Se eu tivesse mais um dia para estar com você

JOSÉ CARLOS FINEIS – Era uma tarde de sol e céu azul, dessas em que dois amantes podem perfeitamente ser felizes apenas por sentar-se num banco de jardim, olhando-se nos olhos e acariciando os cabelos um do outro delicadamente com as pontas dos dedos. Ou em que a jovem mãe percebe com alegria que seu bebê acordou e se apressa a trocar-lhe as fraldas, entre beijos, pomadas, lencinhos perfumados e agrados, enquanto a janela aberta deixa que a brisa lá de fora renove o ar do quarto.

No entanto, naquele momento de trocar fraldas ou namorar, e de tantas coisas belas que podem ser feitas numa tarde de sol, estávamos ali – umas quarenta pessoas, não mais – para guardar em uma sepultura o corpo de uma amiga. Quero deixar registrado que isto não é uma reclamação: eu a admirava e faria tudo por ela. E, embora acreditasse que sua alma e consciência já tivessem partido, entendia perfeitamente que era preciso dar uma destinação adequada ao corpo.

Não havia prazer naquilo – a não ser, talvez, o prazer de cumprir uma tarefa dolorosa com dignidade. Não sentia tristeza. Apenas uma certa desilusão que me acompanha desde a infância e se acentua nesses momentos. Desilusão com a vida. Não prestei atenção às palavras do padre ou pastor. Estava (como tenho estado com frequência, se interessa saber) num estado de contemplação vazia.

Não entrei na fila para dar um último beijo na amiga, a quem abraçara e beijara tantas vezes, e de quem já sentia falta – principalmente de seu sorriso e de sua voz. Apenas observei sem emoção quando a tampa do esquife foi colocada e os parafusos, apertados. Depois, como fosse um dos amigos mais próximos e ela não tivesse muitos parentes, adiantei-me para segurar uma das alças do caixão, que seguiria até a sepultura não precisamente carregado, mas empurrado sobre um carrinho parecido com uma maca de hospital, dotado de rodízios giratórios.

Era um desses cemitérios antigos, com piso de lajotas de cimento. O carrinho enroscava aqui e ali, em lajotas quebradas e tufos de mato. Eu seguia de cabeça baixa com os olhos fixos no rodízio do lado direito, já que segurava a alça frontal desse lado e cabia a mim deslocar ligeiramente o trajeto, com um puxão ou empurrão lateral, para evitar que o rodízio atingisse um desses obstáculos e o carrinho travasse ou desse solavancos. Era tudo em que me concentrava. Sempre me dediquei com muito zelo aos deveres que a vida me impõe.

Foi então que aconteceu. Minha mente – ou alma, ou espírito, como queiram – se desprendeu de meu corpo e, embora minhas pernas continuassem a caminhar, meus olhos fixos no rodízio e meu cérebro concentrado em evitar os obstáculos, outra parte de mim passou a flutuar entre aquele pequeno e disperso grupo de pessoas, sem que pudesse vê-las, mas ouvindo perfeitamente trechos de falas, como se minha consciência fosse um mosquito que voasse entre elas sem se deter.

Os únicos sons que eu ouvia eram a marcha de nossos sapatos sobre as lajotas, o ranger dos rodízios e as vozes cujos donos eu não saberia identificar. E eu, que normalmente não me interesso pelo que as pessoas pensam ou dizem, lembro de ter sentido uma curiosidade muito grande sobre aquelas frases sussurradas e que, entretanto – quase todas incompletas –, provavelmente pareceriam, a qualquer outro ouvinte, nada além de conversa mole de enterro, jogada fora no caminho entre o oratório e a sepultura.

– Em janeiro. Depois disso perdi contato.

– Desgosto.

– Agora, falando sério: a culpa foi dela.

– Criou os dois sozinha.

– Como no colégio. Linda.

– Poucas e boas.

– Eram amigos apenas.

– Vive bêbado. É um descabeçado.

– Viver não pode ser só isto.

– Não acharam bilhete.

– Batia nela.

– Que céu lindo. Justo hoje.

– Deus, que Deus?

– Comprava sempre. Avon.

– Largaram a mãe.

– A vida é muito curta.

– Falavam no telefone todo dia.

– Não deviam trazer criança em enterro.

– Cagada foi largar o emprego.

– O dia todo ouvindo música.

– Passava batom, coitadinha. Apesar de tudo.

– Precisava pedir exoneração?

– A casa estava paga?

– Depressão. Aposto e jogo.

