“Bravo, Victorio!”

RITA BRAGATTO – Victorio é meu vizinho aqui na Itália. Um homem de 74 anos. Desde que cheguei, o via apenas em seu pequeno ritual: de manhã, quando o sol surgia, ele punha uma cadeira na rua e lá permanecia em silêncio por horas. Frequentemente, cochilava. Seu semblante era triste. Mas um dia o vi ainda mais triste. Não resisti. Mesmo com meu pequeno vocabulário, perguntei o que se passava.

Não precisava ser fluente em italiano para entender. Ele me mostrou o seu varal, onde estava pendurado um terno preto e uma camisa branca. Copiosamente, chorou a morte da sua esposa, que aconteceu em janeiro. Foram cinqüenta e poucos anos de casados. Somente quatro meses depois ele conseguiu olhar para o vazio que ficou.

“O que vai ser dos meus dias?”, ele me perguntou. Eu só escutei. Não ousei responder. Também fiquei viúva. Sei que, no auge da dor, nada do que os outros dizem nos consola. A morte do nosso parceiro nos dá aquela sensação de que fomos “abandonados no vácuo”. A realidade impõe um veredicto. Mas a gente não aceita.

Essa resistência é o chamado luto. É o tempo que levamos para aprender a lidar não apenas com a ausência do outro mas, principalmente, com o que deixamos de ser por não contarmos mais com esta pessoa em nossa vida. A gente se vê com um punhado de sonhos/planos. E não tem a mínima ideia do que fazer com tudo aquilo.

Isso acontece porque quando nos relacionamos, muitas vezes, terceirizamos nossa rotina. Nossa vida. A gente também faz ou deixa de fazer muita coisa em nome do outro. Até chama isso de amor. Mas, a longo prazo, isso pesa no relacionamento.

Como psicanalista, eu acompanho alguns casais. E vejo que grande parte das crises nasce desse ponto onde alguém abre mão da sua essência; se “sacrifica” pelo outro. Todos nós precisamos acordar de manhã e ter um propósito pro nosso dia. Não só pra “aliviar” pro outro. Mas por nós! É óbvio que um casal deve ter atividades e sonhos em comum. Essa é uma das razões do casamento. Mas manter a individualidade e, principalmente, a responsabilidade pela sua própria felicidade, é muito importante para uma relação saudável.

Nesses quase dois meses em que estou morando aqui, tenho conversado com Victorio. Tento chamá-lo de volta para a vida. Dizer a ele o quanto é importante estabelecer uma nova rotina. Preencher o seu dia com atividades que lhe dêem prazer.

Semana passada, eu estava voltando da feira e ouvi um grito da praça: “Buongiorno, doutora!” (ele me chama assim, apesar de eu explicar que não sou médica). Enfim, a cena me comoveu. Victorio estava sentado em frente à sua barbearia, à espera de um cliente. Com um tímido sorriso no rosto ele me disse: “Você sabe que eu já sou aposentado. Fazia muito tempo que minha barbearia estava fechada. Resolvi abri-la hoje. Trabalhar algumas horinhas. Estou preenchendo meu dia com coisas que gosto, doutora.” Desta vez, eu tinha o que dizer a ele: “Bravo, Victorio!”

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
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10 comentários em ““Bravo, Victorio!”

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  1. Oi Rita adorei a estória do Victorio ninguém está preparado pra perder quem ama mas tem que tocar a vida porém não deve ser difícil.

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    1. Muito obrigada pela leitura e reflexão, César. Realmente, ninguém está preparado pra morte. Mas precisamos nos esforçar pra aprender com ela a experienciar a vida em sua plenitude!

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    1. Escrevi com o coração e fico muito feliz ao saber que também toco o coração das Pessoas. Obrigada pela leitura e carinho ao comentar!

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