A ignorância nossa de todos os dias passa na tela da TV

FREDERICO MORIARTY – No início dos anos 80, a televisão continuava sendo o grande desagregador da família. Educadores, filósofos e psicólogos enxergaram os efeitos perniciosos da telinha na mente das crianças. Como sempre se esqueciam que os adultos estavam tão ensandecidos quanto os infantes.

Os pais passavam as tardes de domingo assistindo Silvio Santos, as noites, vendo Fantástico, acompanhando três novelas durante a semana e, de quebra consumindo enlatados como Cyborg, Ilha da Fantasia, Dallas e Casal 20. Mas o problema era o filho assistir desenhos como Tom & Jerry e Scooby Doo. Tempos da maravilhosa escola sem partido e do grande aprendizado da tabuada (logo após a cantata do hino Nacional).

David Cronenberg é o cineasta canadense do absurdo, do surrealismo, das anomalias mentais. Dirigiu A Fuga, Scanners (no Brasil de “Juntos e Xalou Naum” virou “Sua Mente Pode Explodir”), Gêmeos Mórbida Semelhança (outro absurdo, pois o original é Dead Ringers). As personagens atormentadas de Cronenberg são muitas. A mais sombria delas apareceu em Videodrome (como sempre, o tradutor tupiniquim inventou um nome: Síndrome do Vídeo).

David Cronenberg e James Wood nas filmagens de Videodrome

James Wood (Max Renn, no filme) é proprietário de um pequeno canal a cabo. Sua companheira – Deborah Harry ( Nick Brand) – começa a apresentar um comportamento estranho. Aos poucos, a trama se revela: uma empresa estava produzindo Snuff Vídeos. Filmes com cenas reais de assassinatos, mortes, estupros e violência em geral. Muito antes da Deep Web. A dependência física e psicológica do casal com as fitas só aumenta.

Max Renn tenta descobrir a origem dos filmes e fitas de videocassete meio alucinógenos e pervertidos. Encontra a explicação num casal meio fascista, regada a teorias conspiratórias e com uma visão doentia do que é ciência (qualquer semelhança com Olavos, Jairs e Weintraubs é mera coincidência). Mais dramático ainda: os filmes possuíam uma espécie de vírus tecnológico que destruía os controles neuroniais de quem os assistia.

A televisão nos alucina. Cria hábitos bipolares e dependência psicológica. Impõe o que deve ser visto, ouvido e – principalmente – consumido em larga escala. Videodrome é tão real quanto parece.

Um ano depois do filme (1984), George Stone, Annabel Jankel e Rocky Morton, três diretores de televisão, criaram o primeiro artista cibernético da história. Num futuro não muito distante, o mundo é dominado pelas grandes corporações empresariais e por duas ou três imensas redes de televisão. As pessoas não pensam por si próprias. Tudo é definido, escolhido e imposto pelos programas de tevê. O mundo é repleto de uma maioria de pessoas medíocres, de gosto duvidoso e pouca inteligência.

Max Headroom é um apresentador ultraegocêntrico, narcisista, racista e preconceituoso de um misto de talk-show, apresentações musicais e noticiários. Tudo de forma desconexa, sem créditos e disforme. Headroom destila sua ironia ácida, típica de um bem sucedido self made man.

No programa não há culpa alguma em ser politicamente incorreto. O único problema é a falha técnica computacional que o faz gaguejar várias vezes e soltar sua risada sarcástica. Max tornou-se um fenômeno pop. No Brasil passava na extinta Rede Manchete no horário do Fantástico. Ou seja, a audiência dava traço. Ele virou filme, seriado, deu entrevista para David Letterman e música de Eminem.

Em 1987, num dos primeiros ataques de hackers, utilizaram-se de sua imagem. Na história, Headroom era, em verdade, o jornalista Edison Carter que entrara em coma num acidente (na vida real, o ator que o interpretava era Matt Frewer).

A difícil preparação de Matt Frewer

Suas últimas palavras estavam no bilhete: “Max. Head Room 2.3 mt”. Os cientistas o reinventarem como um ser meio humano, muito cibernético. Max Headroom é uma crítica feroz e alucinada à classe média e ao poder “devastador da mente” que tem a televisão. Foi o primeiro personagem cyberpunk das artes. No mesmo ano da aparição de Max Headroom, William Gibson escrevia Neuromancer. Inteligência artificial, distopia, hackers, ficção científica em campos e universos paralelos, tudo em conjunto formam o cyberpunk.

Tanto Cronenberg quanto Headroom são alegorias dum tempo passado. A televisão perdeu um pouco de sua força com o computador e mais recentemente com o “esmartefone”. Mas, infelizmente, o controle da mente pelas diversas mídias, os hábitos inventados ad aeternum pelas mesmas e o consumo desenfreado de desnecessidades permanece. O homem médio em sua adoração da ignorância parece ter vencido, afinal como cantavam os Titãs no mesmo anos 80: A televisão nos deixou burro, muito burro demais.

Cena antológica do filme Videodrome

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