– Faltou alguém que lhe desse conselhos.

– Será que ela dava pra ele?

– Solidão.

– Não adiantava dar conselho.

– Pau d’água. Foi tarde.

– Tenho uma tela que ela pintou.

– Que merda, por que ela?

– Parecia feliz ultimamente.

– Não soube dar valor, o cretino.

– Podia estar doente.

– Essas coisas, só Deus sabe.

– Júlia, não saia de perto de mim!

– Ela era forte.

– Podia também ser fingimento.

– Um namorado novo. Ela me contou.

– Tudo. Janelas, tudo fechado.

– Nunca imaginei que fosse capaz.

– Só pediam dinheiro. Uns bostas.

– Largou ela, mas foi melhor. O cafajeste.

– Muito bonita ainda.

– Vivia com hematomas.

– Os peitos meio caídos.

– Tanta leitura enlouquece.

– Cheias de pôsteres, as paredes.

– Viver muito ainda.

– Acidente, com certeza.

– Será que brigaram?

– Sonhei com ela outra noite.

– Ele só queria trepar com ela.

– Os olhos, a boca.

– Essas músicas doidas.

– Coitadinha.

– Uma bailarina sobre um cavalo.

– Acho que era só virtual.

– Olha esse mato, que vergonha.

– Sacola cheia.

– 23 e 20, o mais novo.

– Mãe, é pra cá que trouxeram o Miguel?

– Será que ela o amava?

– Esta vida é uma merda.

– Largou pra criar os filhos.

– Queria a casa dela.

– Nada, pra ninguém.

– Nunca se queixava de nada.

– Sonhar demais enlouquece.

– Estava sorridente. Me deu um abraço apertado.

– Será que é nesta quadra?

– E aquele sorriso?

– Parecia bem outro dia, na feira.

– Gás.

– O mais velho está aí. Bêbado, pra variar.

– Tudo de pernas pro ar.

– Devia ser casado.

– É difícil pra uma mulher sozinha.

– Você viu se ele está por aí?

– Filho adolescente é foda.

– Era um cara bacana.

– Por que trocar de carro?

– Vou morrer sem entender.

– Lembra dos poemas que ela fazia?

– Se eu pudesse, se eu pudesse conversar com ela uma última vez. O que fiz ontem à noite? Fiquei assistindo àquele enlatado da TV. Estava frio, mas poderia ter ido vê-la. Teríamos tomado um café, falado mal das pessoas, lembrado de episódios engraçados dos tempos de colégio. Se ao menos eu soubesse.

Percebi que meu transe havia terminado. Reconheci minha voz nestas últimas palavras. Eram meus lamentos, ditos em voz baixa. O carrinho chegara a seu destino. Sem que as poucas crianças presentes dissessem qualquer coisa, assistimos imóveis ao trabalho do coveiro. Primeiro, retirou as coroas de flores de sobre o caixão e as dispôs sobre o túmulo. Com dois ajudantes, enfiou cuidadosamente a urna pela estreita abertura previamente preparada.

Observamos aquele homem colocar camadas generosas de massa de cimento e sobre elas, tijolos, até que sobrou uma pequena fresta que o obrigou a quebrar alguns tijolos com a colher, para vedá-la. Depois espalhou o cimento sobre os tijolos recém-assentados e alisou o reboco sem pressa. Ainda olhávamos como se não tivéssemos mais nada a fazer na vida, quando ele, finalizando seu trabalho, apanhou um palito de churrasco quebrado e escreveu a data no cimento. Estava terminado.

Eu estava doido por um café e me despedi rapidamente dos conhecidos. Afastei-me a largos passos. Não queria companhia para o café.

Fui chorar longe da vista de todos, à noite, em casa. Lágrimas espessas, amargas, com gosto de revolta, vergonha e saudade.

Imagem de fotozeit por Pixabay

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2 comentários em “Se eu tivesse mais um dia para estar com você

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  1. UM RETRATO FIEL DE UMA DESPEDIDA DE ALGUÉM QUE NÓS AMAMOS! E QUANTAS VEZES, OS COMENTÁRIOS SÃO ASSIM…MIL JULGAMENTOS….POUCO SABENDO DA REALIDADE ! PARABÉNS! MABEL

  2. De fato, um conto interessante… partes de meu passado “reviveram”, pois foram muitos os parentes, desde os 7 anos de idade… sempre triste…
    Mas gostei mesmo desse conto, é, propriamente, o que ocorre nos “enterros”….
    Abraços fraternos, meu amigo Fineis.

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