação criada, razão pela qual sentiam-se até um pouco decepcionados por nunca nenhuma das vítimas tê-la feito. Basicamente, consistia em dizer que, se uma máquina fosse usada por muito tempo ou produzisse cédulas demais, a polícia do Distrito Federal poderia rastrear a procedência do dinheiro falso. Então, cada máquina tinha de ser usada para fabricar no máximo cinco contos de réis (uma fortuna considerável), devendo o dinheiro fabricado ser despejado na praça de forma discreta, sem grandes aquisições ou depósitos bancários. Depois, a máquina deveria ser destruída, ou colocada em algum lugar seguro onde jamais fosse encontrada.

O italiano Fabrício estava cego com a possibilidade de duplicar suas economias de imediato. Não fez essa pergunta, nem menção a outras dúvidas que poderia ter apontado. Apenas quis saber como a máquina funcionava, pois temia, com seu saber tecnológico limitado, não ser capaz de operá-la. Como o negócio estivesse praticamente fechado, Almofadinha pediu licença, tirou uma pesada caixa de madeira do guarda-roupa e colocou no chão. Depois, abrindo um cadeado, levantou a tampa e retirou da caixa uma máquina robusta, feita de ferro pintado de cinza claro, que nem de longe lembrava as impressoras fabricadas à época, com seus tinteiros alimentados manualmente, suas caixas de tipos, seus clichês e suas incontáveis pecinhas móveis.

Mesmo que o operário Fabrício tivesse um dia visto uma impressora, não teria estranhado o formato futurista da máquina de fazer dinheiro falso, pois fora alertado por Almofadinha de que o que estava por conhecer era algo inovador. A máquina era retangular, um pouco maior que uma caixa de laranjas, de superfície lisa e com extremidades arredondadas. Seu corpo fora fundido numa única peça. A não ser por uma estreita ranhura frontal da largura de uma cédula e uma portinhola no alto, com puxador, não havia nenhuma abertura. A engenhoca devia ser operada lateralmente, por alguém sentado naquele que seria o lado direito, considerando-se que a frente fosse o local por onde saíam as cédulas impressas. Nessa lateral, bem no centro, com o comprimento de uns 30 centímetros, havia uma manivela constituída de grossa haste metálica, com pegador cilíndrico de madeira. Girada no sentido horário, a manivela supostamente movimentava intrincados mecanismos e expelia, pela ranhura frontal, uma cédula de dois mil réis.

– Eu forneço o papel especial, contrabandeado da Europa. Está vendo como a textura lembra o papel das cédulas verdadeiras? Deixo com você um número de resmas suficiente para imprimir até mais de cinco contos. A tinta que tem aí dentro é suficiente para fazer essa quantia.

O trambiqueiro esperou pela pergunta que todos faziam neste ponto: mas e quando acabar a tinta e o papel? Pergunta esta cuja resposta, ardilosamente, reforçava o argumento daquela outra, jamais feita pelos lambaris, sobre o risco de rastreamento e o compromisso de limitar a produção. Mas cinco contos pareciam ser mais que suficientes para o operário, que pulou para a pergunta seguinte:

– E como funciona?

– É mais fácil que fazer garapa. Está vendo esta portinhola aqui em cima? É só abrir assim e enfiar o papel cortado neste compartimento retangular. Coloque no máximo quinhentas folhas por vez, bem arrumadinhas para não enroscar. Lá no fundo tem uma placa metálica com uma mola embaixo, que empurra o papel para cima, está vendo? – E apertou a placa metálica, que de fato ficava apoiada numa mola e cedia quando empurrada para baixo. – Vosmecê enfia um bom pacote de papel cortado e fecha a portinhola. Está vendo estas duas rodinhas de borracha com estas pequenas engrenagens? Elas vão rolar aqui dentro quando girar a manivela e puxarão o papel para a parte da frente, onde fica a impressora. A mola que tem lá no fundo empurra o papel para cima. As rodinhas puxam o papel para a frente, ele recebe a impressão nos dois lados e sai por esta fenda.

– Eu posso ver funcionar?

– Claro. Vou imprimir dois mil réis pra vosmecê ver.

– Ela imprime notas de 200 mil, 500 mil réis?

– Pode até imprimir, se for feita para isso, mas meu tio, sabiamente, achou melhor comprar máquinas de dois mil réis, porque levanta menos suspeitas. O certo, pra falsificar dinheiro, é imprimir notas de valor pequeno. Dois mil réis ninguém nunca olha com atenção.

Fabrício estava encantado com tudo. Parecia que Deus havia escutado suas orações e colocado aquele homem em seu caminho.

