Marque um encontro com a sua “criança interior”

RITA BRAGATTO – Semana passada, pela primeira vez neste ano em que estou na Europa, me vitimizei totalmente. Acordei de manhã e não consegui sair da cama. Eu tinha uma decisão importante a tomar e me senti muito sozinha. Desamparada. Exausta. Queria que alguém cuidasse de mim. Que me mostrasse o melhor caminho. Ou, simplesmente, que me trouxesse o café da manhã. Que me abraçasse e dissesse que está tudo bem. Como não tinha nada disso num raio de mil quilômetros, chorei como uma criança de 13 anos. Sim, exatamente a mesma idade que eu tinha quando meu pai morreu. Entrei nesse trilho de sentimento de insegurança. De abandono. De fragilidade. De tristeza.


Neste mesmo dia, um pouco mais tarde, um italiano me convidou pra um café. Eu agradeci, mas disse que não iria. Ele percebeu que eu não estava bem e, em cinco minutos, veio “me sequestrar”. Me levou pra passear em lugares lindos. Pra comer coisas gostosas. Me abraçou. Obviamente, no tempo em que estivemos juntos, a “criança interna” parou de chorar. A Rita adulta também se tranquilizou. Mas não deixou de refletir sobre a importância desse episódio.


O que se passou comigo foi um “surto” da minha “criança interior”. Na psicologia analítica, a “criança interior” é o aspecto infantil de um indivíduo. Este conceito foi desenvolvido pelo psiquiatra Carl Gustav Jung, em um ensaio chamado “A psicologia do Arquétipo da Criança” e explica que “em todo adulto espreita uma criança, uma criança eterna, algo que sempre está vindo a ser, que nunca está completo, e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa.”


Ninguém teve uma infância fácil; perfeita. Sabemos que 80% a 95% das pessoas não receberam atenção adequada. Portanto, todos nós carregamos, desde o útero materno, questões inconscientes mal resolvidas. que impactam, diretamente, em nossa vida hoje.

Em outras palavras, isso quer dizer que a vida adulta é menos adulta do que parece. Ela é pilotada por restos e rastros da infância. Quando você chora, quem está chorando é a sua criança abandonada. Sozinha. Ela está presente também na parte de nossa psique que vivencia a angústia. A dor. O sofrimento.

Por isso, mesmo quando adultos, buscamos uma relação de dependência, desejando, ainda que inconscientemente, que o outro cuide da gente, nos alimente, nos salve. Buscamos, desesperadamente, tudo aquilo que não recebemos do nosso pai e da nossa mãe.

Facilmente, encontramos essa “criança interna” escondida atrás da porta. Dentro de um armário. Embaixo da cama. É como se ela ficasse “congelada” nos momentos de imenso sofrimento, decorrentes de abusos e traumas sofridos nos primeiros anos de vida.

A minha “criança interna” ficou congelada no enterro do meu pai. Ela viu toda a sua proteção sendo sepultada, junto com o caixão. Se sentiu muito insegura. Indefesa. E reviveu, na semana passada, todo esse sentimento de abandono e insegurança diante de uma decisão difícil.

O “sequestro”, realizado pelo italiano, foi um delicioso paliativo. Um aconchego. Mas eu sabia que não devia me privar de encarar esse sentimento assim que eu voltasse. Eu tinha uma super lição de casa pra fazer: romper com o sofrimento do silêncio que essa morte me casou. E avançar, se eu quisesse me curar.

Chorei muito quando cheguei em casa. Talvez tudo o que nunca tinha chorado pela morte do meu pai. Chorei todas as dores que foram reprimidas por pura sobrevivência. Chorei pelas minhas necessidades emocionais não supridas. Chorei pelas máscaras que criei para suportar a falta que ele fez na minha vida. Chorei por todos os momentos importantes onde ele não estava presente. Enfim, validei todos os sentimentos reprimidos.

Por fim, pus a minha menina de 13 anos no colo e disse a ela: “eu vejo sua dor; vejo o quanto teu pai te fez falta; o quanto e onde você buscou tudo o que te faltou. Mas, agora, está tudo bem. Você consegue se proteger. Você consegue tomar decisões importantes.”

Foi um processo muito profundo. E exponho publicamente a minha fragilidade neste texto, justamente, para encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo. Mas não façam isso sozinhos(as). Procurem ajuda profissional. Esse processo é muito terapêutico e precisa ser bem conduzido para que tenha efeitos consistentes.

Se não identificarmos e não acolhermos essa “criança interior”, corremos o sério risco da repetição de padrão. Recriamos, quando adultos, o que vivenciamos nos primeiros anos de vida, principalmente com os filhos. Também mantemos relacionamentos destrutivos. Dependentes. Nos relacionamos com o outro buscando aquilo que não conseguimos dar a nós mesmos. Nos relacionamos com a parte que falta de nós. Essa carência é o reflexo de ausência dentro de si, que começa quando nos afastamos dos nossos reais sentimentos.

Por isso, marcar um encontro com a “criança interior” deve fazer parte da jornada de todo ser humano. Ela é parte importante na direção do autoconhecimento. O pior abandono acontece quando abandonamos a nós mesmos. Quando não olhamos para nossas dores. Isso nos impede de avançar e de nos tornarmos mais saudáveis, primeiramente por nós e, em um segundo momento, em nossas relações com outras pessoas.

Eu sei que ainda tenho muitos encontros pela frente. A minha “criança interna”, provavelmente como a sua, sofreu vários traumas. São muitas questões a trabalhar. Mas sinto que atravessei um grande portal, semana passada. E estou muito feliz.

Foi lindo demais ver minha criança de 13 anos não mais congelada naquele enterro. Ela não estava mais se sentindo insegura diante das dúvidas; das novas escolhas da vida. Eu a libertei quando disse: “pode brincar. Está tudo bem. Agora eu cuido de você.” E ela me sorriu.

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
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2 comentários em “Marque um encontro com a sua “criança interior”

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  1. Mais uma vez agradeço por vc dividir uma história tão particular e tão profunda. Hoje é o dia do abraço, sinta-se abraçada por uma amiga que te admira demais. 🙏🏻

    1. Querida, Vanessa. Eu que agradeço, mais uma vez, sua leitura,, reflexão e olhar tão amoroso sobre mim. Acolho com muito carinho esse abraço. <3

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