O sonho emprestado (conto). Parte 1: Sobre homens, flautas e parafusos

JOSÉ CARLOS FINEIS – É curioso notar como detalhes insignificantes, coisas aparentemente sem importância, podem ter grandes repercussões para indivíduos, países e até para a humanidade. Sabe aquele parafuso que o mecânico esquece de apertar ao recolocar a tampa da caixa de não sei o quê na fuselagem do avião, antes de liberá-lo para o voo? E que, a oito mil metros de altura, logicamente se solta e faz com que a tampa seja arrancada pelo vento, fazendo com que a descompressão abra um rombo na fuselagem, um cabo se rompa e duzentos e tantos homens, mulheres e crianças sejam atirados contra o solo? Pois é assim. Nosso cotidiano está repleto de parafusos insignificantes e que podem, entretanto, causar grandes mudanças, para o bem e para o mal – só não vê quem não quer.

Fico imaginando o que teria ocorrido a Francisco, o personagem deste conto – a quem conheço pessoalmente, pois trabalhamos juntos durante algum tempo –, se não tivesse esquecido aberta uma estreita fresta de janela na tarde de terça-feira, 26 de dezembro de 2017, no apartamento onde passava os dias e as noites sozinho. Porque foi por essa fresta que o som de uma flauta transversal sendo aprendida – um exercício de flauta, portanto – reverberou para dentro do apartamento, introduzindo um elemento novo nos dias sempre iguais de Francisco e detonando, como naquela história da borboleta que bate asas no Japão e provoca um furacão na Flórida, uma cadeia de mudanças que viriam a ter grande impacto em sua vida e, por consequência, no desfecho deste conto.

A princípio, Francisco ficou incomodado. Alguém na vizinhança aprendendo a tocar um instrumento musical é sempre um incômodo em tese, mesmo que seja uma flauta e não uma guitarra amplificada ou essa ferramenta do diabo a que chamam bateria. Mas só a princípio. Porque flauta, mesmo quando não é doce, tem um som doce – talvez o mais doce dentre todos os instrumentos. Assim como os músicos e maestros arranjadores, os diletantes e curiosos sabem, como eu sei, que cada instrumento tem sua voz e induz a um certo sentimento. O oboé à solidão, a harpa ao sonho, as trompas ao arrebatamento, o baixo à introspecção, os tambores às batalhas de amor e de guerra; o piano ao amor, e a flauta… Bem, já falamos sobre a flauta. Para mim, e felizmente para Francisco, o som da flauta, doce ou não doce, inspira inocência, pureza. Numa palavra: doçura.

Aos poucos, Francisco – que não fazia nada na vida a não ser passar os dias e noites em seu apartamento, sem ler jornais, assistir à TV ou interagir nas redes sociais –, adquiriu o hábito de abrir a janela todas as tardes, pouco antes do horário do ensaio, para deixar o som da flauta entrar. Um dia, enquanto ouvia de olhos fechados, sentado perto da janela, teve uma espécie de epifania. Pensou em como era belo uma criança – só podia ser criança – praticar durante horas, todos os dias, com admirável dedicação, aquilo que, pelo menos até aquele seu estágio de vida, considerava uma perda de tempo, algo inútil em um mundo sem graça, perverso e já repleto de inutilidades: a música.

Francisco começou a cismar sobre isso, e concluiu que uma criança que dedica tanto tempo a aprender um instrumento – mesmo consciente de que, na melhor das hipóteses, será um musicista profissional mal remunerado em um mundo que não sabe apreciar a beleza –, só pode ser alguém que ama a vida e as pessoas. Transitando de um pensamento a outro, tentando equilibrar-se sobre eles como um urso polar que salta de bloco em bloco de gelo no verão ártico, começou a rever conceitos em que acreditara com firmeza até então, e que se resumiam numa visão pessimista da vida e das relações humanas, bem como de nossa breve, sofrida e inexplicável passagem pela Terra.