Almofadinha acondicionou um maço de papel branco no compartimento retangular, empurrou até o fundo, fechou a portinhola e girou sua trava. Depois, apontando para a manivela, perguntou:

– O amigo quer girar?

– Não. Gira o senhor. Tem velocidade certa pra girar?

– Eu vou mostrar. Cada volta é uma cédula. O movimento deve ser contínuo e durar quatro segundos, pra tinta pegar direito. Se demorar demais ou apressar demais, a cédula pode sair carregada de tinta numa parte e mal impressa em outra. Imagine que cada quarto da volta é um segundo. Quando a volta termina a manivela faz um clique e trava.

– Sei.

O vendedor então fez uma demonstração. Deu um giro completo na manivela contando em voz alta: “um, dois, três, quatro”. Ao concluir o giro, a manivela fez um clique e parou, como previsto. Fabrício olhava simultaneamente para o giro da manivela e para a ranhura frontal, por onde a máquina, enquanto a manivela era girada, expelia uma nota de dois mil réis. Linda, perfeita. Novinha em folha. Evidentemente, era uma cédula verdadeira, pois a máquina, como todos sabem, não imprimia coisa alguma.

– O senhor pode fazer 100 mil réis em menos de uma hora. Quer ver outra?

– Sim! – disse Fabrício, ainda encantado com o falso dinheiro falso, que olhava por todos os ângulos e cheirava. – Ficou perfeita! Até o cheiro é igual.

– Pois é, meu amigo. Mas, de uma certa maneira, é como uma cédula de verdade, porque foi o mesmo projetista da impressora da Casa da Moeda que criou esta maravilha em miniatura.

Almofadinha girou a manivela de novo, e de novo, e o dinheiro foi saindo do compartimento blindado existente na parte frontal da máquina, onde um sistema de engrenagens expelia, à medida que a manivela era girada, até cinco notas autênticas previamente enroladas em uma espécie de carretel.

– Eu vou ficar com ela. Quanto custa?

– Um conto de réis pela máquina e duzentos mil réis pelo papel.

– Santa madona! É mais do que eu tenho. Aquele menino, o Bacuri, não disse que era tão caro.

– Mas o amigo recupera isso em uma noite girando esta manivela.

– É verdade. Mas eu não tenho o dinheiro. O que eu tenho são 950 mil réis, que posso pagar à vista.

– Sei.

– O salário que eu ganho na fábrica mal dá pra me sustentar. Mas consegui guardar um bom dinheiro, moeda por moeda, fazendo serviços de pedreiro e marceneiro. Sabe, tenho um dom para construir coisas. As pessoas gostam dos desenhos que eu faço no reboco das fachadas, com moldes de madeira. O senhor não imagina o quanto eu trabalhei nestes últimos anos, pra juntar 950 mil réis! E tudo porque tinha um propósito. Um compromisso de honra. Mas agora descubro que esse esforço todo não valeu de nada, pois o dinheiro que tenho não é bastante.

Almofadinha queria fechar logo o negócio. Já havia decidido pegar os 950 mil réis, que estavam de bom tamanho. Mas ficou curioso:

– O dinheiro não é bastante pra quê?

– Pra tirar minha família da fazenda de café. Meus pais já estão velhos, beirando os 60. Além deles, tenho dois irmãos mais novos lá. Um inclusive se casou com uma patrícia. Eles querem vir pra cidade. Trabalham muito lá, passam necessidade de tudo. Mas não podem sair da fazenda.

– E o que os impede de sair, senhor Fabrício?

– Uma dívida. O senhor é da cidade grande, mas percorre esse interior e sabe como os imigrantes são tratados nas fazendas. Lá o salário é baixo e toda a família tem de comprar o que precisa, desde um tamanco até um saco de arroz, no armazém que fica lá dentro. Desde que vieram da Itália, eles trabalharam como escravos. Em vez da prosperidade prometida quando vieram para o Brasil, só acumularam dívidas. Hoje devem quase dois contos de réis. E o dono da fazenda não deixa ninguém ir embora sem pagar. Quer dizer, eles podem até sair. Mas o patrão já avisou que se saírem sem pagar, chama a polícia e põe todos na cadeia.

Pela primeira vez em muitos anos, o coração de Almofadinha descompassou. Sua garganta ficou apertada. Ameaças de lágrimas brilharam em seus olhos. Afinal, Fabrício, o italiano, não queria a máquina para ficar rico como os outros. Queria para ter sua família de volta. Pai, mãe, irmãos. Gente que vivia sem liberdade em plena República, vinte anos depois da Lei Áurea – agora, não mais por causa da escravidão, mas por correntes invisíveis que mantinham homens, mulheres e crianças presos a um lugar, exatamente como os negros escravos, sem a chance de ser donos de si mesmos e poder tentar uma vida diferente.

