Cinquenta anos subindo as montanhas de Brokeback para chegar a Stonewall Inn

FREDERICO MORIARTY – No ano de 1969 eles não podiam beber em paz.  Deveriam ser invisíveis, afinal era crime ter amor. Não podiam dançar ao ar livre. Jamais poderiam demonstrar afeto em público. Há 50 anos, no coração do capitalismo, no centro do universo das ideias, quase defronte à estátua da Liberdade, os gays eram tratados como escória, como doença, como criminosos. Eram trancados nos armários da intolerância e preconceito. 1969 foi um verão tórrido.

No famoso bairro do Village, na rua Christopher, no coração intelectual de Nova York, existia um abrigo, um refúgio anti-guerra, um atalho para a dignidade. Num bar controlado por mafiosos (que, vez ou outra, extorquiam os frequentadores), eles podiam beber e até dançar pela madrugada toda: STONEWALL INN foi, senão o primeiro, certamente o mais importante bar gay da história.

Nele, a comunidade LGBTQ encontrou sua força. Stonewall era um bar udigridi; seus frequentadores eram rejeitados pela sociedade careta e homofóbica e vinham das regiões mais pobres de Manhattan e cidades vizinhas, dos guetos. Saíam da exclusão e da invisibilidade. Quase eterna invisibilidade.

Ennis (Heath Ledger) conhece Jack Twist (Jake Gyllenhaal) num rancho em 1963. Os dois foram trabalhar com pastoreio de ovelhas. Aos poucos o companheirismo e a amizade se revelam bem mais estreitos. O diretor Ang Lee transformou em filme um conto de Annie Prouxl “Brokeback Mountain” (nossos tradutores deram um imenso espoiler no título: por aqui era O segredo de Brokeback Mountain).

Ennis e Jack ao final da temporada de trabalho nas montanhas tem um beijo roubado, uma noite tórrida e uma despedida romântica. Partem para destinos distintos e vidas invisíveis. Ennis casa com a amiga de infância e tem duas filhas.  Como um bronco, macho, hétero e cowboy poderia viver uma história gay?

Jack é mais aberto. Vai ao Texas, também se casa, com uma cowgirl, filha de um milionário. Mas vive em convulsão. São opostos em tudo: um introspectivo e o outro extrovertido; um racionalizando e brecando a sexualidade, o outro experimentando novos desejos; Ennis caipira e Jack cosmopolita. O único em comum, o vínculo que os aproxima — revelado na noite fria em frente à fogueira, data do primeiro beijo — é o amor. Os críticos elegeram Brokeback Mountain a mais bela história romântica de 2005. Justo.

A separação, a distância, a vida tradicional que cada um levava, não apagou o sentimento e o desejo mútuos. Jack e Ennis passaram a se encontrar uma vez por ano numa casa construída para a invisibilidade daquele amor. As férias que traziam a paz, o prazer e a vivência romântica dos antigos vaqueiros. Uma história, como tantas do universo LGBTQ, escondida, silenciada, rejeitada e muitas das vezes encerrada com violência e dor.

Brokeback Mountain quase levou o Oscar de melhor filme (ganhou o de roteiro). Era pedir demais que a Academia de Hollywood premiasse uma linda e triste história de amor gay. Foi proibido em dezenas de países. Outros tantos cortaram as cenas de sexo. Mesmo nos EUA, em 2009, uma professora de ensino médio foi processada e condenada em US$ 480 mil, somente pelo crime de ter exibido o filme para seus alunos poderem debater a questão de gênero e a orientação sexual.

A cena final, após uma discussão com a filha, Ennis, vê a blusa do primeiro encontro com Jack pendurada e escondida detrás da porta, é uma aula de tolerância. O insight de tudo o que vivera e sofrera naquele amor verdadeiro e único, perpassa as lágrimas no rosto. Jack e Ennis não podiam dançar livremente, não podiam beber em público, não podiam se amar nas montanhas de Brokeback. A invisibilidade era necessária como em Stonewall.

No dia 28 de junho de 1969, dois policiais nova-iorquinos decidiram fazer uma batida mais severa no “bar gay”. Tudo se precipita. Prisões arbitrárias. Violência dos agentes da lei. Reação dos frequentadores com uma mini batalha campal. Policiais se refugiando dentro do bar com proteção dos donos traficantes. Confrontos pesados. Incêndio do ambiente. Mais e mais polícia.

A história correu pela ilha. Gays de todos os quatro lados resolveram sair do armário e caminhar até Stonewall Inn. O Village virou uma praça de guerra. Durante seis dias, os gays e muitos simpatizantes lutaram contra a opressão, a violência e a intolerância. Eles não queriam nem aceitavam mais ser invisíveis.

Duas semanas depois da batalha de Stonewall Inn, três homens Cis chegam à Lua. A mente humana sempre foi capaz desses paradoxos: produz uma tecnologia revolucionária capaz de viajar pelo espaço, mas tem um cérebro de uma pedra minúscula em não aceitar o outro, o diferente, aqueles que não cabem numa fórmula matemática exata.

No ano seguinte, seja em NY, San Francisco, Londres ou Paris, os gays iniciaram suas paradas para relembrar o 28 de junho de Stonewall. Mesmo no Brasil racista, misógino e homofóbico, o Orgulho Gay começou a reunir centenas de milhares de pessoas pelas ruas de São Paulo e outras capitais no final dos anos 1990. Invisíveis? Nunca mais.

Stonewall Inn hoje é patrimônio histórico e lugar turístico oficial do governo federal estadunidense. Brokeback Mountain parece um filme muito antigo. A invisibilidade, em muitos países, aparentemente desapareceu. Ilusões, afinal a violência e a homofobia permanecem. A exclusão social idem.

No Brasil, das falsas liberdades, o presidente eleito por uma legião de seguidores e partidários das ideias, profere, afirma e defende a ojeriza, a intolerância e a demonização do amor homossexual. Talvez ainda mais agressivo, por ser uma reação destemperada à força do Arco-Íris. A visibilidade incomoda demais às certezas absolutas. 

2 comentários em “Cinquenta anos subindo as montanhas de Brokeback para chegar a Stonewall Inn

Adicione o seu

  1. muito agradecido pelo compartilhamento….vou acompanhar seus posts

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: