Todos os homens e conjes do Presidente

FREDERICO MORIARTY – O The Guardian publicou em 2013 uma série de reportagens que atingiu a NSA (Agência de Segurança Nacional). Fundada em 1952, a NSA era tão secreta que só 30 anos depois, em pleno governo Reagan (1980-1988), sua existência foi confirmada. Para os teóricos da conspiração mundial, a NSA sempre foi a grande prova de que aquela existia.

Interceptações clandestinas, vigilância via satélite, códigos criptografados, dados de milhões de pessoas, empresas e governos – a agência ligada ao departamento de Defesa norte-americano foi “dedurada” por um ex-funcionário Edward Snowden. Na reportagem, o jornalista Glenn Greenwald liderou uma equipe e conseguiu provar que a NSA controlava e utilizava dados de milhões de cidadãos pelo mundo. O Grande Irmão (de George Orwell) existe!

Greenwald ganhou o Pulitzer, principal prêmio jornalístico mundial, o documentário baseado nas reportagens, que contaram com a parceria do New York Times, Der Spiegel e o Washington Post, denominado de Citizen Four, e levou o Oscar da categoria em 2014. Greenwald, professor de direito constitucional, jornalista e autor de quatro livros (todos nas listas de best-sellers norte-americanos) fundou o The Intercept – um dos mais poderosos instrumentos de defesa dos direitos do cidadão e da liberdade de imprensa.

Por questões pessoais, passa boa parte do tempo no Brasil. Fundou aqui o The Intercept Brasil. Semana passada ele começou a divulgar, a conta-gotas, os diálogos trocados entre o então juiz criminal Sergio Moro e o principal acusador do ex-presidente Lula na auto-denominada operação Lava Jato.

Nas conversas fica evidente a suspeição do magistrado, combinando estratégias com a acusação. A regra universal do Direito atesta que jamais um magistrado conduz uma investigação. Seu papel é de representar o Estado na busca de um julgamento equânime. Não pode ter lado, não pode ter torcida, deve estar sempre de olhos vendados para as partes em conflito e decidir com a razão, a ética e a lei.

Imediatamente após a divulgação dos diálogos, acusadores e pretensos julgadores defenderam-se: “- Fomos hackeados!!”. O problema não estava no que estava escrito, no teor abjeto das relações espúrias e viciadas entre aqueles que deveriam se manter distantes. O problema era a interceptação (que, por sinal, nem sequer foi confirmada).

No filme de 1998, Corra Lola, Corra, a protagonista fica numa interminável volta ao início da ação em que tudo começou a dar errado. As graves revelações do The Intercept Brasil eivam de nulidade todo o processo contra o ex-presidente Lula. É a tese jurídica do “fruits of the poisonous tree”, uma metáfora legal que faz comunicar o vício da ilicitude da prova. Corra Lula, corra e volte ao início. Não necessariamente por ser inocente, mas por não ter sido julgado dentro dos princípios fundamentais de um Estado Democrático de Direito.

No Brasil como nos Estados Unidos reportagens do calibre desta do The Intercept tem o poder de produzir resistências brutais à liberdade de imprensa e ameaças diretas à democracia como um todo. Snowden foi preso dentro de uma embaixada e deverá ser condenado à prisão perpétua na Inglaterra.

Greenwald começa a receber ameaças por aqui (mas lembrem-se que ele já enfrenteu a NSA, a CIA e o FBI). Nossos heróis tropicais acusaram o jornal The Intercept de ser comunista (afinal o PT no final do nome é uma alusão clara ao partido do ex-presidente). Mas há que se resistir. Como fizeram Bob Woodward e Carl Bernstein, entre 1971 e 1974, os jornalistas que revelaram as ligações subterrâneas do caso Watergate.

The Washington Post era um jornal mediano nos Estados Unidos no início dos anos 70. Quase regional, apesar de ser publicado na capital daquele país. Um aparente crime simples de roubo ao prédio do Partido Democrata (no complexo de Watergate), em 1971, inicia a investigação dos repórteres.

O complexo administrativo de Watergate, em Washington, D.C.

Aos poucos, a dupla consegue informações sigilosas de fontes próximas ao governo norte-americano. Durante anos, o presidente Richard Nixon determinara a escuta clandestina e a interceptação de dados do único partido de oposição ao seu governo.