Alguma coisa mudou profundamente no espírito de Almofadinha. Ele foi até a janela. Olhou para a pracinha onde o sol matinal brilhava nas folhas das árvores e as crianças brincavam ao som de um realejo. Pensou, pensou, pensou. Imaginou as reações de Bacuri, Madame Chevalier e Bernardo. Este último era bem capaz de matá-lo se ele quebrasse o pacto que mantinham, de jamais tomar decisões por si mesmo.

– E por que deixaram você sair? – perguntou, de costas para Fabrício, ainda olhando para a pracinha.

– Porque eu jurei que voltaria para tirar todos de lá, com dois contos para pagar a dívida.

– O senhor procurou a polícia?

– Falei com o delegado. Ele não é mau. Mas disse que não pode fazer nada, porque não existe crime. Crime seria se eles saíssem da fazenda e fossem perseguidos ou ameaçados. Mas isso não aconteceu. Eles não têm coragem de sair de lá.

Almofadinha continuou a olhar o movimento por algum tempo. Seus pensamentos estavam alvoroçados como havia muito ele não sentia. Até então, enganara pessoas que queriam enganar outras pessoas. Gente bem de vida que queria ficar rica, e também gente rica que queria ficar ainda mais rica. Nunca alguém que precisasse do dinheiro para comprar a liberdade de sua família. E isso, em plena República. “Família é sagrado”, pensou.

Almofadinha tinha sido desde sempre um entusiasta da República, que comemorara nas ruas, ainda criança de pés descalços. Na juventude, essa palavra era para ele sinônimo de liberdade, de esperança, de progresso. Mas aos poucos se desiludira com o regime. “República de merda”, pensou. “Trocamos uma família real por uma casta de militares, coronéis e privilegiados.” Os versos do Hino à República – “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!” – emocionavam-no e o deixavam indignado ao mesmo tempo. Mexiam com algum ponto sensível em sua alma que ele não conseguia interpretar. Talvez Almofadinha estivesse um pouco à frente de um tempo em que o domínio do poder pelas oligarquias e a exploração dos imigrantes, no campo e na cidade, eram encarados como coisas normais e estimulados como parte do progresso prometido. Ou talvez fosse um homem de coração mole, afinal.

Empertigando-se, Almofadinha voltou-se para Fabrício, que o observava com ar interrogativo, e disse simplesmente:

– Olhe, amigo, não vou vender essa máquina para o senhor.

Fabrício levou um susto. Levantou-se e se colocou na frente do outro. Tomado pelo desespero, tentava controlar a voz para não parecer que o ameaçava.

– Mas por que, amigo? Pelo amor de Deus, por quê? Venda pra mim, eu te suplico. Preciso de dois contos pra ter minha família de volta. Não posso pagar um conto e duzentos, mas pago 950 mil réis à vista. Pelo amor de Deus, amigo, faça essa caridade.

– Não é pelo dinheiro, senhor Fabrício. Acontece que essa bosta dessa máquina não funciona.

– O quê?

– Ela é uma fraude, um embuste. Não é pra pessoas como o senhor que ela foi feita. Vá embora. O senhor é um homem bom e tem uma missão sagrada neste mundo. Rezo para que consiga o dinheiro de que precisa para libertar sua família. Peço-lhe apenas que não conte nada a ninguém sobre esta conversa. Vou-me embora desta cidade. Rogo que esqueça tudo o que conversamos aqui.

Fabrício não sabia se ficava irado ou agradecido. Avançou sobre Almofadinha com o punho fechado. Depois se deteve. Abaixou a cabeça e o braço. Pegou o chapéu e caminhou para a porta.

– Eu não sei se mando o senhor pra puta que o pariu ou se agradeço.

– Mande pra onde quiser. Só não conte pra ninguém, porque podem me matar se descobrirem.

Assim que Fabrício saiu, Almofadinha mandou o dono do hotel chamar Bacuri no armazém. Contou o que havia acontecido. Bacuri ficou furioso, mas não havia tempo para brigar. Decidiram arrumar as malas e sair logo dali. Depois, iriam até a tenda para avisar os outros, juntar as tralhas e fugir da cidade antes que uma tragédia ocorresse.

