Crítica teatro: As Criadas

JOSÉ SIMÕES – TT6 em cena. Jean Genet não é um autor fácil. Obra complexa e  com inúmeras possibilidades de se cair na tentação de classifica-lo e, de certo modo, empareda-lo e diminuí-lo.

Sua história de vida – na bandidagem, na prisão, no comportamento pouco cordial e no envolvimento com intelectuais como Sartre- servem, por um lado, para  oferecer pistas acerca do seu trabalho, por outro lado,  também,  ajuda a turvar  o  olhar e  afastar do que justamente  o autor quer abordar em muitos dos seus textos. Jean Genet não é simples. É sagaz na radiografia dos  desejos, mesquinharias  e redenção. Nunca para se redimir. Jamais. Revela no teatro os pequenos deleites e prazeres da transgressão. Em tempos do politicamente correto Genet é  mais do que necessário. Afinal, segundo ele ” a vida é um estelionato”.

Não é mesmo fácil passar incólume à  Jean Genet após a leitura de algum dos seus livros como Nossa senhora das flores (1944), Milagre da rosa (1946), Diário de um ladrão (1949), Pompas fúnebres e Querelle de Brest (ambos de 1947) ou de peças  como O balcão, Os negros (1958), Os biombos (1961) e As criadas (1947).

Lembro-me, ainda hoje, dos meus sentimentos ao terminar a leitura de Nossa Senhora das Flores. Estupefato. Colocou meu mundo de ponta cabeça.

“O cheiro da prisão é um cheiro de urina, formol e de pintura. Em todas as cadeias da Europa eu o reconheci e reconheci que este cheiro seria enfim o cheiro do meu destino. Em cada nova escorregada procuro nas paredes os traços das minhas prisões anteriores, isto é, dos meus desesperos anteriores, remorsos, desejos que um outro detento tenha gravado para mim. Exploro a superfície das paredes em busca do traço fraternal de um amigo.”

Genet esteve no Brasil, nos anos 70, para acompanhar a montagem do seu texto O Balcão, dirigido  por Victor Garcia, produzido por Ruth Escobar. Um marco da encenação nacional.

A montagem de As Criadas pelo grupo TT6, do curso técnico de ator do SENAC, sob direção de Hamilton Sbrana, nos oferece a oportunidade de entrar em contato com a obra do dramaturgo e, também, aos futuros profissionais a possibilidade de vivenciar em cena a complexidade dessa dramaturgia.

Em linhas gerais o texto traz a cena duas irmãs – Claire e Solange – empregadas domesticas de uma casa burguesa, que na ausência da Madame ensaiam insultos à patroa, revelam desejos e planejam a  sua morte.

A opção de Sbrana foi a de trabalhar com o palco vazio e  diferentes atores construído a mesma personagem, criando algo semelhante a um patchwork  a partir da interpretação dos atores e atrizes, na composição das cenas.

Esta opção se, por um lado, evidenciou as diversas facetas e possibilidades das personagens, por outro lodo, terminou por enfraquecer nalguns pontos a força da transgressão do texto. Isso porque o jogo entre os atores em muitos momentos não aconteceu. Hamilton Sbrana mostra habilidade para a encenação de elencos numerosos e criou belas cenas em tableau vivant com o conjunto dos atores.

As interpretações como já apontado acima têm altos e baixos e, certamente, serão discutidas e adequadas à medida que novas apresentações aconteçam. Faltou ritmo na apresentação da estreia. Houve quebras no fluxo da cena, por exemplo, no momento da mudança dos atores na troca de personagens. Noutros momentos, também, alguns atores não familiarizados com os objetos de cena,  se atrapalharam. Faltou-lhes traquejo de deixar a cena correr. Afinal os objetos naquelas situações não  eram assim tão importantes.

O conjunto posto em cena agrada e envolve o espectador. Direção segura de Sbrana. Destaque para o ator André Sewaybricker, pelo conjunto de sutilezas nos gestos e transgressão nos olhares que colocou em cena.

Ao final um belo espetáculo. Em tempos tão caluniosos e ofensivos no qual a cultura e arte estão sob ataque da barbárie. Jean Genet é necessário. Claire e Solange são necessárias. O teatro é  necessário.

Que atores e atrizes venham com sangue nos olhos. Montem os  grupos e companhias e fortaleçam o teatro da cidade e região.  Viva o teatro.

A crise é, também, a força motriz do teatro.

 

As Criadas

Jean Genet

Direção:

Hamilton Sbrana

Elenco:

Alexia Soler

André Sewaybricker

Bella Funaro

Bruno Leonardo

Caio Mancini

Dan Camargo

Douglas Pagangrizo

Francesca Moura

Haliny Pereira

Isadora Lomardo

Ivan Camargo

José Albano

Laura Fonseca

Mare Pinheiro

Matheus Negrini

Matheus Rodrigues

Naiara Lima

Pedro Böor

Pedro Victor

Rai Queiróz

Talisson Santos

Talita Hergesell

Thaís Lorrani

2 comentários em “Crítica teatro: As Criadas

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  1. Muito obrigado, José Simões, pelo seu olhar: de alguém que tem o teatro correndo na veia, O pessimismo e a falta de esperança para com os oprimidos de Jean Genet, se na época escandalizou, ainda hoje berra o escândalo e um olhar para o escuro do abismo que nos encontramos. A atenção e reflexão que um texto / montagem como esse proporciona, coloca o teatro como uma bela ferramenta de resistência, resiliência, transformação e revolução, Evoé!!!

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    1. Hamilton. Você realiza na cidade de Sorocaba a resistência luminosa via teatro. Você faz semeaduras cênicas. Aguardemos que brotem.

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