Urucum, o tempo e a vida real

NILSON RIBEIRO – Quer saber como viver plenamente a vida? Não precisa perguntar a algum guru da moda…

Recentemente, me deparei com minha amiga Celi, cozinheira que nos ajuda por aqui, descascando e pilando algumas sementes de urucum, aquela bem vermelhinha, da qual se faz tinta e o colorau para dar vida às receitas. Sou privilegiado, moro em um sítio e tenho urucum no quintal. Algumas pessoas perguntam como podem valorizar seu tempo e sua vida. Pois é exatamente isso que minha amiga Celi faz quando reserva horas para colher, secar, bater, separar, peneirar, lavar as sementes de urucum e ainda cozinhar, misturar à farinha, secar novamente para depois poder usar o colorau, cujo quilo no mercadão não custa mais que uns cinco reais. Parece perda de tempo, né? Pois um anjo me disse que não é!

O colorau é usado em pequenas quantidades, para dar uma “cor” ao molho do franguinho ou da costela com mandioca, além de outras receitinhas caseiras. É produto barato. Talvez não compensasse o trabalho tão artesanal da amiga Celi. Mas essa amiga cozinheira tem um modo peculiar de pensar, e, principalmente, de viver a vida. E eu aprendo muito com essa senhora.

Ao invés de ficar reparando e falando da vida alheia, ela colhe urucum. O tempo que desperdiçaria olhando as redes sociais, ela usa para pilar as sementes. Enquanto peneira e separa, não tem tempo para maldizer o sol muito quente ou o dia muito chuvoso. Enquanto vive a vida real, não perde tempo em ficar imaginando como seria se fosse diferente.

Celi, que aprendeu a ler e escrever bem tardiamente, criada na roça, caladinha (e às vezes muito brava com quem sai da linha – mentindo, desperdiçando, falando da vida alheia), pensa e age como os grandes sábios.

Enquanto vive a vida real, não perde tempo em ficar imaginando como seria se fosse diferente.

De maneira muito natural, ela compreendeu que a vida é isso que acontece neste exato momento. Que sagrado é o modo como você executa suas tarefas – as escolhidas, mas também as necessárias. Que essa coisa de “falta de tempo” é invencionice de quem não sabe exatamente o que fazer com cada segundo. Ela, por exemplo – só para contar rapidamente um pouco da vida dessa sábia mulher – faz faxinas durante a semana toda, trabalha conosco nos finais de semana, mora pra lá de longe, toma três ônibus para chegar ao trabalho. E por volta das sete da manhã já coou o primeiro café do dia para todos nós. Pra isso, precisa pegar o primeiro ônibus no seu bairro às cinco da manhã. Mas quando sai de casa, já deixou pronto o almoço para a filha, que também trabalha fora, e a neta.

Celi é incansável. Nunca se ouve dela uma reclamação da vida ou do que quer que seja. Nunca reparei nela um mau humor. Muito pelo contrário. Quer um sorriso verdadeiro? Diga a ela um simples bom dia! Sua força e amor pela vida podem ser percebidos nos temperos preciosos, nos pratos e quitutes que ela faz com esmero, carinho, paciência e aquele verdadeiro colorau. Que ela mesma, de modo sagrado, preparou.

Bom Dia, Vida!

Nilson Ribeiro é Psicanalista

nilribeiro63@hotmail.com

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