Era final de manhã e o italiano já estava no quarto copo de pinga. Como chorasse alto, foi cercado pelos homens do armazém, que indagavam a razão de tantas lágrimas. Depois de várias pingas e inumeráveis perguntas, acabou confidenciando, a um amigo, a história da máquina de fazer dinheiro e de como estava triste por não poder ajudar seus pais e irmãos.

Em defesa de Fabrício, é preciso dizer que, alcoolizado, não tinha a menor noção do que fazia, e tanto é que, quando os fatos aqui narrados encontraram seu desfecho, o italiano ainda estava dormindo, tamanha fora a bebedeira do dia anterior.

Acontece que o amigo de beberagem de Fabrício, naquela mesma tarde, foi contar sobre o golpe da máquina de fazer dinheiro ao dono da única loja de tecidos local, cujo nome não vem ao caso e que, por motivos óbvios, odiava amargamente os caixeiros-viajantes que se instalavam na cidade para roubar sua freguesia.

Com sorte, eles também escapariam e os quatro se reuniriam em outro lugar do Brasil, bem longe de Barra Bonita, para recomeçar os golpes – mas não sem antes Bernardo dar uns pescoções em Almofadinha, por quebrar o pacto. Isso era certo. O castigo físico a quem quebrasse o pacto fazia parte do pacto.

O lojista saiu em busca do delegado, que não estava na delegacia. Encontrou-o, depois de perguntar aqui e ali, na tenda de madame Chevalier, jogando conversa fora, como vinha ocorrendo com frequência havia já vários dias. Aos berros, irado, o lojista entrou na tenda e despejou sobre o delegado, em cinco ou seis frases entrecortadas por palavrões, toda a história contada pelo italiano.

O delegado ficou de pé e levou a mão ao revólver, instintivamente. Mas ouviu atrás de si um vidro se quebrar e, ao voltar-se para a cartomante, levou outro susto:

– Injustiça vai ocorrer! Sangue inocente vai correr! – dizia uma madame Chevalier que, transfigurada, nem de longe lembrava a mulher simpática à qual o delegado se afeiçoara. Olhos virados, corpo pendendo de um lado para o outro, braços levantados, mãos espalmadas, parecia possuída por uma entidade, a voz soturna como que a retransmitir uma mensagem do Além.

– Este homem que dizem ser culpado é inocente. Posso ver sua alma branca e sem mácula! Cuidado, senhor delegado, a quem foi dada a autoridade de vida e de morte sobre as pessoas! Cuidado, pois estais prestes a cometer uma grande injustiça, e tua alma, assim como a desse criador de intrigas aí, que o procura para espalhar a discórdia, decerto pagará por isso!

O delegado ficou imóvel, a mão no revólver, os olhos fixos na cartomante, a quem pretendia – antes que o comerciante chegasse –, ainda naquela tarde, e assim que criasse coragem, pedir em casamento.

– O sr. não vai fazer nada? Vai ficar aí parado, como uma estátua de sal? – gritava o comerciante.

O delegado, voltando a si, decidiu ir até o hotel, para tentar esclarecer a situação. Madame Chevalier ficou para trás, sem ação. Segui-los de pouco adiantaria. Talvez fosse melhor preparar a fuga. Abriu o baú onde Bernardo ofegava com os olhos mais arregalados deste mundo e juntos, depois de uma rápida conversa, começaram a carregar a carroça com seus pertences mais caros. Mesmo que perdessem a tenda, era imperioso sair dali. Pouco havia a fazer por Bacuri e Almofadinha. Com sorte, eles também escapariam e os quatro se reuniriam em outro lugar do Brasil, bem longe de Barra Bonita, para recomeçar os golpes – mas não sem antes Bernardo dar uns pescoções em Almofadinha, por quebrar o pacto. Isso era certo. O castigo físico a quem quebrasse o pacto fazia parte do pacto.

Quando o delegado chegou ao hotel, Almofadinha e Bacuri haviam guardado os tecidos nas malas mas a máquina, prova material do crime, continuava sobre uma escrivaninha. O delegado entrou sem bater. Bacuri e Almofadinha ficaram estáticos, como uma fotografia. O delegado andou pelo local como se eles não estivessem ali, deu uma volta completa na máquina, olhando ora para o aparelho, ora para os dois, que, sem arriscar gesto ou palavra, o acompanhavam com os olhos.

– Então esta é a fabulosa máquina de fazer dinheiro?

Almofadinha tentou responder.

– Não é bem assim, senhor.

– Fique quieto, filho, por favor. Qualquer coisa que o senhor disser pode ofender minha inteligência, e eu odeio isso. Olhe, eu até que estou calmo. Poderia ter entrado aqui quebrando tudo, batendo nos dois com chicote. Só quero entender o que está acontecendo.