O som da flauta daquele aprendiz inspirou em Francisco, de maneira sutil a princípio, festiva depois, um sentimento bom, de confiança na vida, de crença no ser humano. Nem tudo era carniça, interesses, conflitos e egoísmo, afinal.

Enquanto ouvia aquela criança praticar escalas incansavelmente, ou tocar trechos de peças que não conhecia, Francisco começou a perceber que os músicos, assim como os atores, os poetas e os bailarinos, aprimoram suas habilidades durante anos, por vezes com renúncias dolorosas no que se refere ao lazer e ao dinheiro, para oferecer algo de bom às pessoas, sem lhes perguntar em que candidato votaram, se são revolucionárias ou conservadoras, se pagam impostos ou roubam dinheiro público, se amam alguém do sexo oposto ou do mesmo sexo, se traem ou são traídas, ou mesmo se gostam ou não gostam de arte.

Um músico, quando sobe ao palco, entrega a todos, indistintamente, o que tem de melhor, porque, com seu espírito generoso, entende que todos merecem usufruir da beleza da música. E, levando o pensamento mais adiante, Francisco concluiu que o mesmo deve ocorrer em diversas outras profissões – pedreiros, cirurgiões, policiais, motoristas, professores –, a não ser, talvez, com um ou outro juiz de futebol, magistrado ou jornalista tendenciosos, que se recusam a dignificar com a isenção a natureza humanitária de seu trabalho, além, é claro, daquele mecânico relapso que não aperta o parafuso da portinhola do avião.

Transitando de um pensamento a outro, tentando equilibrar-se sobre eles como um urso polar que salta de bloco em bloco de gelo no verão ártico, começou a rever conceitos em que acreditara com firmeza até então

Mas voltemos a Francisco. Para entender a dimensão das mudanças que aquele som de flauta produziu em seu espírito, é fundamental conhecê-lo um pouco mais, a começar pela forma como era chamado – pelas costas, é claro, até porque jamais dava as caras – na vizinhança onde vivera a infância, a juventude e a idade adulta: o ermitão.

Não sei se “casulo” seria a palavra mais adequada para definir o apartamento de sobrado de Francisco, localizado sobre um salão comercial desativado havia décadas, em um dos bairros mais tradicionais e desvalorizados da cidade, porém ainda movimentado e cheio de vida que fluía através das ruas e mercadinhos e salões de beleza. Talvez uma definição melhor fosse cápsula, ou compartimento. Algo que estava ali e que fazia parte do todo, mas que se mantinha fechado, de dentro para fora e de fora para dentro. E que, de certa maneira – assim como o próprio morador –, era como se não existisse.

Com cômodos grandes e mobília pesada, conservada mais pela falta de uso do que por flanelas e cuidados, o apartamento de Francisco só perdia no quesito isolamento para o salão do térreo, onde funcionara durante décadas a padaria de seus pais, e que permanecia fechado havia mais de trinta anos, desde que, com intervalo de poucas semanas, a mãe, dona Joana, morreu de infarto e o pai, seu Antônio, desiludido com a perda da companheira, sócia e – em largo e bom sentido – chefe, resolveu encerrar o negócio e morrer também.

Francisco, filho único, nunca saiu da casa dos pais, aos quais ajudou na padaria, com entregas e pequenas tarefas, desde os 12 anos de idade. Depois do Serviço Militar, poucos meses antes da morte dos pais, prestou concurso público para oficial de justiça, foi aprovado e, nessa função – que, para ele, era uma fonte permanente de ansiedade, desgosto e aflições –, virou-se como pôde durante 30 anos. No dia em que se aposentou, depois de se despedir dos colegas no Fórum, passou por um supermercado e chegou em casa carregado de sacolas, deixando parte da compra para ser entregue no dia seguinte.

Aquela não foi uma compra comum, entretanto. Foi um ato simbólico – o prenúncio de um autoexílio, quase como ocorre com aqueles americanos malucos que vão viver nas montanhas geladas ou constroem bunkers no quintal de suas casas e os enchem de comida em conserva, água e remédios, à espera de uma guerra nuclear, de uma erupção do supervulcão do parque de Yellowstone (capaz, acreditam, de cobrir a América do Norte de cinzas e gases tóxicos) ou da queda de um cometa como aquele que, segundo se informa, matou os dinossauros 65 milhões de anos atrás.

