Ficção fornece chave para se entender o Brasil de hoje

GERALDO BONADIO – Os países lusófonos comemoram hoje – em reverência aos 439 anos da morte do poeta Luís Vaz de Camões – o aniversário da Língua Portuguesa. Socorrendo-me do exemplar da “Lírica”, organizado por Massaud Moisés e editado pela Cultrix, que me acompanha desde os anos 1960, lembro, que ainda no século XVI ele anotava: “Todo mundo é composto de mudança” e, ajuntava ser a própria mudança mutável, posto “que não se muda mais como soia.”

Em séculos recentes, as mudanças têm alcançando o cerne das instituições e, em especial, o processo político. A grande bagunça que é o atual governo do país se insere na bagunça magna resultante da escolha, pelos norte-americanos, do homem-bagunça Donald Trump.

Recentíssima, tal realidade ainda não foi plenamente dissecada pelos acadêmicos. A melhor – se não a única – maneira de a entender, para quem, como eu, se alinha entre os simples mortais – é assistir alguns filmes e séries televisivas em exibição.

O aprofundamento das relações incestuosas entre as corporações e o governo dos EUA é retratado, com notável objetividade, em “Vice”, cinebiografia do ex-vice-presidente americano Dick Cheney que, na última premiação do Oscar, não obteve o reconhecimento merecido.

Igualmente essencial é “Brexit”, produção da HBO, dirigida por Tony Haynes e protagonizada por Benedict Cumberbatch que, na pele do político Dominic Cumings lidera uma campanha, baseada na manipulação midiática e, usando palavras de ordem mentirosas, convence a maioria dos britânicos a votarem a favor da desastrosa saída do Reino Unido da União Europeia.

Não menos importante é a série “The good fight” – cujas três primeiras temporadas acham-se em exibição na Amazon Prime -, que se tornou o principal drama – e o primeiro abertamente anti-Trump – da TV americana. Trata-se de façanha incomum, até porque duas das três principais personagens femininas – Diane Lockhart e Lucca Quinn, vividas respectivamente por Christine Baranski e Cush Jumbo – vieram dos infindáveis episódios de The Good Wife, completando-se o trio de mulheres fortes com Rose Leslie (Maia Rindel).

The Good Fight retrata a confusão mundial decorrente da era Trump e, de quebra, os riscos enormes que a capitalização, panaceia aqui defendida pelo ministro Paulo Guedes, em torno da qual a grande mídia se acha fechada, pode trazer para quem nela lastreia seu futuro. Os dez episódios da temporada inicial giram em torno dos percalços trazidos a Diane e Maia pela quebra do fundo de aplicações comandado pelo pai desta, o qual, subornando os órgãos fiscalizadores, ali implantou uma pirâmide financeira que deixa na penúria milhares de pessoas da classe média.

Nos dois filmes assim como na série, a nudez forte da verdade – para me socorrer agora de Eça de Queiroz, se deixa ver sob o manto diáfano da fantasia e fornece elementos indispensáveis para se entender a grande bagunça em que o Brasil foi transformado pelos seus supostos salvadores.

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