Foi então que Bacuri, com um sorriso inocente e as bochechas redondas que davam vontade de apertar, virou-se para Almofadinha e, para surpresa do comparsa, perguntou:

– Bom, senhor Rodrigues Alves, precisa de mim pra mais alguma coisa? Será que já posso voltar para o armazém? Dona Elza não gosta que me ausente por muito tempo.

– Claro, vosmecê já me ajudou bastante engraxando meus sapatos – disse um resignado Almofadinha. O código de ética da família era claro no que se referia ao direito de cada um tentar salvar a própria pele, desde que isso não colocasse o outro em apuros ou piorasse sua situação. Era bem o caso.

– Espera aí, guri – disse o delegado, quando Bacuri começava a saltitar para a porta. – Vosmecê é enteado da madame Chevalier, não é?

– Sim, senhor. Ela é minha mãe adotiva, desde que perdi meus pais quando eu tinha…

– Preciso que vá até ela e diga que eu quero falar com ela. Mas antes, me deixe falar aqui com o senhor caixeiro-viajante.

Os dois trambiqueiros só começaram a entender o que estava ocorrendo quando o delegado, dirigindo-se a Almofadinha, perguntou:

– O senhor tem vestidos prontos de Paris?

– Ah, claro. Eu trabalho mais com tecidos, mas tenho alguns vestidos criados pelas casas mais afamadas da Cidade Luz!

Almofadinha agora conseguia respirar, sorrir e se mover, recobrando aos poucos a cor do rosto e a presença de espírito.

– Separe, por favor, pra mim, os melhores vestidos que o senhor tiver. Quero também calçados, lenços. O sr. conhece a cartomante que está atendendo na estrada do Oliveira, numa tenda? A mãe adotiva deste menino aqui.

– Ah, sim, ouvi falar. O sr. sabe, cheguei há poucos dias. Até queria dar uma passada por lá, para ver o que o destino me reserva, mas não tive tempo.

– Pois bem. As roupas são pra ela – informou o delegado.

– Corretíssimo, senhor delegado. Estou certo de que ela vai amá-las – exultou Almofadinha, já agora certo de que entraria num acordo com o delegado e feliz por pensar que, quando muito, seu castigo seria levar uma sova de Bernardo.

Almofadinha havia separado três vestidos finos sobre a cama. Depois, para não correr riscos, abriu outra mala e apanhou mais dois.

– Acha que vão servir nela, guri?

– Acho que vão sim, senhor delegado.

– E vosmecê sabe que número ela calça?

– O pé dela é do tamanho do meu. A gente até brinca com isso – revelou Bacuri.

– Amigo caixeiro, por favor, pegue aquele sapato brilhante ali e coloque no pé do garoto.

Almofadinha obedeceu.

A situação seria de rir, não fosse tensa, ainda. Bacuri ali, de pé, amedrontado mas ainda se esforçando para sustentar o sorriso, as perninhas curtas e sujas saindo do calção curto e esfolado, enquanto Almofadinha calçava em seus pés um par de sapatos de salto alto, enfeitados com pedras falsas.

Almofadinha deu um grito de alegria.

– Oh, Deus seja louvado! 36 parece ser o número das mulheres formosas deste nosso maravilhoso Universo. Devo ter uns três ou quatro pares de sapatos 36 aí nas malas, inclusive mais outro de salto alto, coisa finíssima. Nem as mulheres dos coronéis por onde passo compram esses sapatos, de tão caros.

– Pois eu quero tudo o que o amigo tiver até as sete da noite. Vou pôr um soldado lá embaixo, pra garantir que o ilustre visitante não precise sair do hotel pra nada. E vosmecê, guri, tira esses sapatos e corre dar o meu recado à madame.

– É pra já, delegado.

Bacuri saiu finalmente, alegre como um cabrito novo no campo verdinho. Prova de que as maiores alegrias nem sempre vêm por acréscimo. Elas podem surgir do nada, do simples fato de conseguirmos manter alguma coisa que julgávamos perdida – como a liberdade, o nariz ou a vida, por exemplo.

Almofadinha passou o restinho da tarde preparando o presente do delegado para a amiga. Madame Chevalier, alertada por Bacuri, dedicou o tempo restante a recolocar as mobílias e enfeites de volta na tenda, com ajuda de Bernardo. O grandão ficou à vontade para ajudar, pois sabia que o delegado só apareceria depois das sete, conforme o combinado.

O delegado voltou ao hotel no horário marcado, banho tomado, roupa trocada.

