O sonho emprestado (conto). Parte 2: O triste refúgio à prova de vida de Francisco, o solitário

JOSÉ CARLOS FINEIS – Francisco não era infeliz com a vida que escolhera para si. Ao menos, não antes de o som da flauta virar seu mundo de ponta-cabeça. Pelo contrário. Era lá, em seu bunker superprotegido por grades, cadeados, correntes, vidros blindados, câmeras e sistemas de alarme com sensor de presença que ele se sentia confortável, descontraído, satisfeito. Se felicidade não fosse algo tão difícil de definir, talvez fosse possível afirmar que Francisco era feliz. E tanto maior era seu bem-estar, em seu reduto à prova de interferências e imprevistos, quando mais se dedicava a comparar sua rotina atual com os tempos de oficial de justiça, em que era obrigado a interpelar as pessoas para, quase sempre, dar-lhes notícias ruins – convocações para depor, apreensões de veículos, reintegrações de posse, ordens de despejo. Portador de más notícias, tratado por muitos como um mensageiro do diabo, sentia-se, em seu trabalho e na vida de maneira geral, como que um bicho de zoológico, só que às avessas.

O bicho de zoo – qualquer um – deve (pelo menos é o que se imagina) sentir falta de uma existência na natureza selvagem, onde pudesse dar expansão, sem amarras, a instintos milenares gravados em seu DNA e cumprir seu ciclo natural de vida, se não fosse devorado antes. Crescer, caçar, correr para apanhar uma presa ou subir em árvores para não ser apanhado, cantar e dançar a fim de atrair as fêmeas ou executar artifícios exóticos como o pássaro-cetim da Austrália (Ptilonorhynchus violaceus), que conquista a parceira construindo um ninho de linhas arrojadas e enfeitando-o com objetos coloridos, especialmente os azuis, são coisas que não se faz em uma jaula ou recinto de uns poucos metros quadrados.

Francisco, ao contrário do pássaro-cetim, dos tigres, dos macacos e das girafas, sentia-se “preso no mundo” (palavras suas) quando fora de casa e livre, verdadeiramente livre, apenas depois que retornava para o apartamento e dava duas voltas na chave de quatro segredos, puxava duas pesadas trancas de metal e colocava cadeados em cada uma delas, talvez imaginando que um ladrão munido de um ímã poderoso poderia fazê-las correr se estivessem apenas enfiadas nos encaixes dos batentes. E esta, é importante ressaltar, não era propriamente a porta da rua. Para entrar no corredor do sobrado, ligando-o com a rua, havia uma porta de ferro também dotada de fechadura e trancas e, colocado estrategicamente no meio da escadaria, um portão ainda mais pesado, com grades que lembravam as de uma prisão, fechado a cadeado pelo lado de dentro.

O claustro de Francisco não seria possível sem o auxílio de uma pessoa de confiança no mundo lá fora. Quem ajudava o eremita nas tarefas externas – que excluíam apenas consultas médicas e exames clínicos, além de raríssimas atividades impossíveis de serem executadas por procuração – era um ex-office boy do Fórum, de reconhecida inteligência e honestidade, chamado Joaquim. Anos depois da aposentadoria de Francisco, Quim, como era conhecido, conseguiu com muito esforço colar grau no curso de Relações Internacionais, mas, apesar de sua competência e vontade de trabalhar, tornara-se mais um a engrossar as fileiras de jovens desempregados e desesperançados da Era Temer.

A prestatividade de Quim era recompensada com pequenas gorjetas e, vez por outra, quando realizava tarefas mais complicadas, com transferências mais vultosas de conta-corrente para conta-corrente – entendendo-se, por vultoso, algo em torno de 100 reais. Curiosamente, embora confiasse em Quim a ponto de fazer dele seu procurador, Francisco só muito raramente se encontrava com ele frente a frente. Falavam por telefone, conversas curtas e objetivas, que dispensavam os “como vais” e os abraços.

Cabia a Quim, entre outras obrigações, ir à pizzaria do bairro duas vezes por mês para comprar uma pizza e levá-la ao bunker do eremita – que permitia a Quim comprar outra para si, a título de remuneração. Para apanhar sua pizza, Francisco desenvolvera um sistema simples de corda de nylon com uma sacola na ponta. Por ali subia a pizza na posição vertical e chegava, geralmente, com azeitonas e outros componentes soltos amontoados numa das extremidades da caixa, mas Francisco não se importava com isso. Quim – assim como o resto da humanidade – jamais passara da primeira porta de ferro que dava para a calçada. O botão de destravamento desta porta era usado, praticamente, apenas para os leituristas de água e luz terem acesso ao corredor de entrada do imóvel.