Não era o fim do mundo que Francisco esperava, ao encher a geladeira de comida. Ele queria apenas viver só – o que não é loucura, nem pecado, nem defeito. Seu anseio por isolamento era antigo. Talvez tenha dado muita atenção aos pais quando lhe ordenavam (a mãe) ou suplicavam (o pai) para que não brincasse na rua com os outros meninos, já que podia quebrar a perna, ser sequestrado pelo homem do saco ou, como ocorrera com um certo Gaetaninho, de quem os pais tinham ouvido falar, correr inadvertidamente para a frente de um bonde e morrer atropelado.

Essa tendência ao ostracismo fora reforçada por alguns fatos sem gravidade, porém marcantes, da biografia de Francisco. Certa vez, tentou recuperar uma pipa subindo em uma árvore. Caiu e ficou com a perna enroscada numa cerca de arame farpado, durante horas, enquanto os vizinhos tentavam livrá-lo dos espinhos metálicos com alicates, sem anestesia.

Outro episódio traumatizante foi quando o professor de educação física o convocou para a seleção de basquete. “Você tem um dom natural para o esporte”, disse o velhaco, que fumava na frente dos alunos e que, ao que consta, devia sua tez vermelha não à exposição ao sol, mas ao hábito de escapulir entre uma aula e outra para tomar uma pinga.

Dona Joana, que devia ter sido uma atleta frustrada nesta vida ou em vidas passadas, recebeu a convocação do filho de forma esfuziante, como se aquilo fosse uma comenda ou coisa parecida. Ficou tão feliz que traiu seu estilo discreto de lidar com as pessoas no caixa da padaria, e encontrou um jeito de contar a novidade para todos os clientes, mesmo aqueles que não eram seus conhecidos.

No primeiro treino da equipe de basquete, Francisco compareceu com uniforme novo. Calção, camiseta sem mangas e sapato tênis comprados às pressas por dona Joana que, fato raro, deixou a padaria “sozinha” com o marido (palavras dela) para ir até uma loja de artigos esportivos. Porém, depois de dez minutos de bandejas e passes, o professor chamou Francisco fora da quadra e disse que tinha havido um engano: era outro o Francisco que ele queria convocar. Jogou o cigarro no chão, expeliu a fumaça olhando para o pé que pisava a bituca e, indiferente ao sofrimento do garoto, saiu andando sem pedir desculpas.

Já que o assunto é Francisco, não seria indiscreto informar que entre os 20 e os 40 anos de idade ele teve quatro namoradas de breve duração. Mas – conforme ele próprio me contou recentemente, quando nos encontramos numa padaria e tomamos café juntos –, sem habilidade na arte de agradar as pessoas e principalmente as do sexo feminino, ficava atrapalhado na presença das garotas, não sabia conversar, falava sandices e elas acabavam se afastando naturalmente, assim que percebiam que ele não era nem espirituoso, nem carinhoso, nem divertido, nem nada.

(Neste ponto, peço licença – talvez de forma impertinente e que pode até ser considerada machista – para registrar a teoria de um amigo dado a filósofo, segundo a qual um homem espirituoso e divertido, ainda que não seja belo e endinheirado, tem mais chances de agradar uma mulher do que um homem “apenas” rico e bonito, mas que não seja divertido e espirituoso. “Fazer uma mulher rir é meio caminho andado para conquistar seu coração”, defende esse meu amigo, não exatamente com essas palavras. Fecha parêntese.)

(Continua)

Para ler a segunda parte deste conto, clique aqui.

Imagem de Couler por Pixabay

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Um comentário em “O sonho emprestado (conto). Parte 1: Sobre homens, flautas e parafusos

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  1. Fineis que leitura edificante, de escala em escala ou melhor de conto em conto recebo uma mensagem diferente, uma aula.
    Obrigada!

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