– Sua Excelência vai pedir a cartomante em casamento, não vai? – indagou Almofadinha, já se sentindo um quase amigo da autoridade.

– Evidentemente que vou. O senhor daria pra um bom adivinho. E esses presentes todos eu vou levar pra ela agora mesmo. Quanto ao senhor, se aceita um conselho, pegue as coisas que sobraram, sua máquina de enganar bobo e vá embora o quanto antes. Nunca mais apareça nesta região, pois agora ficou marcado, não por mim, mas por outros na cidade.

– E o que o senhor vai dizer a eles sobre essas mercadorias todas que vai levar?

– Ué. Vou dizer que comprei. Por acaso, não comprei?

– Comprou?

– O amigo duvida de minha palavra?

– Não, é que…

– Escute, filho. O senhor tem sorte de sair vivo e com o saco no meio das pernas desta cidade.

– Sim, senhor.

– Além disso, vosmecê tem aí essa engenhoca. Vire a manivela! Faça ela cagar umas notas de quinhentos merréis! – disse o delegado, explodindo em uma gargalhada e dando um dolorido tapa nas costas de Almofadinha.

– Sim, senhor. Vou fazer isso, senhor.

– Se eu fosse o amigo, ia embora hoje mesmo. Não posso responder pelo que possam lhe fazer. Aquele seu concorrente, o comerciante de tecidos, está espalhando pra todo mundo sobre o golpe.

– Sim, senhor.

– Só isso que o senhor sabe dizer? Sim, senhor. Sim, senhor.

– Não, senhor. Ou melhor: sim, senhor. Muito obrigado, senhor.

– Ah, como é bom tratar com pessoas educadas da cidade grande.

Na saída do hotel, o comerciante de tecidos tentava entrar e o soldado o detinha com um passo para cá, outro para lá, barrando seu caminho.

– Me deixe passar, soldado.

– São ordens do delegado. Ninguém entra, ninguém sai. Só os hóspedes do hotel.

Nesse momento, o delegado surgiu com Almofadinha. Carregavam uma pesada mala escada abaixo.

– Delegado, o que tá acontecendo? O senhor não vai prender esse bandido? – quis saber o comerciante.

– Eu conversei com ele e esclarecemos tudo. Não existe máquina de dinheiro. Foi tudo um mal-entendido daquele italiano bêbado.

– Não é possível, delegado. E essa mala, o que é?

– São roupas de Paris, ora. Só porque eu sou um delegado, não posso gastar meu salário ganho honestamente com roupas de Paris?

– Sei, sim! O senhor foi é subornado por esse caixeiro filho de uma égua, pra deixar ele livre!

O delegado estacou. Largou a mala. Enfureceu-se.

– Soldado, ponha o senhor comerciante no xadrez, neste instante, agora, já! Artigo 134 do Código Penal dos Estados Unidos do Brasil. Desacato a autoridade.

O comerciante gritou, indignado:

– O senhor não pode!

– Filho, não piore sua situação. Vai dormir uma noite. Uma não, duas noites no xilindró, pra aprender a não falar merda sobre esta minha digníssima pessoa.

E assim vamos chegando ao fim da história daquela memorável família de trambiqueiros, pelo menos em sua conformação original, já que madame Chevalier se tornou, poucos meses depois, a sra. Arruda Flores, digníssima esposa do delegado de polícia de Cajueiro do Sul, com direito a véu, grinalda e chuva de arroz na porta da igreja.

A única tensão entre os dois ocorreu quando o delegado, fuçando por curiosidade nas coisas dela, descobriu seu verdadeiro nome – mas, com todo o charme que a França lhe deu indiretamente, por meio de sua marinha mercante, Sueli convenceu o marido de que viera refugiada da Europa, devido a uma intriga palaciana, e que adotara o falso nome brasileiro para não ser localizada no Rio, onde residira durante alguns tempos.

O delegado, como todo homem apaixonado, preferiu acreditar na esposa e tratá-la como francesa fosse, mesmo a história não fazendo nenhum sentido. Chamava-a por seu suposto primeiro nome francês, Adelle. Muitas vezes, à noite, pedia que ela lhe contasse como era Paris, e ela, que só conhecia a capital francesa por meio de revistas, descrevia com detalhes a cidade, sua fantástica torre, sua vida noturna, seus bosques e seus costumes.