Depois das mudanças – a princípio sutis, por fim mais profundas – que o som da flauta causara em seu espírito, Francisco naturalmente ficou curioso por saber quem era, afinal, aquela criança que abrira uma fresta em seu coração como aquela da janela, inspirando em sua alma naturalmente amedrontada uma visão menos tenebrosa do mundo. Certa noite, depois de avaliar os prós e os contras, decidiu ligar para Quim e pedir que, da maneira mais discreta possível, procurasse descobrir quem era o aprendiz.

– Não precisa fazer dossiê. Te dou cinquentão por essa informação. Quero saber quem é, filho ou filha de quem, como vive, onde estuda. O básico do básico do básico. Coisa que você descobre numa ida ao barbeiro.

A agulha deslizou pelos sulcos e a música encantadora ressoou naquela antiga sala novamente, depois de muitas décadas. Francisco bebericou o vinho, enquanto lágrimas de emoção corriam por suas faces

Quim não levou mais do que 24 horas para chamar Francisco ao telefone com a ficha completa da criança. Era uma menina de doze anos, brasileira filha de pais chineses ou coreanos – ninguém conseguia afirmar ao certo o que eram –, que estudava de manhã na escola estadual do bairro. Seus pais trabalhavam juntos em um bar acanhado da avenida principal do bairro, onde ficavam desde as sete da manhã até quando houvesse fregueses. Além de estudar, Clara (a quem os pais e o irmão menor chamavam Xiara na intimidade), ajudava com as tarefas da casa, geralmente fazia ou esquentava o almoço para si e para o irmão, descansava um pouco e dedicava o resto da tarde e começo da noite à prática do instrumento. As aulas de música eram às terças à noite e sábados pela manhã, na casa de um professor do bairro, que cobrava quase nada pelas aulas.

– Eles têm posses?

– De jeito nenhum. São uma família humilde, que rala muito pra sobreviver. Esses chineses ou coreanos, não se sabe ao certo, em sua maior parte vêm para o Brasil para ser explorados em bares e lanchonetes.

– Obrigado, Quim. Essa parte eu conheço. Em que casa a menina mora? Será que consigo ver a casa daqui da minha janela?

– Não dá, Francisco. A família mora na mesma calçada, três casas à esquerda de sua casa. Você deve recordar. Uma casa com jardim e muro não muito alto, portãozinho de ferro. Tem um pé de romã e um mamoeiro perto do muro.

– Ah, eu não me recordo. Há muito tempo não vou para aquelas bandas – disse Francisco, sem perceber o quão estranha era a frase que acabara de pronunciar.

– Se quiser, posso fazer uma foto da menina pro senhor ver.

– Não! Pelo amor de Deus. O que vão pensar? Já me acham esquisito por não sair de casa. Podem achar que sou algum tipo de pedófilo. Não, por favor. Deixe a garotinha em paz e não conte a ninguém que perguntei sobre ela. É pura curiosidade de um velho solitário que não tem muito o que fazer.

– Compreendo.

– Quim, mais uma coisa. Você poderia, por favor, pedir uma pizza e uma garrafa de vinho? Não precisa ser caro. Um tinto seco de 30 reais está ótimo. Compre uma pizza pra você também. Já estou transferindo o dinheiro.

– Sim. Me dê meia hora que eu cuido de tudo. Francisco, ia esquecendo de uma coisa.

– O quê?

– Essa menina, a Clara ou Xiara, ela tem um sonho. Quer fazer faculdade de música e depois se especializar em flauta na Europa. Seu sonho é viajar pelo mundo como flautista de uma grande orquestra.

– Ela quer tudo isso, é? Poxa, ela leva a música a sério mesmo.

– É o sonho dela, né, Francisco? Todo mundo tem um sonho.

Naquela mesma noite do telefonema, enquanto esperava o colaborador trazer a pizza e o vinho, Francisco tirou da parte de baixo da estante da sala um antigo aparelho de som, do tipo 3 em 1. Depois, revirou a estante até encontrar os velhos discos de vinil que ouvia quando os pais ainda eram vivos e os três – pai, mãe, filho – eram uma família unida e, no mais das vezes, feliz.

