Sorocaba pode voltar a ser a capital dos hospícios

GERALDO BONADIO – A depender do governo federal, Sorocaba retomará, em curtíssimo prazo, a pouco honrosa condição de maior polo manicomial do Brasil que, em seu apogeu, somou sete hospitais e mais de 2.700 pacientes.

Às diretrizes emanadas do Ministério da Saúde, que abriram caminho para o retorno à ampla utilização do tratamento de choque nos portadores de distúrbios psiquiátricos, somam-se agora mudanças, em vias de aprovação pelo Congresso, relativas ao tratamento dos dependentes químicos.

Estas, facilitando a internação à revelia, colocam os doentes mentais sob a tutela de tais estabelecimentos, olvidando o muito que se apurou, em anos recentes da luta contra os manicômios, sobre as situações de abuso, abandono e maus tratos que, naqueles locais, elevam enormemente os números de mortes de pacientes.

Ainda antes do caos administrativo instaurado no país desde janeiro, eram comuns, na mídia, registros de coisas pavorosas, ocorridas em “clínicas” ou “casas de repouso”, muita vez operadas por organizações supostamente religiosas, nas quais pessoas, internadas às expensas das famílias, esperançosas de obterem o resgate de alguém muito amado, foram reduzidas à condição de mão de obra escrava.

O resgate de uma pessoa às garras de uma substância viciante legal – tabaco, álcool – ou ilegal, como as drogas “naturais” ou “artificiais” – é, sempre, um processo lento, sofrido, sujeito a recaídas ou regressões.

Cinquentenária, a guerra às drogas, promovida pelo governo norte-americano, tem custado bilhões de dólares aos cofres públicos estadunidenses sem gerar os resultados pretendidos.

Também não se divisa, em qualquer canto do mundo, uma decifração correta para essa esfinge dos nossos tempos. O tema, em razão do formato muito peculiar da campanha eleitoral de 2018, praticamente não foi debatido pelos aspirantes à faixa presidencial.

A exceção foi o candidato Ciro Gomes que, no Roda Viva, a partir dos muitos estudos que fez da questão, aqui e lá fora – asseverou não existir, em algum ponto do planeta, uma solução do tipo plug and play, ou seja, que possa ser transplanta e implementada no Brasil de maneira exitosa.

O mais próximo disso, dentro do modelo de redução de danos, é a política vigente em Portugal, que fixa, de forma precisa, a quantidade de droga que o usuário pode possuir legalmente, sem ser enquadrado como traficante. Difícil, porém, transplantá-la, pois, viável num país de reduzida dimensão geográfica e com população decrescente, não será simples ajustá-la às necessidades de um gigante territorial, ainda em processo de crescimento populacional como o Brasil.

Nada tenho de “avançado” na matéria. Jamais cheirei, fumei ou injetei. Minha antiguíssima experiência com o cigarro não durou mais que uma semana. Conto nos dedos de uma das mãos meus porres com amnésia alcoólica.

Há décadas reconheci que, embora gostasse da cerveja, ela não gostava de mim. – Nos separamos de forma amigável. Perdi para o cigarro e/ou para o álcool pessoas muito queridas. Sei que aquele que se ufana da possibilidade de deixar o vício “quando quiser”, mente para si mesmo; que o tráfico e a dependência estão hoje em praticamente todas as sociedades e, sim, inexiste uma estratégia global, confiável, de enfrentamento.

Encarcerar microtraficantes – substituídos de pronto, nas biqueiras – enquanto os barões da droga permanecem impunes, ou interná-los à força, em nada beneficia os dependentes, mas gera lucros incalculáveis para grandes bandidos, que, paralelamente operam outras atividades criminosas como o tráfico de pessoas e de órgãos.

Durante muito tempo se pensou que essa enorme massa de dinheiro fosse movimentada através de uma rede bancária clandestina. A investigação sobre o uso do HSBC pelos cartéis mexicanos, tema de um documentário ainda encontrável na Netflix, comprovou os vínculos entre aquele banco e o narcotráfico, inclusive com a adulteração de códigos para permitir o trânsito do dinheiro sujo pelo braço norte-americano da rede, sem ser detectado. No final das investigações, em pleno governo Obama, os que comandavam a operação amarelaram e o banco, enquanto tal, não sofreu sanção alguma. Resumo da ópera: o narcotráfico se expande, em escala mundial, usando contra a sociedade mecanismos legais.

Voltemos, porém, ao polo manicomial de Sorocaba. Ele prosperou internando principalmente alcoólatras. O custo do tratamento era baixo e a internação não resolvia nada. Os problemas do paciente aguardavam-no fora do hospital, para novamente subjugá-lo, gerando nova internação.

Em 2013, sem aviso prévio, o Ministério Público, jogou no colo do governo municipal que se iniciava, a complicada e dispendiosa tarefa de cuidar dos doentes mentais, na maioria dos casos oriundos de municípios distantes, sem levar em conta que a política da prefeitura para aquela área, sempre se pautou pelo tratamento ambulatorial. Nesse momento, mais do que qualquer outra instituição não pode assistir, inerme, a volta triunfal dos hospícios.

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