Bacuri ficou alguns meses vivendo com o casal, já que, fiel à história inventada, não havia outra opção senão encenar o papel de criança adotiva. Pela primeira vez em muitos anos, o pequeno pária soube o que era ter um lar, uma mãe e um pai que o sustentavam e tratavam com carinho. Mas ele era um homem adulto – e, mais que isso, um apaixonado por aventuras. Tanto amor, tanta atenção o entediavam. Até ter de comer na hora certa os pratos franceses que Adelle inventava causava-lhe um certo aborrecimento, embora fossem saborosos.

Um dia, passou pela cidade um circo, e Bacuri se encantou com a vida no picadeiro. Implorou ao dono do circo que o incorporasse à trupe e, depois de alguns testes como palhaço, ajudante da bela amazona Sabrina e até domador do único leão do circo – que, apesar de raquítico, quase o devorou –, descobriu uma vocação inata para o equilibrismo.

Por algum motivo que só exames médicos poderiam explicar, Bacuri tinha o centro de gravidade de seu corpo mais baixo do que o de qualquer outra pessoa, e conseguia fazer coisas incríveis sobre uma corda, como correr, pular numa perna só, cair de bunda para voltar a ficar de pé e até dar saltos mortais triplos e quádruplos, sem jamais perder o equilíbrio. Como aparentava ser criança, tornou-se rapidamente uma das principais atrações do circo, e a plateia aplaudia inebriada quando o apresentador anunciava “Bacuri, o incrível menino que desafia a Lei da Gravidade”, enquanto ele atravessava o picadeiro correndo sobre a corda, a uns cinco metros de altura, sem rede de proteção, fazendo trejeitos engraçados e jogando beijos para todos os lados.

Almofadinha e Bernardo se encontraram semanas depois de sumirem de Cajueiro do Sul. A quadrilha era tão organizada que seus membros haviam combinado previamente um ponto de encontro, na capital paulista, para caso tivessem que fugir cada um para um lado, como de fato ocorreu. Bernardo, conforme o combinado, deu vários pescoções e pernadas em Almofadinha, que rolou no chão calado, pois sabia que merecia. O grandalhão só poupou o rosto e as partes visíveis do colega, porque um rosto limpo, sem hematomas e arranhões, era indispensável a Almofadinha na atividade de aplicar golpes, que pretendiam retomar em breve.

Em São Paulo, os colegas de trambique passaram maus bocados e até precisaram trabalhar honestamente para ganhar a vida, enquanto não encontravam substitutos à altura dos outros dois para refazer a trupe. Mas não demorou muito para que o grupo de recompusesse e caísse na estrada novamente, com uma nova mademoiselle Chevalier, recrutada facilmente entre as antigas conhecidas de Almofadinha – um inveterado frequentador de prostíbulos –, e um novo Bacuri.

O outro Bacuri foi difícil de achar. Mesmo em São Paulo, não devia haver alguém semelhante, e, se houvesse, ainda precisaria cumprir os outros requisitos: esperteza, oportunismo, boa memória, etc. Na falta de um adulto com corpo de criança, Almofadinha, Bernardo e a nova mademoiselle optaram por procurar uma criança com inteligência de adulto – por incrível que pareça, mais fácil de encontrar na São Paulo dos anos 1900 do que hoje. Arregimentaram Bacuri 2, como passou a ser chamado, no primeiro Mercado de São Paulo, anterior ao atual, localizado na antiga Várzea do Carmo, onde o menino de pouco mais de oito anos, apesar de sua natural beleza, sorriso encantador e carisma, arrastava uma caixa pesada e sem rodas, de banca em banca, recolhendo o lixo produzido pelas barracas dos comerciantes, em troca de alguma coisa para comer.

Todos aprenderam rapidamente seus papéis naquela grande farsa e tão logo se equiparam e conseguiram uma nova carroça – a antiga ficou em Cajueiro do Sul, pois supostamente pertencia à cartomante – saíram pelo Brasil, reiniciando assim um novo ciclo de vendas de máquinas de fazer dinheiro. Dizem, não sei se é verdade, que Almofadinha, indispensável ao golpe com sua lábia e coragem, impôs a Bernardo e aos dois novos membros da quadrilha uma única condição, a ser cumprida tão logo conseguissem um bom dinheiro. Sabendo-se o cérebro do grupo e indispensável ao esquema, ameaçou:

– Ou fazemos o que estou propondo, ou me torno um causídico, como minha família deseja. Posso até ser um desembargador, por que não? Eu posso não ser um Rodrigues Alves, mas também não sou um João Ninguém. Minha família é influente.

Era uma manhã de garoa fria na capital paulista, e o aroma fresco de um Tietê ainda limpo excitava o grupo, ansioso por ver paisagens diferentes, conhecer pessoas, viver grandes aventuras e, é claro, vender muitas guitarras para os lambaris.