Francisco, na adolescência, tivera algum interesse por música clássica. Ainda estavam praticamente intactos – até porque o interesse não se manteve por muito tempo – os long-plays que comprara em bancas de revista, sempre aos sábados ou domingos, ao longo de várias semanas, numa promoção de fascículos de uma renomada editora. Cada fascículo vinha acompanhado de um LP.

Ligou a vitrola, que surpreendentemente funcionou após tantos anos em desuso. Colocou um disco qualquer para testar. Estava funcionando. Depois revirou a pilha de LPs em busca de um vinil específico. Sabia o que queria ouvir. Era a Suíte Número 1 de Peer Gynt, trilha musical composta por Grieg para uma peça teatral de Ibsen, e que adquiriu vida própria por sua beleza, sendo incluída nos concertos de orquestras ao redor do mundo. A escolha tinha uma razão de ser. A Suíte Número 1, intitulada A Manhã, começa com um encantador solo de flauta transversal, secundado por um clarinete, os quais são envolvidos aos poucos, num crescendo, por cellos e violinos, trompas e trompetes, mas sempre retornando à delicada flauta que a certa altura parece imitar o trinar de passarinhos.

Em pouco tempo chegaram o vinho e a pizza. Francisco livrou-se logo de Quim e voltou para sua vitrola. Abriu a garrafa de vinho, encheu uma taça e desligou as luzes do lustre, deixando as cortinas abertas para que apenas a iluminação da rua penetrasse na sala espaçosa. A agulha deslizou pelos sulcos e a música encantadora ressoou naquela antiga sala novamente, depois de muitas décadas. Francisco bebericou o vinho, enquanto lágrimas de emoção corriam por suas faces.

– A Clara! – ele brindou, de si para si, sentado em uma poltrona diante da vitrola. Depois ficou melancólico, ao lembrar do que Quim dissera antes de se despedir. “Todo mundo tem um sonho.” Se todos têm um sonho, qual era o dele? Nunca, em todos esses anos, parara para pensar nisso. Pensara apenas em se isolar, em viver fora do mundo – o que, percebia agora, poderia ter sido uma decisão não muito acertada, afinal. Sozinho, com casa própria e um salário razoável, guardara uma quantia de dinheiro que investira em papéis, juntando uma pequena fortuna com a qual poderia realizar muitos sonhos. Mas, veja só: enquanto a maior parte de nós tem sonhos e não pode realizá-los por falta de dinheiro, Francisco vivia a situação inversa. Tinha dinheiro, mas não conseguia pensar em nada que fosse, para ele, realmente importante. Não havia, em seu horizonte, nada que lhe desse algum sentido de realização. Algo de que pudesse se orgulhar, ou pelo que fosse lembrado um dia, ou, na pior das hipóteses, alguma coisa capaz de lhe proporcionar algum prazer.

O apartamento, que durante décadas fora um lar mais que perfeito, tornou-se, de repente, pequeno para Francisco. Ele passava os dias ouvindo os antigos long-plays da coleção de fascículos. Não era um grande conhecedor de música, mas sabia apreciar a beleza de uma melodia, as sutilezas de um arranjo. As janelas outrora trancadas viviam abertas. Agora era o som do apartamento que escapava para a rua, por vezes até tarde da noite. Somente quando se aproximava o horário de ensaio de clara, Francisco desligava o som e ia sentar-se numa poltrona perto da janela, para ouvi-la tocar. Com frequência, pensava que aquele som de flauta, mesmo quando reproduzia escalas sem fim, era mais bonito que o de todas as orquestras que ouvira até então.

Um dia, Francisco teve um impulso que acabou por surpreender a ele próprio. Telefonou com Quim e pediu-lhe que preparasse o terreno. Queria sair de casa. Porém, não iria longe. Aliás, sairia apenas alguns metros para fora de sua porta de ferro. Queria conhecer Clara. Tinha algo muito sério a pedir para a menina e a propor para seus pais.

(Continua)

Se você chegou até aqui, obrigado pela companhia. Leia na próxima segunda-feira, dia 3/6, a terceira e última parte deste conto.

Primeira parte:

O sonho emprestado. Sobre homens, flautas e parafusos

Foto de Booth Kates por Pixabay

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