Tapas na escória, com luvas vermelhas

LÚCIA HELENA DE CAMARGO –
Uma juíza é encarregada de investigar empresários envolvidos em falcatruas, enriquecimento ilícito, negociatas inexplicáveis e evasão de recursos públicos. Os termos são bem conhecidos de todos que lêem jornal ou assistem à televisão no Brasil. Mas neste caso trata-se do enredo do filme “Comédia do Poder” (L’ivresse du Pouvoir , França, 2006, 110 minutos), e a história se passa na França. O aviso de que qualquer semelhança com acontecimentos e pessoas reais é apenas fortuita serve para descartar processos judiciais, mas incentiva o público a procurar as “coincidências”. Não é segredo que foi baseado no vultoso caso ocorrido na década de 1990, envolvendo a empresa petrolífera ELF e o governo francês. No longa-metragem, a empresa é chamada de FMG, para não restar dúvidas sobre o paralelo: são as três letras seguintes no alfabeto.

Peço perdão aos leitores para falar desse filme que não é uma estreia do cinema. E pode ser achado apenas em formato DVD e em um ou outro serviço de streaming. Mas o tema tem habitado nosso cotidiano. E garanto que quem assistir vai se divertir acompanhando a juíza Jeanne Charmant Killman (Isabelle Huppert) em suas nada sutis investidas contra a corrupção.

O empresário Michel Humeau (François Berléand), presidente de um importante grupo industrial, engalfinha-se em rebuscadas explicações sobre gastos de 50 mil euros na piscina da casa da amante e desespera-se ao ser preso em sua cela especial, bem diferente dos quartos de hotéis cinco estrelas aos quais está acostumado. Ele tem problemas alérgicos e não para de se coçar. Incomoda-se, coça-se, presta depoimento, coça-se, declara-se perseguido e coça-se um pouco mais. Fica a impressão de que sua alergia é contra a própria investigação e, por extensão, contra a verdade.

Huppert, nessa produção pela sétima vez a escolhida do diretor Claude Chabrol para protagonista, parece bem à vontade no papel da respeitável senhora pouco charmosa, fria e determinada, que vai fundo na questão e consegue colocar na cadeia alguns investigados, às custas de interrogatórios severos e ações certeiras.

No entanto, à medida que torna-se mais implacável, uma ambição de natureza diferente começa a turvar a mente da juíza, competente e crédula em uma moral rígida, mas à mercê dos desequilíbrios da alma humana. Tudo sem tirar suas luvas vermelhas. O adereço, mais do que proteger contra o frio, parece ser sua inconsciente proteção contra a sujeira na qual ela não quer tocar.

Do outro lado do balcão, empresários e funcionários do governo seguem bebendo armanhaque enquanto discutem negociatas e comemoram os êxitos com champanhe Taittinger.

Longe dos tribunais e salões de depoimento, a mulher encontra em casa algum consolo, pois vê no marido qualidades que não enxerga em ninguém mais. “Neste mundo de cínicos, ele mantém um sorriso sincero”, diz. Mas isso não impede que sua vida pessoal comece a ruir.

Chabrol, morto em 2010 aos 80 anos de idade, fez o filme quando tinha 77 anos, em 2006. Ele foi, ao lado de François Truffaut e Jean-Luc Godard, crítico da revista Cahiers du Cinéma e um dos envolvidos no nascimento do movimento da Nouvelle Vague. Entre seus mais inspirados filmes está “Madame Bovary” (1991), também com sua atriz predileta. Em algumas ocasiões embrenhou-se demais em suas próprias teses, com resultados lamentáveis, como em “Teia de Chocolate” (2000) e “A Professora de Piano” (2001), ambos com Huppert no papel principal e um grau a mais de bizarrice.  

“Comédia do Poder” não é de fato uma comédia para gargalhar na poltrona. O que sobra é um riso triste, pela constatação do óbvio: de que a falta de escrúpulos não é “privilégio” de poucos nem uma questão recente. Em maior ou menor grau, existe aqui, acolá, no mundo todo.

 

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