– Pra que lado vamos? – perguntou a nova mademoiselle, uma linda portuguesinha de trinta e poucos anos, que leu com atenção, durante semanas, tudo o que lhe caía às mãos sobre a França, além de conversar com uma amiga parisiense legítima que a ajudara a treinar um charmoso sotaque francês.

– Dizem que tem muito dinheiro circulando em Sorocaba – respondeu Almofadinha. – É pouco mais de um dia de viagem. Pernoitamos em algum lugar e amanhã no começo da tarde chegamos lá.

E assim se fez. Em Sorocaba, o delegado não era muito simpático à cartomancia. Mas, como não gostava das carolices de certas madames da sociedade e da imprensa local, fez vista grossa e orientou o grupo a montar sua tenda longe da igreja matriz, coincidentemente, para os lados de onde se localiza hoje a igrejinha do famoso religioso negro, curandeiro e, para muitos, operador de milagres chamado João de Camargo.

Dias depois, Bacuri 2 passava um relatório completo para Almofadinha no Hotel São Vicente, onde o falso caixeiro-viajante se instalara. O lambari era um industrial português a quem o prejuízo não faria nenhuma diferença, pois já conseguira juntar uma boa fortuna explorando o trabalho semiescravo de imigrantes italianos e espanhóis em sua fabriqueta de tecidos. Pagou 2,5 contos de réis com o compromisso de fabricar “apenas” dez contos, e ainda deu a Almofadinha um charuto importado para selar o negócio.

Naquele mesmo dia, tão logo a transação foi concluída, todos do bando deixaram a cidade discretamente. Almofadinha a cavalo, pouco antes do alvorecer, os outros três na carroça. Encontraram-se muitas horas mais tarde, a uma distância segura, em um retiro previamente combinado fora da estrada, para definir o próximo destino. Era fim de tarde e o grupo, acomodado em pequenos bancos em torno de uma mesinha de armar, havia acabado de jantar ao estilo tropeiro, uma gororoba feita por mademoiselle e Bernardo em um fogo de chão.

Então chegou a hora de cumprirem a condição imposta por Almofadinha. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um punhado de dinheiro, colocando-o sobre a mesinha. Havia ali bem mais de dois contos de réis.

Almofadinha contou, nota por nota, um conto de réis, que passou às mãos de Bernardo.

– Confira aí se tem um conto. Esse é pra gente se manter e comprar mais tecidos e sapatos, até o próximo golpe.

Depois, pegou o dinheiro restante, tirou do bolso um envelope de cartão grosso e enfiou as notas abertas, para não fazerem volume. Abriu um vidro de goma arábica, molhou o pincel e colou bem o envelope.

– O colega vai mesmo fazer isso? – indagou Bernardo.

– Foi o combinado. Se eu não fizer, não vou ter paz de espírito. Eu senti um chamado divino em mim.

– Mas ele quase acabou com a gente.

– Ele estava desesperado, Bernardo. E não era ele falando, era a pinga. De mais a mais, estamos vivos, não estamos?

Almofadinha levantou-se. Abriu os braços como alguém que sabe realmente o valor de estar vivo.

– Olha este céu lindo, este crepúsculo maravilhoso. Deus não nos mandou para este mundo somente para enganar os bobos, decerto. Como é mesmo que diz a bíblia? Que a fé sem obras é morta? Pois é isso! A fé sem caridade não vai nos levar lá pro alto, para os braços do Pai Eterno, quando nossos dias neste jardim terreno terminarem.

– E como você vai fazer isso chegar lá? – mademoiselle perguntou, depois de saltar do banquinho e aplaudir, encantada, a performance do colega.

– Eu tenho um portador de confiança em São Paulo. É meu irmão. É caixeiro-viajante de verdade. Aliás, foi nele que me inspirei para encenar minha parte no golpe. Soube por telegrama que ele vai para aquelas bandas daqui a alguns dias.

– Então que seja – Bernardo cedeu.

Almofadinha tirou uma pena do bolso, molhou no tinteiro e escreveu na face lisa do envelope, com letras redondas, grandes e bonitas:

“Do Sr. Arnaldo Antônio Rodrigues Alves e amigos
Para o italiano Fabrício
Aos cuidados da digníssima senhora Arruda Flores
Em mãos”


Ilustração: fotomontagem com imagens de Dennisflarsen em Pixabay

Leia a primeira parte do conto aqui:

O incrível golpe da máquina de fazer dinheiro (conto). Parte 1: Da arte de pescar lambaris

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