Nixon teve uma ascensão meteórica na política estadunidense. Foi eleito deputado em 1947, senador em 1950 e governador do segundo estado mais importante do país, a Califórnia, em 1951. Todas as eleições com um discurso conservador, reacionário e anti-comunista.

Nixon, quando legislador, havia sido um dos maiores delatores de cidadãos norte-americanos “perigosos e esquerdistas”. Convidado pelo general Dwight Eisenhower, entre 1952 e 1960, tornou-se vice-presidente do país por dois mandatos. Em 1960, o bronco Nixon foi derrotado pelo jovem católico John Kennedy.

Dois anos depois, uma nova derrota para o governo da Califórnia. Nixon estaria acabado não fosse uma guerra e quatro mortes traumáticas em cinco anos. Veio a Guerra do Vietnã (1963) e a ideologia anti-comunista volta aos noticiários. No fim daquele ano, o presidente Kennedy é assassinado. Lyndon Johnson, o vice se reelege em 1964.

O partido Republicano vê o poder cada vez mais distante.Vieram mais três assassinatos: Malcom X (1965) e Martin Luther King (1968), incendiando a questão racial no país, além de Robert Kennedy, em março de 1968, eliminando o principal candidato democrata.

A escalada no Vietnã incomodava a sociedade norte-americana e a culpa era da fraqueza dos esquerdistas. Hippies, feministas, pacifistas destruíam os verdadeiros valores norte-americanos. Nixon se elege presidente com certa folga em 1968. As mortes eram seu principal cabo eleitoral.

Passados quatro anos, a segunda vitória foi esmagadora: 49 dos 50 estados reelegeram o advogado provinciano. Nixon seguiu a regra dos anos 50: vigiar, vigiar e delatar. O partido Democrata deveria ser extirpado dos Estados Unidos.

Alan J. Pakula fez o maravilhoso filme Todos os Homens do Presidente, em 1975. Bob Woodward é interpretado pro Robert Redford, Carl Bernstein por Dustin Hoffman. Bob é idealista, apressado, quer jorrar palavras; Carl é um jornalista às antigas, quer os fatos, as evidências, as provas. O veterano ator Jason Robards é o editor Benn Bradlle. O contraponto.

A certa altura, ele profere a sentença do jornalismo: “Cuidado com as palavras!” Aos poucos, as várias fontes se conectam e a palavra do Deep Throat é corroborada. O escândalo estava provado e mais do que isso: documentado por Nixon em centenas de fitas magnéticas, assim como as mensagens do telegram reveladas pelo The Intercept.

A brava equipe de redação de “Todos os homens do presidente”


Mark Felt era o número 2 do FBI no governo Nixon. O codinome foi uma homenagem ao primeiro clássico dos filmes pornôs explícitos, também de 1973. Na película, a atriz Linda Lovelace faz o papel de Linda uma jovem frígida que jamais atingia ao orgasmo. Ao consultar um médico, veio o diagnóstico: ela nascera com o clitóris no meio da garganta. Somente por meio do famoso “blowjob” ela atingiria o prazer.

O título em inglês? Deep Throat, ou Garganta Profunda, em bom português. Por trás da revelação de Mark Felt está um dos princípios sagrados da profissão jornalística: a proteção da fonte. Sua identidade só foi revelada em 2009, quase quatro décadas após Watergate, como ficou conhecido o escândalo norte-americano.

As reportagens de Bob e Carl levaram o Pulitzer e o filme ganhou vários Oscar. Em 1973, o Senado obrigou o presidente Nixon a entregar as fitas magnéticas. Diante da recusa do chefe supremo, o Congresso iniciou um longo processo que culminou na autorização para iniciar o impeachment do presidente americano.

Em meio à crise econômica que se seguiu à escalada dos preços do petróleo e a derrota no Vietnã, em agosto de 1974, Nixon renuncia, antes de ser cassado. Dois jornalistas conseguiram derrubar o presidente da maior potência hegemônica do planeta – à época, redondo. A democracia vencera uma vez mais.

Watergate nos ensina várias lições: que nenhum poder é ilimitado, que nenhuma autoridade está acima da lei e, principalmente, que nenhum cidadão está fadado a assistir passivamente a sua existência.


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